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Wado – Ivete (2016)

A musa, o conceito, e o axé ao modo Wado

por brunochair

O que é um álbum conceitual? Em uma das primeiras resenhas que escrevi para o Escuta Essa!, escrevi um pequeno ensaio sobre o que eu considerava ser um. E a conclusão que cheguei é que a definição pode ser bem elástica, e não compreende apenas o estilo musical e sonoro, mas também fatores estéticos como um todo: capa, letras, engenharia de som, tecnologias empregadas, engajamento político, etc. Conceitos elásticos e dinâmicos, pois podem variar conforme espaço/tempo, e para que possamos compreender a amplitude de determinada obra artística, necessário se faz contextualizá-la para cada época.

Ivete. Um nome de impacto para o álbum, não? Se você esteve no Brasil entre as décadas de 90 e anos 2000 e acompanha a ascensão da axé music como ritmo pop, sabe que Ivete Sangalo é uma grande referência no ritmo. Ao mesmo tempo, até entre os que torceram (e torcem) o nariz para a popularização do axé, veem em Ivete uma figura artisticamente interessante, alguém que está acima do bem e do mal – intocada. Portanto, quando Wado escolheu o nome de seu álbum como Ivete, há muito além de uma simples escolha.

“Ivete é a musa a não ser alcançada, ela é norte, mas não é ela quem canta o disco”, explica Wado, “ela é a musa intocada da empreitada”. Essas frases estão no site do Wado, e acabam por confirmar o que até então está dito: Ivete é um conceito. E podemos ir além: realmente, é um disco que flerta com o axé, mas não é o axé popularizado de Ivete Sangalo. É um axé mais profundo, que procura retornar às suas origens mais críticas. Um axé também modificado pela sonoridade indie de Wado, que reelabora a partir do seu grande repertório musical, bem trabalhado no decorrer da sua discografia.

Wado ivete2.jpg

“Alabama”, o primeiro single e a intro de Ivete, mostra esse axé mais Moraes Moreira e Pepeu Gomes dos anos 80 com uma pitada contestatória, ao fazer alusão a “Strange Fruit”, famosa música de Billie Holliday que condena o racismo à americana. Seguindo em temas espinhosos, a questão Palestina/Israel em “Terra Santa/Jesus é Palestino”. Essa música já foge um pouco da pegada do axé, muito mais encorpada com a característica do fazer musical do próprio Wado.

Duas releituras em Ivete ganharam uma roupagem do axé e do ijexá, e são pontos altos do disco: a primeira é “Um Passo a Frente”, canção de Moreno Veloso que ganhou um ritmo bastante solar e poderia (facilmente) ser cantada pela própria Ivete Sangalo, num futuro DVD do Wado; a outra é “Filhos de Gandhi”, música de Gilberto Gil. Nesta, Wado parece ter respeitado uma certa memória afetiva, produzindo uma versão bonita e justa – tão reverente quanto é Gustavito, quando gravou Quilombo Oriental ano passado.

 “Sexo”, “Mistério” e “Você não Vem” são músicas que estão no miolo do disco e apresentam esse equilíbrio entre o axé e o indie, e acabam por criar o “axé ao modo Wado”. Há muito de Atlântico Negro (álbum de 2009) em Ivete, mas também há muito de Fino Coletivo (banda que Wado integrava) em tudo o que o cantor e compositor faz, desde que decidiu caminhar em carreira solo.

As três últimas músicas do disco “Samba de Amor”, “Amanheceu” e “Nós” partem para outras referências musicais, fugindo do axé e ijexá. Se a proposta era fazer um disco inteiramente conceitual, talvez estas músicas não devessem estar ali, mas sim em trabalhos posteriores do Wado, ou mesmo lançadas como singles. Que fique claro que não são músicas ruins, mas acabam por descaracterizar o conceito do álbum, que parece ter sido trabalhado com bastante esmero.

Por fim, reafirmando o que já disse em resenha anterior (1977, de 2015) Wado continua sendo um artista interessantíssimo para se acompanhar: prolífico e irrequieto, em questão de meses lança um álbum com proposta musical completamente distinta do anterior, algo que tornou-se comum na sua discografia. De álbum em álbum, passeando por vários estilos e referências musicais, Wado consolida o seu próprio, e continua a atrair os olhares de um público atento e curioso.

Inclusive, agora, o do público de Ivete…

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1 comentário em “Wado – Ivete (2016)

  1. Pingback: Momo – Voá (2017) | Escuta Essa!

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