2016 Resenhas Trilha Sonora

Game Of Thrones 6ª Temporada – A trilha sonora (2016)

Música do seriado revela que Daenerys não teve tempo ruim e que o compositor Ramin Djawadi pôde ousar um pouquinho mais

Por Lucas Scaliza

A sexta temporada de Game Of Thrones chegou ao final com a melhor utilização de sua trilha sonora que vimos e ouvimos na série até agora. De uma forma geral, esta temporada tomou algumas liberdades criativas de direção e fotografia que foram suficientes para que tivéssemos uma ótima gama de ótimas novas cenas, como é o caso do teatro que Arya Stark presencia em Braavos ou da cena pré-créditos iniciais em “The Broken Man”, o sétimo episódio, que revela que Sandor Clegane, o Cão, sobreviveu.

Quanto a música, essa liberdade ganha protagonismo até então inédito no derradeiro episódio The Winds Of Winter. A canção “Light Of The Seven”, romântica em sua construção e nas coras, acompanha toda a cena do julgamento de Cersei Lannister e Loras Tyrell. Seus quase dez minutos de duração formam um longo crescendo, transmutando-a de faixa melancólica e lenta de piano para algo inevitavelmente gótico, conforme o órgão ganha espaço e transforma a música de piano em uma sinfonia de morte. Conforme descobrimos que muitos morrerão de forma horrível queimados pelo fogo-vivo, “Light Of The Seven” nunca descamba para uma canção de batalha ou aposta em percussões retumbantes. O órgão, instrumento que nos remete imediatamente a grandes catedrais, dá um clima mais funesto à composição, mas longe de ser explosiva, mantém um tom mais próximo à personalidade de Cersei, para quem o que está para acontecer tem sabor de um doce veneno.

“Light Of The Seven” é uma das composições mais interessantes e mais diferentes que o alemão Ramin Djawadi já incluiu na série – e também a primeira vez que o piano aparece na trilha do seriado desde o seu início. Contudo, o clima musical geral dessa sexta temporada é de que o compositor conseguiu expandir sua musicalidade. Os elementos ainda são os mesmos usados até a quinta temporada, mas vemos uma maior ênfase em linhas mais melodiosas.

Djawadi reúne traços musicais de diversos locais do planeta e cria uma identidade própria para identificar personagens e locais de Westeros e Essos. Para quem tem algum interesse antropológico na criação ou utilização da música, a trilha sonora de GoT até a quinta temporada foi um prato cheio. Embora esse aspecto ainda esteja presente na sexta temporada, está bem mais diluída, abrindo espaço para uma relativa modernização das trilhas.

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  1. DAENERYS

Trata-se de uma série rica em reviravoltas e mortes de personagens que julgamos importantes, mas isso não quer dizer que não existam momentos positivos que enaltecem conquistas e a grandeza de uma situação ou personagem. E nenhum outro personagem teve tantos momentos de triunfo nesta temporada quanto Daenerys Targaryen. “Blood Of My Blood” é, assim, o primeiro épico dessa nova trilha sonora. A música que acompanha Daenerys vitoriosa sobre os Dothrakis, montada no dragão e dando um discurso motivacional ao recém-conquistado povo. A percussão é tribal e militar, mas tem um colorido na melodia que realça a intenção épica da música e do momento que retrata.

“Khaleesi”é exatamente a mesma música, com os mesmos elementos, uma variação da música de triunfo de Daenerys para a cena em que surge diante do templo de Dosh Khaleen sem nenhuma queimadura. Ainda há ainda a música “Reign” na cena em que Daenerys volta a Mereen e coloca seus dragões para atacar as frotas dos mestres das cidades da Baía dos Escravos. Logo no início é possível reparar que um dos instrumentos da orquestra cria uma base grave nas cordas, emulando ruídos eletrônicos feitos por sintetizador. E a faixa “The Winds of Winter”, nome que dá título ao episódio final e ao vindouro sexto livro da série, acompanha a Mães dos Dragões zarpando de Essos em direção a Westeros com uma grande frota. Uma música que se encaixa perfeitamente no contexto da cena: fluente como as águas do oceano, ritmada como os hinos militares e vivaz para anunciar a grandeza de seu exército e da série em si, já que é a última cena da temporada.

A única música de destaque da trilha sonora ligada a Daenerys que não é épica é “I Need You By My Side”, executada na cena em que ela descobre a doença de Jorah e o manda procurar uma cura. Mesmo tendo uma linha melódica triste, Djawadi a completa com percussão forte e uma orquestração ascendente, indicando que mesmo essa separação não é uma derrota ou motivo de pesar, e sim um raio de esperança. No que depender da trilha sonora, a sexta temporada de GoT assinala que Daenerys Nascida da Tormenta conseguiu reverter todos os reveses a seu favor.

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  1. BASTARDOS

Na temporada anterior, Ramin Djawadi compôs as duas partes de “Hardhome” para a épica batalha dos selvagens contra o exército dos caminhantes brancos, uma peça de ação extremamente bem feita. Para a crua e angustiante batalha dos bastardos da sexta tempora, ele criou uma trinca de canções que também servem à finalidade de refletir o interior dos personagens e servir como trilha marcial para o massacre em cena. “Let’s Play a Game”, a primeira delas, começa com ruídos, vibrações graves e dissonâncias que revelam as intenções sinistras de Ramsay Bolton, o grande crápula e sádico das temporadas 4, 5 e 6. Conforme se aproxima do final, torna-se uma trilha enervante de expectativa de batalha com um final musicalmente mais ensolarado que coincide com a imagem de Jon Snow confrontando sozinho um exército inteiro e, no final, sendo ajudado por seu próprio exército.

