2016 Funk Indie Pop r&b Resenhas Soul

Blood Orange – Freetown Sound (2016)

Dev Hynes coloca questões de sexualidade e identidade, negritude e comportamento em obra musical que captura o espírito de nosso tempo

Por Lucas Scaliza

Mais do que qualquer outro estilo musical, a black music ou o R&B (e suas variantes no cenário pop) há décadas é uma das maiores forças comerciais da indústria da música. Trafegam bem pelas músicas românticas, dançantes, de balada, água com açúcar, têm clipes com altas taxas de visualização, vão bem nas rádios e também conseguem fazer músicas de protesto e de teor social e político quando querem. Embora a maior parte da produção tenha caráter comercial, quem se arrisca pelo terreno mais artístico do estilo é recompensado. Pense nos novos discos de Rihanna e Beyoncé, por exemplo; ou então na produção de vanguarda de D’Angelo; isso sem falar no hip hop sofisticado de Kendrick Lamar, no eletrojazz de Flying Lotus ou as viagens de Thundercat.

Blood Orange, o nome artístico do talentoso cantor e multi-instrumentista Devonté Hynes, trilha o caminho do R&B mais artístico e criativo desde que surgiu em 2011 com Coastal Grooves. Desde então só vem lapidando cada vez mais seu estilo e sua sensibilidade, mas Freetown Sound é realmente um disco que supera expectativas e coloca o R&B em outro patamar, até mesmo dentro de sua própria discografia.

blood_orange_Dev-Hynes-by-Michael-Lavine

De um lado, temos o mesmo jeito criativo de propor um R&B cativante, mas sem se render aos padrões radiofônicos. Bem executado como se esperaria de D’Angelo e tão sensível e climático quanto Thundercat faria. De outro lado, temos um artista que tem algo a dizer. Freetown Sound toca em assuntos diversos como feminismo, orientação sexual, homofobia, racismo e política. O timing foi perfeito, já que o disco foi lançado logo depois dos ataques a homossexuais em uma boate de Orlando e em consonância com todos os protestos em diversos pontos dos EUA por práticas racistas de policiais e outras autoridades. É um zeitgeist tão flagrante quanto o do escritor francês Michel Houellebecq e o livro Submissão sendo lançado pouco tempo antes dos ataques do Estado Islâmico ao Charlie Hebdo em 2015. E “Freetown”, que está no nome do disco, é a cidade natal de seu pai, natural de Serra Leoa, e pode apostar que a África e suas figuras estão presentes no disco, como na ótima “Augustine”, que possui uma batida pulsante, mas vocal, piano e sintetizadores fazem com que você sinta que há angústia, na verdade, na canção.

Freetown Sound é tanto um álbum quanto uma mixtape. A lista de convidados especiais é longa, mas são todas composições tão bem feitas que em momento algum parece que Dev Hynes ou a marca Blood Orange precisa das participações para se alavancar. Diferente de D’Angelo, o som dele não é vintage ou exacerbadamente analógico, trafegando entre faixas mais eletrônicas (“Best To You” e “Better Than Me”) por outras com um feeling sonoro totalmente orgânico (“Desirée” e “Juicy 1-4”). Além de diversos discursos que permeiam o álbum, ele é reforçado por excelentes melodias e uma perfeita sintonia entre baixo e as batidas (sejam da bateria acústica ou eletrônica) que garantem que o disco embale o ouvinte.

Entre as preciosidades do álbum, “E.V.P.” (East Village Press), numa pegada soul/funk que teria feito Prince sorrir, é uma das que mais chamam a atenção. Hynes conduz a música com habilidade, mudando a melodia substancialmente dos versos ao pré-refrão, chegando a um refrão inesquecível. Além disso, mantém uma base bem regular para desenvolver vários instrumentos psicodelicamente por cima dela. Até um solo de bateria ele consegue encaixar. Ao que me parece, é uma canção sobre um garoto que descobre não se encaixar nos padrões heteronormativos.

A setentista “Desirée” (para fazer D’Angelo sorrir agora) abre com uma citação do documentário “Paris is Burning”, clássico do cinema LGBT que retrata uma cultura do Harlem em que questões de orientação sexual, identidade de gênero e classe social se combinam e formam um micropanorama social bastante interessante no final da década de 1980. “Hands Up” (“Mãos para cima”) é a música que engana: ela parece animadinha e doce, mas fala sobre a situação dos negros nos EUA, que são constantemente suspeitos de serem criminosos. Hynes tem um ótima saca ao usar a palavra “haitiano” (haiting), para designar uma etnia negra, mas cuja pronúncia se assemelha muito a hating (“ódio”). Outra sacada está em “Chance”, música de batidas esparsas e clima onírico (ecos de FKA Twigs). Em um dueto, Dev Hynes e Kelsey Lu  cantam sobre um negro no meio de uma plateia de brancos que vê uma garota de tranças loiras e a camiseta dela diz “Thug Life” (vida bandida, em tradução livre. Você já viu pessoas privilegiadas usando essa camisa, não viu?), mas ela nem faz ideia do que significa ter de fato uma “thug life”.

Dentre todas as participações especiais, a mais notável é a de Nelly Furtado na delicada “Hadron Collider”. Além de ter mais espaço e tempo que as outras cantoras convidadas, Furtado se beneficia de uma música com versos marcantes em letra e melodia, principalmente quando canta o refrão. Outra participação interessante é a da cantora pop Carly Rae Jepsen que embarca na tensa “Better Than Me”. Uma música introvertida em que ela faz vocais mais contidos e sussurrantes.

Dev Haynes canta, toca guitarra, sintetizador, teclado, bateria e baixo em diversas faixas. O saxofone de Jason Arce permeia o R&B com um pouco de jazz, dando um ar mais sensual ao álbum. Freetown Sound acaba sendo um álbum tão bom e tão importante em 2016 quanto Lemonade da Beyoncé. Embora ambos sejam discos de black music, trabalham com espectros diferentes do R&B. Hynes é mais indie, Beyoncé mais explosiva, mas ambos fizeram discos bons de ouvir e bons para pensarmos sobre eles. Freetown Sound pode ter o nome de uma cidade africana, pode ser feito por um norte-americano, mas é fruto de nosso tempo como poucos conseguem ser. E universal como poucos serão.

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7 comentários em “Blood Orange – Freetown Sound (2016)

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