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Sturgill Simpson – A Sailor’s Guide to Earth (2016)

Paternidade, questões existenciais e cover do Nirvana são a trinca deste excelente álbum de country rock

por brunochair

Tenho 32 anos de idade, e uma experiência que ainda não tive a oportunidade de passar nesta vida é a da paternidade. Ao mesmo tempo, ouço relatos de parentes, amigos e conhecidos que estiveram sob a mesma condição, e a sensação é a mesma: a um só tempo, amor e responsabilidade vão tomando conta da vida do novo pai. Um amor incondicional, que somente pais e mães são capazes de possuir e de manter, além de qualquer vicissitude que ocorra; responsabilidade de oferecer alguém para este mundo, este mundo que nem sempre é justo e repleto de alegrias.

Sturgill Simpson experimentou duas sensações bastante distintas no ano de 2014: seu disco Metamodern Sounds in Country Music, ainda que lançado de forma independente, conseguiu atingir um grande público, e foi bastante elogiado pela crítica especializada. Apenas a título de curiosidade, o disco ficou em 18º lugar na lista de melhores álbuns de 2014, segundo a revista Rolling Stones. A segunda boa nova no ano de 2014 é o nascimento do seu primogênito, que acabou sendo o pano de fundo para todo o disco do qual falaremos a partir de agora, A Sailor’s Guide to Earth.

Simpson usa a relação do marinheiro com o mar para explicar ao filho como a vida funciona*. É, filho, a vida não é assim tão fácil… isso fica claro no decorrer do álbum, Simpson não nega ao filho a realidade, e também mostra o quanto ele é suscetível a erros, a desencontros. Uma entrega sincera, verdadeira, tão real que chega a arrepiar. “Welcome to Earth” é uma música lindíssima, em razão de toda a subjetividade que ela traz consigo. “And if some times daddy has to go away / Please don’t think it means I don’t love you”. Bonito, não?

“Keep It Between The Lines” (a segunda música) e “Call To Arms” (a última do disco) são recomendações do papai Sturgill para o seu filho. A segunda canção cai mais para aquele lado de superproteção, não use drogas, continue na escola, não cometa os mesmos erros do papai e etc, enquanto a última possui um teor mais político – não acredite muito na TV, não torne-se objeto de quem faz guerra para controlar petróleo ou heroína. “Sea Histories” é mais um relato de Simpson para o filho, baseado no período que Simpson esteve prestando serviço para a marinha americana entre os anos de 1996 a 1999. Talvez, por isso, o metáfora marítima venha a ser uma constante neste disco, como forma de reflexão sobre a vida.

sturgill simpson - a sailor's guide to earth3.png

E aí temos uma pérola no disco. Uma versão de Sturgill Simpson para o clássico “In Bloom”, do Nirvana. O cantor conseguiu desconstruir a música, tornou-a um country mais cadenciado, não deixou que ela perdesse a visceralidade em alguns pontos, mas conseguiu dar vazão a uma beleza que estava escondida na canção. Ponto mais que positivo no disco, e que abre espaço para uma segunda parte do álbum (mais existencialista) com as músicas “Brace for Impact”, “All Around You” e “Oh Sarah”. “All around you” tem um clima de balada, e oferece uma perspectiva positiva da vida, para além da ideia de que o mundo parece nos massacrar. É como se Simpson estivesse dizendo: calma, tudo vai ficar bem.

Outra balada do disco, “Oh Sarah” foi composta para sua esposa em 2010, e incluída aqui talvez por conta do clima familiar que permeia todo o álbum. A música possui um arranjo que escapa do costumeiramente country. Aliás, pode-se dizer que o disco está mais para o country rock do que para outros estilos que, aqui e ali, aparecem: o folk, as baladas, o country mais tradicional. Confessional, existencial e com um belo cover do Nirvana, Sturgill Simpson entrega ao público outro excelente álbum. Não afasta de suas questões mais íntimas, não deixa a política de lado, mas também exalta o amor pela mulher e o amor pelo filho mais novo. Excelente disco.

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1 comentário em “Sturgill Simpson – A Sailor’s Guide to Earth (2016)

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