2016 Eletronica Indie Rap/Hip-Hop Resenhas Rock Trilha Sonora

Esquadrão Suicida (Suicide Squad) – a trilha sonora (2016)

Ótima seleção de músicas, mas mal aproveitada ao longo do filme

Por Lucas Scaliza

A ideia era muito boa: reunir alguns vilões de segundo escalão da DC Comics em uma superequipe para realizar missões secretas e com poucas chances de sucesso para o governo dos Estados Unidos. Como esses vilões estão cumprindo penas perpétuas, talvez seja a única chance de conseguirem negociar suas penas. E para o governo – e para a sociedade – fariam pouca falta no mundo caso morram. São vistos como a escória da humanidade, afinal. Somente a premissa da história abre um caldeirão de possibilidades narrativas, com inversões morais interessantíssimas. Afinal, como conduzir uma história em que o leitor ou telespectador precisa torcer para caras maus de verdade?

O Esquadrão Suicida nunca foi uma das séries mais populares da DC. Assim como os Guardiões da Galáxia da Marvel, apenas os mais aficionados pelos quadrinhos da editora conheciam ou tinham alguma noção do que seria esse supergrupo. O poder do cinema blockbuster – e de suas milionárias campanhas de marketing – se encarregou de criar todo o buzz em cima da marca. Some isso à presença de um novo Coringa vivido por Jared Leto, um ator vencedor do Oscar e que também é cantor da banda de rock 30 Seconds To Mars, e temos talvez o filme com o maior hype do ano.

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Tinha tudo para ser um filme que colocaria os dilemas morais frequentemente vistos na enxurrada de filmes super-heroicos de cabeça para baixo, trazendo algo novo ao gênero. O diretor David Ayer, de filmes como Dia de Treinamento (2001), Marcados Para Morrer (2012) e o filme de tanque de guerra Corações de Ferro (2014), já tinha provado que sabe construir cenas de ação interessantes, criar tensão e dirigir atores. Mas o resultado em Esquadrão Suicida é decepcionante em todos esses aspectos, inclusive no musical.

Para começar, a história é apenas um fiapo. O grupo de vilões (que não cometem vilania nenhuma ao longo de todo o filme) precisa atravessar a cidade de Midway para primeiro resgatar Amanda Waller (Viola Davies), a chefe linha-dura do Esquadrão Suicida, e depois enfrentar dois inimigos poderosos (com um grau de destruição totalmente fora dos padrões enfrentados pelo Esquadrão em suas histórias originais).

Há muitos furos de roteiro, basta olhar com mais atenção e menos empolgação para vê-los. A produção inclusive utiliza a trilha sonora – repleta rock, pop e hip hop – para ajudar a construir cada personagem. Mas como o espaço dado para a apresentação de cada um é pequeno, a música vira uma muleta. Quando Amanda Waller (a verdadeira anti-heroína do filme, aquela personagem casca grossa mesmo) surge para recrutar Arlequina, a música é “Symphathy For The Devil”, dos Rolling Stones. E a personagem de Margot Robbie ainda pergunta “Você é o diabo?”, deixando claro como a redundância do roteiro e da música utilizada desconfia da inteligência do espectador.

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Há muito mais músicas no filme do que na trilha sonora lançada (ficaria muito caro licenciar tudo para o disco do filme) e a seleção é excelente. Tem The White Stripes, Black Sabbath, AC/DC, Queen, Etta James, Kanye West e muitos outros. O repertório não é o problema: juntar todas essas músicas (que listei lá embaixo para facilitar) forma uma ótima playlist condizente com o espírito do filme, misturando clássicos com canções mais atuais. No entanto, nem todas são bem utilizadas e várias surgem para realçar a obviedade da narrativa, como na cena com Amanda Waller chegando na cela de Arlequina.

Assim que o filme começa, vemos o Pistoleiro (Will Smith) preso, socando um saco de boxe com a música “The House Of The Rising Sun”, clássico dos The Animals, ao fundo. A prisão em que ele está fica na Louisiana. Junte todos os elementos e a primeira estrofe da música: “Tem uma casa em New Orleans/ Chamam de Casa do Sol Nascente/ E ela foi a ruína de muitos outros pobres garotos/ E Deus, eu sei que sou um deles”. Ou seja, uma música que fala de um lugar para condenados no estado da Louisiana e um personagem condenado numa prisão na principal cidade da Louisiana. Ótima música, mas literal demais.

