Especial Resenhas Rock

The Beatles – Revolver (1966) completa 50 anos

O disco que representou a guinada criativa de uma banda em busca de mudança

Por Gabriel Sacramento

O que é?

Revolver, lançado em 5 de agosto de 1966, é o sétimo álbum dos Beatles e representa o início da virada estética na carreira da banda.

Histórias e curiosidades

Em 1966 os Beatles já tinham alcançado o mundo com hits de sucesso, oriundos dos álbuns anteriores. Mas o sucesso – que sempre acarreta consequências – estava pesando nos ombros dos quatro rapazes de Liverpool. Os concertos lotados, os gritos histéricos dos fãs, toda a fama e prestígio perante a imprensa, tudo isso fazia parte da vida dos músicos na época e não os agradava mais. Algo precisava mudar para o fab four.

Ao contrário dos fenômenos do pop atual que quanto mais famosos ficam, mais querem ficar, os Beatles não queriam todo aquele hype. Desejavam mudança, estavam cansados de toda a atenção e decidiram dar um passo adiante, fazendo algo diferente. Daí veio o Revolver.

beatles_revolver_sessions

Vale ressaltar que o desejo dos Beatles por uma nova fase também refletia a vida deles naquele momento: John e George começaram a experimentar LSD e a pensar diferente, todos amadureceram e assumiram o risco da mudança e da busca pelo inexplorado.

A mudança começou com a escolha do local onde gravar. Primeiro, tentaram gravar no estúdio da Stax (gravadora famosa de soul music da época), mas logo depois desistiram e preferiram continuar no velho Abbey Road. E com o velho George Martin na produção.

No Abbey Road, passaram a encarar o estúdio de uma forma inovadora, como um enorme instrumento, algo que contribuiria ativamente com as músicas, junto com os instrumentos. Utilizaram ruídos, solos que eram colocados ao contrário, instrumentos exóticos, overdubs vocais, efeitos diversos para tratamento de vozes (inclusive uma técnica de duplicação de voz foi inventada durante as sessões deste álbum) e muito mais. Tudo isso a pedido dos quatro músicos que ansiavam por coisas diferentes.

Bem, vamos às músicas:

“Taxman” é de autoria de George Harrison. A canção fala de uma forma crítica e sarcástica sobre os abusos de impostos na Inglaterra na época. Possui uma influência forte da soul music. Já “Here, There and Everywhere” é uma belíssima balada escrita e cantada por McCartney. A lisérgica “She Said, She Said” fala sobre a experiência do uso de drogas, cantada por John Lennon. “Yellow Submarine” foi idealizada por Ringo Starr para ser uma canção infantil e possui melodias agradáveis e marcantes. “Love You To” é cantada por Harrison e mostra a influência da música indiana sobren os ingleses, com preponderância da cítara. “Tomorrow Never Knows” é o ápice da lisergia sonora: com apenas uma nota, efeitos e ruídos diversos, instrumentos executados de trás para frente e uma levada de bateria icônica executada por Ringo.

“Eleanor Rigby” é mais uma criação de McCartney. A curiosidade sobre ela é que nenhum Beatle tocou nada, somente gravaram vozes. O arranjo (feito por George Martin) é preenchido somente por violinos, cellos e violas, rompendo com o formato de banda que os Beatles tinham utilizado até então. É uma faixa importante por ter sido lançada como single, mesmo sendo uma faixa com letra melancólica sobre a solidão. Além disso, ninguém esperava que um single dos Beatles seria tão fora dos padrões do rock e do pop radiofônico da época (é famosa a mudança de Dó maior do refrão para o Mi menor dos versos). Assim, “Eleanor Rigby” acaba simbolizando muito bem a guinada para o lado mais vanguardista do grupo.

O novo disco marca o aprofundamento do grupo dentro do universo da música indiana, bem como da música psicodélica (que seria muito mais explorada até o final da discografia). Também marca maior participação de George Harrison nas composições e nos vocais principais. O guitarrista viria a ser o responsável pela inserção de elementos exóticos no som dos Beatles e chegou a estudar a música produzida na Índia.

Revolver é um disco sincero. Reflete o momento que o quarteto vivia e suas necessidades de romper com o som e a imagem que os definiam anteriormente. Explicita bem as experiências dos músicos com as drogas e como isso afetou a música. Além disso, não é um disco de hits radiofônicos e bonitos, como era Help (1965), por exemplo, mas é um disco com canções bem construídas, criativas e relevantes.

A experimentação de Revolver é seu ponto mais forte: a clareza com que percebemos o que cada Beatle pensou no momento de gravar cada seção e cada arranjo, sempre direcionados por George Martin, é o que faz o disco ser brilhante.

Se comparado com o disco anterior, o também sensacional Rubber Soul (1965), podemos perceber a ruptura que Revolver causou na sonoridade dos Beatles. O primeiro trazia um mix bem definidos de estilos musicais, como pop, soul e folk. Já Revolver era um caldeirão de ideias inovadoras e diferentes, passando pelo rock, mas com uma experimentação que expandia as ideias típicas do estilo. Embora seja diferente, o álbum continuou o que começara em Rubber Soul: pensar cada álbum como uma obra completa e não como um conjunto de singles.

Passa pelo teste do tempo?

Depois de cinquenta anos, o legado de Revolver continua sendo indiscutível. A abordagem criativa e diferenciada dos músicos e dos produtores influenciou produtores e músicos de todo o mundo. Uma prova disso é que a técnica de duplicação vocal criada no processo de gravação é até hoje utilizado nos estúdios mundo afora.

O disco aparece em diversas listas de melhores e mais importantes discos como as das revistas Time e Rolling Stone. Além disso, é um dos grandes lançamentos da era psicodélica da década de 60, que foi muito importante para a o rock e para a música no geral, ajudando a definir estilos modernos como o shoegaze e o stoner rock.

Phil Collins, David Gilmour, a banda Living Colour, o vocalista David Lee Roth e o Oasis são alguns dos artistas/bandas que prestaram tributos aos Beatles, especialmente ao disco Revolver, assim como o duo eletrônico The Chemical Brothers já declarou publicamente a influência de “Tomorrow Never Knows” para eles.

É um disco que marcou a música rock e a música dos Beatles. A sonoridade do grupo nunca mais seria a mesma depois do lançamento do álbum. Unindo baladas melódicas, orquestrações, experimentações, psicodelia de uma forma tão marcante e expressiva, o álbumn inaugurou um novo momento na história da música que jamais deve ser esquecido.

Ps.: A ótima série Mad Men, que retrata o mundo dos publicitários de Nova York ao longo da década de 1960, usou a música de Revolver no episódio “Lady Lazarus” (o oitavo da quinta temporada). Don, diretor criativo de uma agência em Manhattan, quer entender a mudança cultural em curso e acaba colocando para rodar o recém-lançado disco dos Beatles daquele ano de 1966. Começa a ouvir por “Tomorrow Never Knows” e dá-se conta de que as coisas mudaram mesmo e talvez ele não tenha percebido. E muito provavelmente não será capaz de dizer para onde as coisas vão também.

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9 comentários em “The Beatles – Revolver (1966) completa 50 anos

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