2016 Metal Resenhas Rock

Emarosa – 131 (2016)

Tristeza, amargura e depressão se transformando em boa música

Por Gabriel Sacramento

Mudanças de lineup podem ser perturbadoras e prejudicar bastante a carreira de uma banda. É comum vermos exemplos de bandas famosas que se perdem no meio do caminho devido às constantes alterações de integrantes. Porém, também é comum conhecermos bandas que melhoram e se adaptam bem às mudanças. A primeira que me vem à cabeça é o Megadeth, que mesmo com tantas saídas e entradas conseguiu lançar discos excelentes. Saber administrar a carreira mesmo com as mudanças de lineup é muito importante para um grupo musical.

Depois de tantas mudanças de pessoal, parece que a Emarosa – banda americana de post-hardcore – se encontrou com seu novo vocalista, Bradley Walden. O músico se uniu ao grupo em 2013 e sua primeira contribuição foi Versus (2014), um álbum muito bom, que expandiu as referências sonoras do grupo. Bradley é um excelente vocalista que aos poucos impôs seu estilo nas canções do grupo.

emarosa_2016

O primeiro disco com a gravadora Hopeless, 131, como foi chamado este novo trabalho, marca o segundo lançamento com Walden e o primeiro como o novo guitarrista base,o Marcellus Wallace. A produção foi assinada pelo Casey Bates (Pierce The Veil, A Skylight Drive).

Desde os primeiros segundos do disco em “Hurt”, percebe-se que o som da banda continua bem diferente do que era nos primeiros registros. Bradley abre cantando suave com backing-vocals ao fundo, até que somos surpreendidos com guitarras pesadas estabelecendo uma parede sonora – algo bem parecido com o que o Deftones fez bastante no fabuloso Gore –, bem como vocais mais agudos. A mudança é perceptível. Soa mais maduro, mais sólido e mais aberto estilisticamente.

“One Car Garage” traz uma dinâmica muito interessante do instrumental, bem como um trabalho vocal digno de nota. Bradley articula muito bem as frases com o ritmo e canta melodias envolventes, recheando-as com muita emoção. “Young Lonely” e “Blue” tratam de depressão e o medo de ficar sozinho com uma sonoridade angustiante e que dá força aos refrãos. Tudo isso, claro, com Bradley despindo sua alma diante do microfone, propiciando uma experiência única para o ouvinte. “Helpless” e a lenta “Porcelain” falam sobre a experiência de um relacionamento complicado, enquanto que “Sure” fala sobre a experiência da perda, com uma sonoridade bem parecida com as demais, dinâmica, mesclando peso desmedido com seções mais leves e com ótimos vocais. Vale destacar uma ideia interessante que eles incluem no final: “Re” é um Outro, composta por pedaços das músicas do disco, nos trazendo uma sensação de nostalgia com relação ao que acabamos de ouvir.

131 é o melhor disco do Emarosa. A banda vem subindo na rampa da evolução do seu som e encontrou no vocalista Bradley Walden um grande impulso. O disco possui ótimas canções que podem despontar como hits (têm potencial para tal) e que soam como uma mix de post-hardcore com rock alternativo, muito influenciado pelo tipo de som que o Deftones faz.

O trabalho de Bradley Walden está sensacional. Ele canta melodias marcantes, interpretando muito bem cada uma, expondo seus sentimentos e contribuindo para o aspecto angustiante, desesperado e triste do disco. As passagens mais depressivas são bem reforçadas pelo seu jeito de cantar regado a falsetes acertadíssimos, bem sacados, bem como força vocal quando é necessário. Ele sabe alternar altos e baixos, suavidade e agressividade, enriquecendo as canções.

Os arranjos possuem uma dinâmica bem interessante. Sempre no refrão, há um aumento de intensidade, principalmente na pegada das guitarras. Isso contribui com a exposição de uma musicalidade intensa, mas amargurada, que vem dos versos sofridos para um refrão forte. Como se refletisse o eu-lírico triste reclamando de seus problemas nos versos e finalmente, sem aguentar mais, expressando-os agressivamente no refrão. As guitarras ajudam a criar a parede sonora que reforça o peso e serve de base para ebulição de emoções do hardcore.

O novo álbum é, sem dúvidas, um dos melhores lançamentos roqueiros do ano. Combina depressão, amargura, intensidade e força com melodias grudentas e emotivas. A banda se afasta cada vez mais daquele som gritado do primeiro disco e assume uma identidade mais original, mais convincente. A tristeza é tratada de uma forma interessante em 131. Mostra que mesmo os sentimentos ruins, tidos como negativos, podem nos ajudar a criar coisas boas.

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Foto: Ashley Osborn
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3 comentários em “Emarosa – 131 (2016)

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