A música “You Don’t Own Me” é de 1963, gravada por Lesley Gore quando ela tinha apenas 17 anos, mas a versão executada no filme é de Grace e G-Eazy, misturando a música original com partes de rap. A letra diz: “Não sou sua/ Não sou um de seus brinquedos/ Não sou sua/ Não diga que não posso ir com outros rapazes”. Não é difícil supor que é a música que introduz Arlequina, né? Mas é uma boa escolha. “Super Freak”, de Rick James, sucesso da Motown em 1981, é outra cuja letra e o jeito divertido e colorido foi associada à Arlequina, desta vez acertando em cheio.

“Paranoid”, do Black Sabbath, chega com tudo em um momento do filme em que coisas emocionantes parecem estar para acontecer. Assim, os acordes de Tony Iommi e o baixo Geezer Butler servem como uma injeção de ânimo ao momento. A clássica “Seven Nation Army”, do The White Stripes, surge justamente na cena em que todos os integrantes do Esquadrão e mais alguns soldados americanos se reúnem (apressadamente) para saírem em missão. De novo, ótima música, mas usada de modo literal demais. Em seguida, com o time já formado, ouvimos “Without Me”, um tremendo sucesso comercial de Eminem em 2002. A música é ótima para o momento em que é executada e sua letra combina perfeitamente com o Esquadrão Suicida, já que é uma música em que o rapper de Detroit afirma a sua posição de figura contraditória na música mainstream. O problema desta é que acaba totalmente picotada. Temos a intro, a primeira parte pela metade, um refrão apressado e já pula para o final. Se tem uma música que simboliza o filme como um todo, é esta. Toda editada acaba não fazendo muito sentido (como o filme) e embora a controvérsia e o espírito mais caótico esteja no centro do Esquadrão nos quadrinhos e na música, é justamente o que falta ao filme.

Clássicos roqueiros como “Spirit In The Sky”, de Normal Greenbaum,  “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, do AC/DC, e “Fortunate Son”, do Creedence Clearwater Revival, dividem espaço com hip hops modernos como “Know Better”, de Kevin Gates, a pesada “Black Skinhead”, de Kanye West, e a eletrônica “Gangsta”, de Kehlani. Todas executadas sem ocupar muito tempo e, como cada uma serve para complementar a apresentação de um personagem ou situação, é fácil perceber como o roteiro se apressa.

Se Esquadrão Suicida sofre com o fraco storytelling, sofre também ao tentar ser o Guardiões da Galáxia da DC/Warner. O filme da Marvel, além de melhor construído, cuidou direitinho de sua seleção musical. Além de escolher músicas populares de rock e soul dos anos 70 e 80, soube dar a elas um motivo especial e marcante para existir ao longo de todo o filme. Não apenas Peter Quill tem uma relação emocional com sua Awesome Mixtape, mas nós também somos levados a ter, como espectadores, por sempre significarem algo em uma parte significativa do filme. A seleção de Esquadrão é boa, mas nada menos que 17 músicas (de um total de 23) são tocadas na primeira meia hora de filme, comprometendo demais o aproveitamento de cada uma.

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A boa versão do Panic! At The Disco para “Bohemian Rhapsody”, do Queen, fica para as últimas cenas do filme, sendo sucedida pelo hit “Heathens”, do Twenty One Pilots, que é ameaçadora no discurso e doce na expressão (um pouco como os pretensos vilões do filme). No fim, há “Sucker For Pain”, feita exclusivamente para o filme pelo combo Lil Wayne, Imagine Dragons, Logic e Ty Dolla $ign, sem falar na participação de Ambassadors. Uma faixa comercial que aposta em um rap levinho e um refrão melodioso.

“Purple Lamborghini”, de Rick Ross e Skrillex, funciona como a música tema do filme. É burocrática e esquecível que se aproveita das tendências do rap e do eletrônico, sem nenhuma intenção de ser transgressora. É um filme mainstream e a música tema reflete esse mercado também, afinal de contas. O clipe tem a participação de luxo de Jared Leto como Coringa, mas é totalmente vazio de significado.

Mais sorte tiveram os músicos e produtores Mark Ronson e Dan Auerbach (The Black Keys, The Arcs) que, junto do rapper Action Bronson, entregaram especialmente para o filme “Standing In The Rain”, uma boa versão da resgatada “The Rain”, de Oran Juicy Jones, lançada originalmente em 1986. Embora siga a mesma ideia de “You Don’t Own Me” – regravar música antiga e enfiar um rap no meio –, o bom gosto dos envolvidos faz com que seja uma faixa interessante, principalmente pelo ótimo refrão de Oran Jones na voz de Auerbach.