“Bastard” é arrastada e militar, a música que ajudou a criar a impressão de sufocamento e claustrofobia durante a cena em que o exército de Jon Snow está cercado e uma pilha de homens se forma. A música é bastante comum do ponto de vista da trilha sonora, mas o que chama a atenção é a manipulação da dinâmica que ajuda Djawadi expressar as diversas fases da cena. No meio das repetições de fraseados de violinos e das notas graves dos metais, há ótimas melodias que chegam à superfície e se destacam, pontuando momentos importantes da cena. “Trust Each Other” marca a vitória da batalha, quando os Cavaleiros do Vale chegam para ajudar as forças do Norte e pôr um fim à batalha. Com três atos diferentes (glória, batalha e encerramento), não chega a impressionar.

De forma geral, as músicas escolhidas para o episódio Battle Of The Bastards cumprem seu papel eficientemente, mas sem grandes qualidades a serem ressaltadas. As duas faixas que compuseram a trilha de Hardhome, o episódio de grande batalha da quinta temporada, conseguiram ser mais impressionantes. Contudo, se a trilha sonora da maior cena de guerra já filmada para o seriado economizou, preste atenção nos efeitos sonoros (batidas, golpes, arranhões de armadura, trovões, etc). Esse tipo de som tem peso por si próprio e está bastante ressaltado na cena.

Há mais duas canções diretamente ligadas à Jon Snow na trilha desta temporada. “My Watched Has Ended” surge como a música tema do personagem, solene e melancólica. “Winter Has Come”, música que acompanha a consagração de Jon como rei do Norte no último episódio, é uma continuação direta de “My Watch Has Ended”, mas adicionando percussão e mais cor à música, assim como a melodia da música de abertura, demonstrando a importância do acontecimento e a centralidade do personagem na trama.

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  1. SEGURE A PORTA / NINGUÉM / FEITICEIRA

Com mais de sete minutos de duração, “Hold The Door” é a faixa que acompanha uma das cenas mais icônicas dessa temporada: a invasão dos Outros à caverna na base da árvore onde se escondiam Bran, o Corvo de Três Olhos e Hodor. Notas sinistras de piano, clima de ação e perseguição dignos de filme de terror. É bastante comum que as canções de Ramin Djawadi tenham duas (ou mais) partes diferentes, de modo que a mesma música consiga representar continuamente uma cena e seu desfecho. Essa é uma característica básica de como o alemão e tantos outros compositores trabalham suas trilhas. Após todo o inferno da perseguição, a faixa dá espaço em seu terço final para uma música menos tensa e mais sentimental, marcando a morte de um personagem e mais querendo nos deixar com o coração na mão do que aliviar o que acabamos de presenciar.

Isso ocorre também em “A Painless Death”, música que acompanha a perseguição de Waif à Arya Stark no episódio No One. De trilha de ação, ela se torna climática para funcionar com a cena em que Arya corta a única vela de seu esconderijo para poder enfrentar sua algoz no escuro, não nos deixando saber o que acontece e criando um breve momento de suspense. Mas a verdadeira preciosidade entre as músicas que envolvem Arya é “Needle”, que dispensa os contrastes apresentados na temporada passada para representar a Casa do Petro e Branco e aposta em ritmo, cor e sons mais gentis. É uma canção de triunfo diferente das que foram apresentadas na série até agora e marca o momento em que Arya confronta Jaqen H’Ghaar e retoma seu nome.

“The Red Woman” marca a cena final do primeiro episódio da temporada, em que Melissandre tira seu colar e revela sua verdadeira forma. A faixa, a princípio, é climática e mostra o melhor lado de Djawadi como um manipulador de notas que soam suspensas no ar. Contudo, a segunda metade é levada por percussão e as repetições de praxe que tentam ressaltar o nervosismo da descoberta enquanto os créditos sobem. Embora não seja uma resolução musical original, funciona. Já “Lord of the Light”, que é executada no episódio Home, quando Jon Snow mostra que voltou dos mortos após a atuação da feiticeira, tem um primeiro ato incrivelmente bem construído, usando elementos de outras canções anteriormente apresentadas, mas criando uma vibe pesada para a bruxaria. Sua segunda metade repete o maneirismo de “The Red Woman”, porém.

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  1. FINALE

Os elementos básicos que compõem a trilha de Game Of Thrones estão presentes nesta sexta edição da trilha sonora: percussões militares, percussões de cunho mais étnico, frases repetitivas para aumentar o nervoso, tempo convulsivo para ação e orquestração poderosa. Mas entre uma música e outra mais comum, temos sons novos e jeitos diferentes de encarar a representação de personagens e de cenas. É claro que a maior contribuição é “Light Of The Seven”, mas “Needle” merece destaque também, assim como “Hold The Door”, a linda “The Tower” (que marca o encontro de Ned e Lyanna Stark no alto da Torre da Alegria) e a curta mas atormentada “I Choose Violence”, que dá o tom de ameaça na cena em que Cersei se recusa a ir com os emissários da Fé dos Sete. Uma faixa “quieta” como essa funciona sozinha e ao mesmo tempo não tira o brilho dos diálogos.

Para a sétima temporada o compositor espera que haja mais exércitos em campo e isso leve a mais batalhas, então podemos esperar mais trilhas de ação, mais enormes orquestrações e corais. No entanto, como a série ainda se preocupa com drama e desenvolvimento de personagens, teremos também nuances menos épicas e mais íntimas, o tipo de faixa que nos faz nos envolvermos com a história sem perceber.

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1 comentário em “Game Of Thrones 6ª Temporada – A trilha sonora (2016)

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