2016 Jazz Rap/Hip-Hop Resenhas

BadBadNotGood – IV (2016)

Retrô e moderno, o hip hop com pegada de jazz, e o jazz em estado de arte pós-moderna

Por Lucas Scaliza

Daí que fizeram hip hop instrumental. E misturaram com jazz.

O hip hop é uma cultura abrangente que se manifesta na música (geralmente negra e muito marcada pelo rap), nas artes plásticas (grafite é o primeiro que vem a mente), na dança (break e uma série de outras vertentes em constante evolução e miscigenação) e no engajamento político e social. Enquanto música, as versões comerciais do hip hop sempre dependeram muito das letras, por isso é estranho pensar em hip hop instrumental. No entanto, é grande o número de artistas do gênero dedicados a criar apenas a parte sonora desse nicho cultural. E o jazz, embora tenha uma matriz negra reconhecidíssima, tem invadido o hip hop graças a qualidade musical de artistas como Flying Lotus, Kamasi Washington, Kendrick Lamar, Erykah Badu e Thundercat.

Uma das ideias mais legais vem dos canadenses do BadBadNotGood, um quarteto de músicos brancos de Toronto – uma das cidades mais inclusivas e universais do planeta – que acabam de lançar o quarto álbum da carreira (ou quinto, se contar o disco em parceria com o rapper Ghostface Killah lançado em 2015). O resultado é um som que aproxima o retrô e o moderno, propõe levadas de hip hop com a pegada do jazz, e quando o jazz surge, vem em estado de arte pós-moderna. Embora IV incline mais para o jazz do que para o hip hop, o senso de equilíbrio da banda é notável, assim como a intenção de fazer uma música que é palatável, mas não de uma forma comercial. Nunca lidam com as versões mais pop do hip hop ou do jazz.

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Matthew Tavares, Chester Hansen, Alexander Sowinski e Leland Whitty (que era músico de turnê e a partir de agora é membro fixo da banda) se dividem e se revezam em uma série de diferentes instrumentos – saxofone, vibrafone, percussão, bateria, bateria eletrônica, órgão, piano, teclado, sintetizadores, guitarra, violão, clarinete, baixo – para criar uma música rica de arranjos e de atmosfera, mas que nunca soa embolada ou sobrecarregada. A faixa de abertura de IV, “And That, Too”, apresenta uma base que não é das mais fáceis de se acompanhar, embora não seja difícil de ouvi-la. E enquanto o sax de Whitty sola, temos vários outros instrumentos com menor relevância criando linhas melódicas ao mesmo tempo, mas a mixagem caprichada fez questão de separar cada um em uma camada, trazendo-os mais para o centro da mix e levando-os para a periferia, mantendo apenas o baixo martelando suas notas regularmente. E nada soa caótico, é uma fusão bastante limpa em termos de produção.

Com a participação do saxofonista Colin Stetson, “Confessions Pt. II” é um exemplo de como o BadBadNotGood cria uma base rítmica de hip hop que vai transitando pelos acordes da harmonia jazzística. Stetson usa o saxofone para criar temas e para improvisar livremente. Também existe um trecho de grande ruído. As mudanças no humor da canção são típicos de uma abordagem mais contemporânea do jazz, criando uma longa passagem de tensão antes de voltar ao tema principal. O haitiano radicado no Canadá Kaytranada comanda o sintetizador clássico CS60 da Yamaha em “Lavender”, exemplo do hip hop instrumental e sinuoso que a banda faz. A também instrumental “Speaking Gently” é um tanto psicodélica e mostra as habilidades para ritmos entrecortados de Sowinski na bateria e o colorido que Tavares é capaz de criar com as teclas. Não deixe de prestar atenção no baixo de Hansen, que marca a levada da música nos versos e cria sua própria linha melódica no refrão.

“Chompy’s Paradise” tem a elegância do jazz moderno e clima de noite tropical. O bom gosto do grupo fica evidente na forma como conduzem as passagens de uma parte a outra da canção, sempre com suavidade e linhas melódicas que prendem nossa atenção. “IV” é puro virtuosismo jazzístico e trabalho de dinâmica. O piano de Tavares e o sax tenor de Whitty improvisam quase o tempo todo, sendo um deleite e um must see para fãs de jazz moderno e contemporâneo – ou para quem quer ter uma ideia de como o jazz instrumental de alta performance soa nos dias de hoje.

Embora o quarteto seja instrumental, eles convidam cantores para colocarem voz em suas excelentes músicas. Em IV temos a participação do rapper americano Mick Jenkins na ótima “Hyssop Of Love”, que basicamente é uma cozinha hip hop, um sintetizador dando uma atmosfera esfumaçada ao ambiente e Jenkins fazendo rap. Com vocal de Charlotte Day Wilson, “In Your Eyes” é cativante e tem a mesma vibe cinematográfica que as produções recentes do Danger Mouse. É a faixa em que Leland Whitty se divide entre guitarra elétrica, violino e flauta, enquanto Alexander Sowinski dá o colorido do vibrafone. E se o disco precisa de um single, ele é a suave “Time Moves Slowly”, com vocal de Sam Herring. Embora seja um rapper, é também o vocalista da banda de synthpop Future Islands. Sua performance na faixa é ótima, digna de um crooner de jazz.

O BadBadNotGood tem uma formação musical ampla e todos eram estudantes de música no Humber College de Toronto. O foco dos quatro sempre esteve no jazz, mas conseguiram chamar a atenção fazendo covers de hip hop. E então produziram músicas de gente da área, colocando no currículo colaborações com nomes como Rihanna, Wiz Khalifa, Drake, entre outros. A certa altura da carreira, deixaram de tocar os hinos do jazz e se focaram nos covers. Aos poucos, conseguiram formar uma identidade musical que abarcou ambos os estilos (o que pode ser visto nos dois primeiros discos do BBNG), porém o grande mérito é terem se libertado tanto do formatão jazz quanto dos covers a partir do terceiro álbum. É fusão entre jazz e hip hop, obedecendo na maior parte das vezes a liberdade criativa do jazz dos dias de hoje, mas ainda resguardando um sabor clássico.

IV é o melhor álbum deles até agora e uma excelente carta de apresentação. É o primeiro trabalho do grupo em que a estética almejada pelo BBNG parece completa, pelo menos neste estágio da banda. Não há uma faixa ruim sequer, nenhuma participação deslocada e não sofrem nem com excessos de virtuose e nem com falta de apelo emocional. Um disco que não deixa de agradar os sentidos, mas que não tem nada de chiclete, cafona ou ansioso para cair nas graças do público. O quarteto está sendo fiel à sua música e às suas intenções, o que é ótimo para ajudar a fisgar o público correto.

Os recentes discos de hip hop e jazz dos artistas citados lá no segundo parágrafo criaram um cenário de maior sofisticação para parte da black music e uma abertura sonora para o jazz. Isso abriu espaço para que uma banda como BadBadNotGood se encaixasse perfeitamente no quebra-cabeça como uma banda híbrida que é tanto aquele sopro de frescor no jazz quanto aquela chama de transformação no hip hop – e são quase os únicos músicos brancos do “movimento”. Vale a pena conhecer e acompanhar. Um capítulo totalmente novo da música está sendo escrito e IV é parte disso agora.

BADBADNOTGOOD_2016

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7 comentários em “BadBadNotGood – IV (2016)

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