As pesadinhas “Wreak Havoc”, de Skylar Grey, e “Medieval Warfare”, da Grimes, estão no disco da trilha sonora, mas nunca dão as caras no filme. Ou os direitos autorais e de licenciamento de Black Sabbath, The White Stripes, AC/DC e Rolling Stones são altos demais e quiseram completar o álbum com um bônus, ou então as músicas de Grey e Grimes estavam em cenas que acabaram de fora da versão final do filme. Afinal, essa versão esquálida de Esquadrão Suicida teve diversas cenas importantes para o desenvolvimento dos personagens cortadas – e várias delas dariam um tom mais grave à narrativa.

O Esquadrão Suicida que funcionou no cinema foi lançado em 2015 e foi dirigido por Quentin Tarantino. Os Oito Odiados é uma reunião de caras maus de verdade que, ao longo de três horas, fazem questão de mostrar o quanto são misóginos, violentos, amorais, mentirosos e manipuladores até na hora da morte. O filme de Tarantino tem tantos personagens quanto o de Ayer, a diferença é que todos vão revelando porque são escrotos e percebemos que estamos diante de gente ruim de verdade. Mesmo o protagonista é um dos mais sádicos, coisa que nem mesmo o Coringa ou capitão Bumerangue conseguem parecer no Esquadrão.

Resumindo, o roteiro de Esquadrão Suicida tem mais furos que os alvos do Pistoleiro e a boa seleção de músicas acaba sendo mal aproveitada. O álbum da trilha acaba deixando de fora a maioria dos clássicos do rock, ao passo que a trilha de Guardiões da Galáxia, só para efeito de comparação, teve uma melhor curadoria para manter em sua Awesome Mixtape Vol. 1 clássicos nostálgicos que nos ligam sentimentalmente ao filme e à história de Peter Quill e seu grupo. Quase como uma piada, o disco de Esquadrão fecha com a versão climática de “I Started a Joke”, música dos Bee Gees que deu o tom mais sombrio do primeiro trailer do filme, quando realmente parecia algo ameaçador. No entanto, é só um lembrete do que o filme poderia ter sido e essa música nem está no corte final.

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Músicas usadas no filme (na ordem em que aparecem):

“House Of The Rising Sun” — The Animals
“You Don’t Own Me” — Lesley Gore
“Sympathy For The Devil”— The Rolling Stones
“Standing In The Rain” — Action Bronson, Mark Ronson and Dan Auerbach
“Super Freak”— Rick James
“Purple Lamborghini” — Skrillex and Rick Ross
“Dirty Deeds Done Dirt Cheap” — AC/DC
“Slippin’ Into Darkness” — War
“Fortunate Son”— Creedence Clearwater Revival
“Black Skinhead”— Kanye West
“Gangsta” — Kehlani
“Over Here” — Rae Sremmurd feat. Bobo Swae
“Know Better” — Kevin Gates
“Paranoid” — Black Sabbath
“Seven Nation Army” — The White Stripes
“Without Me”—Eminem
“Spirit In The Sky” — Norman Greenbaum
“Come Baby Come”— K7
“I’d Rather Go Blind” — Etta James
“Symphony No. 3, Op. 36 “Symphony of Sorrowful Songs”: III. Lento – Cantabile semplice” — Henryk Górecki
“Bohemian Rhapsody” — Queen
“Heathens” — twenty one pilots
“Sucker For Pain” — Lil Wayne, Wiz Khalifa & Imagine Dragons with Logic and Ty Dolla $ign (Feat. X Ambassadors)

7 comentários em “Esquadrão Suicida (Suicide Squad) – a trilha sonora (2016)

  1. Olá.
    Boa Tarde.
    Gostaria de saber qual a música que toca quando a Alerquina está subindo as escadas e lembra do Coringa .
    ( ela pula em um tanque e ele a segue )

  2. Arrasaram, tava louco atras de The White Stripes ❤

  3. qual nome da musica que toca quando o pistoleiro “mostra seu valor ” dentro da prisao atirando nos alvos

  4. Eu gostaria de saber o nome da musica que toca na perseguição do Batman ao carro do coringa. É musica de ação misturada com som de carro. (É pra uma apresentação, preciso desse som de fundo)

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