2016 Metal Resenhas

Pain Of Salvation – Remedy Lane Re:visited (2016)

Uma remixagem que dá mais tridimensionalidade ao som e um registro ao vivo poderoso

Por Lucas Scaliza

O Pain Of Salvation dos últimos três anos não é mais o Pain Of Salvation do início da carreira, assim como não era a banda que gravou os discos The Perfect Element (2000) e Be (2004). Entre as várias trocas de membros, que ceifou a participação de músicos talentosos como o pianista Fredrik Hermansson e o baterista Johan Langell e o carismático guitarrista Johan Hallgren. O único nome constante no line up é do vocalista, guitarrista e compositor Daniel Gildenlöw, que continua sendo o coração e a alma da banda sueca de metal alternativo e metal progressivo. Enquanto ele estiver no comando, podemos até notar diferenças técnicas e de expressão artística, mas a banda vai continuar sendo um sinônimo de qualidade e criatividade.

Remedy Lane, o álbum conceitual lançado em 2002, permanece como um dos mais adorados pelos fãs. Em sua última turnê, a Daniel Gildenlöw e banda não tinham um novo disco em mãos para divulgar, então fizeram o favor de tocar Remedy Lane de cabo a rabo. Como conclusão desse projeto, lançaram Remedy Lane Re:visited, um box especial com dois discos. Em um deles temos a apresentação ao vivo do álbum durante o show no ProgPower USA de 2014 com a nova formação. É incrível como o álbum soa forte ao vivo e como a banda o interpreta com paixão e garra. O outro disco é uma remixagem do álbum de estúdio substituindo os instrumentos anteriormente gravados com emuladores de amplificadores por amps reais. Se os timbres de guitarra eram motivo de reclamação do ouvinte mais exigente, dessa vez temos um som pesado, encorpado e mais equilibrado, mas sem perder o feeling original.

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A versão remixada traz todos os mesmos elementos musicais do original, mas com muito mais presença. A clareza do teclado em “Of Two Beginnings”, inclusive em sua metade mais pesada, é suficiente para você se convencer de como esse remix é bem-vindo. Na verdade, esse tipo de som é o que Gildenlöw sempre quis para Remedy Lane e The Perfect Element, mas não tinha os meios ainda ou o dinheiro necessário para contratar uma produção que fizesse jus à composição.

O responsável por essa bela remixagem é o produtor Jens Bogren, do estúdio Fascination Street (utilizado por Opeth, Symphony X, Haken, entre outros) e o mesmo homem por trás de parte da fina produção dos álbuns Be e Scarsick (2007). Os sons do bumbo e do baixo estão mais esféricos, menos achatados na mix. Os dedilhados tornaram-se mais nítidos, fazendo os originais soarem magros. São todas diferenças perceptíveis já em “Ending Themes” ou na incrível “A Trace Of Blood”.

Se o som da guitarra não te convencer já nas duas ou três primeiras faixas, não há como não se render em “Rope Ends”. Agressiva e pespegante, o instrumento está tão nervoso na nova mix quanto nas mãos de Gildenlöw e do guitarrista Ragnar Zolberg na versão ao vivo. E logo ali está o baixo, tão presente quanto ela, reforçando a parede sonora criada pela multiplicação em estúdio das seis cordas. Até mesmo a sintética e texturizada “Remedy Lane” ganhou contorno mais esféricos e som mais envolvente, no entanto não perdeu a cara de música eletrônica retrô e datada.

As power ballads “This Heart Of Mine (I Pledge)” e “Undertow” continuam poderosíssimas na nova mixagem. Dessa vez, os dedilhados de ambas estão muito mais nítidos e expressivos. O ganho de volume e definição na voz de Gildenlöw também garante que as belas melodias tenham impacto sobre nós sem perder a nuance de sofrimento e doçura das originais. Mas chamo a atenção para a versão ao vivo do disco ao vivo. A segunda parte de “This Heart Of Mine”, quando a dinâmica da canção aumenta, é cantada por Zolberg. O guitarrista, que tem uma performance ao vivo bastante metaleira (e bate muito cabelo ao longo de suas apresentações), não tem o mesmo timbre de Gildenlöw, mas atinge a mesma altura sem problemas e, o mais importante, derrama seu coração no trecho em que assume o vocal principal. Não é a toa que Daniel declarou recentemente que encontrou nele um parceiro musical como há anos não tinha. Já “Undertow”, mais dark, mas igualmente rica em emoções, é inteiramente cantada por Zolberg. Seus graves não são tão cheios de alma como os de Gildenlöw, mas dá show quando precisa demonstrar angústia e raiva (com muito drive).

“Beyond The Pale” continua com aquela guitarra magra e média no falante direito, mas são seus graves que chamam a atenção e dão a ela mais peso e profundidade que a original. Ela resume todo o retrabalho que Remedy Lane mereceu: cada instrumento tem sua própria camada; o que era para ser pesado e agressivo está pesado e agressivo; os detalhes melódicos e harmônicos estão mais presentes e podem fazer um ouvinte redescobrir diversas nuances musicais que não havia reparado tão bem anteriormente (lembra que falei do baixo? Então.)

Se a versão remixada é imperdível, a versão ao vivo é uma chance de ver um registro da atual formação do Pain Of Salvation e do poder de fogo de todos eles juntos e sem edição. Um misto de técnica, feeling, crueza e sofisticação que os suecos sempre souberam demonstrar muito bem ao longo da carreira, mesmo com todas as mudanças na formação e diferentes estilos de som a cada álbum. E ainda este ano sai o inédito In The Passing Light Of Day, que Gildenlöw já descreveu como o mais pesado e mais complexo que já gravaram. Remedy Lane Re:visited é o esquenta para o que está por vir.

3 comentários em “Pain Of Salvation – Remedy Lane Re:visited (2016)

  1. Incrível como esse relançamento reacendeu a chama de ouvir de novo essas canções. Esse álbum mudou minha vida, comprei o cd em 2004 e até hj o ouço.
    Realmente nuances nunca antes reveladas surgem, detalhes e sons com muito mais profundidade.
    A parte ao vivo demonstra a força da banda, não perde a essência mesmo com um time todo novo. Prefiro até esse time que o original, porém sinto falta do baixo fretless…
    Esperemos o novo disco aí sim poremos compreender como esse time será em um contexto completamente novo.

  2. Pingback: Pain Of Salvation – In The Passing Light Of Day (2017) | Escuta Essa!

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