2016 Eletronica Pop Rap/Hip-Hop Resenhas

The Avalanches – Wildflower (2016)

Trio australiano volta após 16 anos com obra pós-moderna e ainda totalmente calcada na cultura do remix

Por Lucas Scaliza

Não sei vocês, mas meu primeiro contato com Wildflower, mesmo não sendo grande conhecedor do The Avalanches, me fez abrir um sorriso de orelha a orelha.

Existe uma certa inocência no modo como o grupo mistura o retrô, o eletrônico e o rap/hip hop que é contagiante. Após ser transportado para o lado mais ensolarado do Brooklyn de 1970 em “Because I’m Me” (ainda que o rap seja atual, não retrô), fazemos uma incursão ainda mais curiosa para os anos 20 e 30 com “Frankie Sinatra”. Entre um sopro da tuba e o refrãozinho chiclete, temos versos típicos de um “hip hop light” (perdão pela péssima definição) que se adequam perfeitamente à base sonora que emula a música de quase um século atrás. E tudo isso é divertido.

Entre todas as obras que ligam passado e presente, Wildflower soa como um disco pós-moderno no talo. Os estilos, os timbres, os sons, as técnicas de mixagens, as misturas, os mashups, a edição em diversas camadas, a inclusão de sons captados das ruas e de multidões… tudo está a disposição do The Avalanches e eles só encontram uma forma de ligar todos os pontos com extremo bom gosto (o nome do grupo foi retirado de uma música de surf rock americana lançada em 1963). O álbum é um grande remix da cultura do ocidental, com cara de mixtape e incrível poder de entretenimento.

the-avalanches-2016

Se você começa a dançar em “Subways”, não vai parar até o final de “Going Home”. Entre algumas faixas há diálogos e vozes que trazem um tom documental ou cinematográfico ao álbum. É o storytelling se desenvolvendo de maneira criativa dentro do formato de álbum. Quase como se saíssemos de um clube e entrássemos em uma boate. Como se “Loose Yourself To Dance”, do Daft Punk, se transformasse infinitamente e não saíssemos nunca de um looping de boa música.

Os Avalanches são um trio de DJs e artistas eletrônicos australianos formado por Robbie Chater, James Dela Cruz e Tony Di Blasi. Se uniram em 1997 e em 2000 lançaram Since I Left You, único álbum até agora e que fora um enorme sucesso no mundo todo, chegando a ser reconhecido como uma das obras musicais mais importantes da Austrália. A ideia não era demorar 16 anos para lançar um segundo disco, já que estão trabalhando no sucessor desde 2005. Mas Chater sofre de uma doença autoimune que inviabilizou a produção musical dos Avalanches por todos esses anos.

Uma colcha de retalhos gigante, o álbum dispara samples para todos os lados. As referências musicais também estão em peso, transformando-o em um mosaico cultural para testar quantas referências você é capaz de pescar (dica: tem “Come Together”, dos Beatles, na faixa “The Noisy Eater”). Como easter egg, saiba que Kevin Parker, o líder do Tame Impala, toca bateria em “Coming Home”, o grande duo Camp Lo (Sonny Cheeba e Geechi Suede) cantam em “Because I’m Me” e o rapper MF Doom está no single “Frank Sinatra”.

Muitos músicos e cantores foram chamados para participar do projeto, mas tantos anos de produção acabaram levando o disco para outras paragens e muito do que fora gravado acabou ficando de fora. Entre os que ficaram, estão Toro y Moi, Father John Misty, Ariel Pink, Jonathan Donahue e até Warren Ellis (da banda Nick Cave & The Bad Seeds). Apesar de todo o trabalho de pós-produção, os australianos também tocam no álbum, tocando acordeão, bateria, baixo, guitarra, três tipos de sintetizadores, teclado, percussão e até um rádio FM.

Adoramos e nos identificamos muito com discos mais sérios, sombrios e tristes, com discos engajados em questões políticas e sociais. Álbuns assim fazem parecer que alegria e leveza são supérfluos e que apenas aquilo que vai contra o status quo ou que quer nos fazer refletir sobre uma situação tem real valor e merece ter relevância. Se pensarmos assim (e só assim), é fácil esquecer que no final das contas a mudança parte de cada indivíduo e a arte é um gatilho, uma fonte de inspiração, o início e/ou o processo de iluminação que pode nos faz enxergar as coisas de uma maneira nova.

Wildflower é um entretenimento que mexe com nossas memórias sentimentais, causa felicidade por meio da nostalgia e é solar mesmo em suas músicas mais melancólicas (como “Colours”). Mas há também uma posição política nisso: se o mundo vai mal e temos que há um só tempo combater e enfrentar as suas mazelas – e daí temos Kendrick Lamar, PJ Harvey, Beyoncé, Blood Orange e outros denunciando tudo isso – é importante manter pelo menos a esperança dentro de nós. O novo disco dos Avalanches é leve e divertido, sim, mas está longe de ser uma obra alienada. Aproveitando-se do psicodelismo, muitas das ideias propagadas pela parte lírica remetem à contracultura e a discursos antiestabilishment.

O formato é um trunfo de Wildflower, mas poderá irritar todos aqueles que não se dão bem com a “era do remix”. Há faixas com 3 ou 4 minutos que se tratam de músicas completas, mas que ainda assim podem ser entrecortadas com diferenças de volume e outros sons ambientes (como “Sunshine”) – afinal, é como se estivéssemos na cabeça de um personagem que circula por aí enquanto a música rola. Outras faixas tem pouco mais que um minuto (ou menos) que dão um toque mais psicodélico ao trabalho (caso de “Livin’ Underwater” e “Light Up”); ou servem como vinhetas bem feitas que apresentam um projeto musical consistente em pouco tempo (“Park Music”); ou são interlúdios que nunca deixam de ser interessantes (“Going Home”, “Wildflower” e “Zap!”).

Não é o caso de dizer que valeu a espera de 16 anos, pois está claro que Wildflower, mesmo tanto depois da estreia do trio, carrega o mesmíssimo DNA e intenções que Since I Left You. Nós é que ficamos tempo demais longe deles e agora podemos experimentar a mesma nostalgia que o primeiro álbum já havia causado em seus contemporâneos. É um jogo de estética e sentimentos complexos que se desenha agora. Como quase toda obra desavergonhadamente pós-moderna, Wildflower poderá não ter a resistência de quem ainda prefere ouvir bases mais sólidas e menos fluidas.

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1 comentário em “The Avalanches – Wildflower (2016)

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