2016 Indie Resenhas Rock

Supercombo – Rogério (2016)

Obscuro, complexo, com letras fortes e bonito

Por Gabriel Sacramento

Supercombo é uma das bandas egressas do programa Superstar da Globo, que permitiu ao grupo recordes no Spotify e uma turnê lucrativa do último álbum, Amianto (2014). Porém, antes de sua participação no programa global em 2015, a banda já tinha uma carreira com alguns discos lançados. O primeiro deles foi Festa, de 2007.

O novo lançamento – Rogério – mostra que a banda soube lidar com o sucesso do álbum anterior e isso os motivou a melhorar. A sonoridade continua roqueira, menos indie aqui, com peso desmedido em algumas partes, controlado em outras, e uma complexidade instrumental maior também.

supercombo_2016

As boas impressões começam desde o título do álbum, que foi uma genial tentativa de personificar o “lado ruim das pessoas””, como afirmou o vocalista Leo Ramos em uma entrevista recente. Segundo ele, os fatores negativos presentes nas letras são resumidos em uma só palavra – não uma palavra, uma persona – que ganhou até foto na capa do álbum.

As letras são variadas, trazendo elementos cotidianos e comuns, contribuindo para o fator descomplicado da mensagem que o grupo passa. Desde alguns sutis versos recheados de crise existencial e de pessimismo. “Lentes” quase não entrou em Rogério, pois possui uma sonoridade bem diferente do resto do trabalho. A faixa conta a história de uma mulher que aprecia cultura oriental e fotografia, com versos bem elaborados. Em todo o disco, aparecem referências à persona que dá nome ao trabalho, sempre referido como algo ruim.

“Magaiver” abre com uma guitarra limpa e uma sonoridade que lembra o Jota Quest. Só aí, já dá pra sacar que os caras expandiram bem as ideias. O refrão é cantado pela baixista Carol Navarro. Traz a primeira das muitas participações do álbum: Keops e Raony, da banda Medulla, que contribuem com um rap. “A Piscina e o Karma” destaca o vocalista Leo Ramos e seu estilo singular de cantar. A melhor faixa do álbum vem na sequência: “Bonsai” tem o refrão mais marcante do disco, com um peso muito bem colocado, reforçado na marcação dos acordes. Além disso, traz ótimos vocais de Leo, com falsetes acertados.

“Grão de Areia” traz melodias obscuras e levemente dissonantes, explodindo em um refrão pessimista, pesado e expressivo. A performance de Raul de Paula na bateria é irrepreensível. Tem a participação de Gustavo Bertoni, vocalista do Scalene, que coloca muito bem sua voz e reafirma o poder e o peso da faixa. O lado mais dark do grupo dá as caras mais uma vez em “Eutanásia”, com Sérgio Britto, dos Titãs, emprestando sua voz, e em “Monstros”, cantada em dueto com Mauro Henrique, do Oficina G3. “Embrulho” possui a sonoridade mais variada do álbum, com efeitos eletrônicos e ritmos quebrados. Destaco o piano da canção, com as notas dançando livremente sobre a base instrumental de fundo.

“Morar” possui uma letra muito interessante, aliando críticas pesadas (“Sermão é só pra quem tem envergadura moral/ Você não tem”) à frases de efeito sensacionais como: “Em 2012 o mundo não acabou, mas a paciência sim”. “Jovem” e a faixa-título têm refrãos bem pesados, que impressionam pela mix bem feita.

O peso de algumas partes impressiona, mostrando que o Supercombo não é exatamente a banda “fofa” que podem ter parecido no programa da Rede Globo. Mas soar pesado não é nenhum mérito hoje em dia. O que faz a diferença é mostrar uma razão para ser pesado, e o Supercombo consegue isso com o conteúdo de suas letras, entregando bons refrãos e versos bem estruturados que casam perfeitamente com o instrumental. O resultado é um disco muito bom, com méritos que vão da execução de cada músico individualmente à mixagem bem balanceada.

O grupo conseguiu abarcar diferentes sonoridades dentro de Rogério, mantendo-se fiel ao rock e usando a sensibilidade para manter tudo muito em equilíbrio. Outro destaque é a complexidade instrumental. É possível notar uma noção maior de harmonia e de ritmo na música do Supercombo. Em diversos momentos, eles fazem uso de harmonias/melodias bem construídas, com dissonâncias que, no geral, engrandecem os arranjos. Também se preocuparam com os climas das canções, trabalhando para ser pesado, sombrio e bonito ao mesmo tempo.

As performances são convincentes. O vocalista Leo Ramos usa falsetes e gritos aliados à sua interpretação que sabe como colocar sentimento onde é necessário. Raul de Paula, como sempre, executa muito bem seu instrumento, reforçando a cozinha rítmica com ideias ousadas e bem elaboradas, que enriquecem a música do grupo.

Depois do sucesso de Amianto, o Supercombo soube se concentrar para fazer um grande álbum. Rogério é complexo, sombrio e obscuro, ao mesmo tempo em que é marcante e belo, com boas letras e um conceito forte. Definitivamente, o melhor disco da banda e um dos melhores do ano.

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1 comentário em “Supercombo – Rogério (2016)

  1. Pingback: Scalene – Magnetite (2017) – Escuta Essa!

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