2016 Indie Resenhas Rock

Of Montreal – Innocence Reaches (2016)

Kevin Barnes se esforça, mas não soa interessante

Por Lucas Scaliza

Faz só quatro anos, mas parece muito mais distante o tempo em que a banda Of Montreal parecia nos mostrar uma quebra de paradigma a cada novo disco. Depois do leve e calmo Lousy With Sylvianbriar (2013) e do morno Aureate Gloom (2015), o 14º álbum do grupo norte-americano parece confirmar uma fase estacionária da banda, destacando um Kevin Barnes, guitarrista, vocalista e compositor, correndo muito menos riscos e menos surtado do que sempre foi.

Não há nada nos últimos três discos do grupo – incluindo este novo – que passem perto do caos dinâmico e esquizofrênico que abriu Paralytic Stalks (2012) tão bem. A faixa “Gelid Ascent” era espacial e psicodélica, cheia de camadas com vozes, reverberações da guitarra, uma confusão linda de se ouvir. E confusão linda é o que parece sempre ter dado o tom nos discos e nos shows do Of Montreal.

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Innocence Reaches não é ruim, mas chega em um momento avançado demais de uma discografia que já nos apresentou ideias musicais muito mais arrojadas muitos anos antes. Flerta com o eletrodance na simpática “Let’s Relate”, com o eletrônico em “A Sport And a Pastime”, fica mais roqueira e orgânica em “Gratuitous Abysses” e “Les Chants de Maldoror”, e ainda usa escolhas estranhas de harmonia para não deixar de soar estranho também, como em “Chaos Arpeggiating”, mas sempre mantendo o colorido característico da banda e uma felicidade débil (do tipo que pessoas maluquinhas teriam). Falando assim, parece que está tudo no lugar. O problema é que tudo soa um pouco conservador (para os padrões que o próprio Of Montreal estabeleceu para si mesmo, é claro) e não tão interessante assim.

“My Fair Lady” é um dos destaques do álbum, um tipo de composição excêntrica em que a linha de baixo e as batidas regulares fazem o ouvinte parar por um momento para perceber que não se trata de música eletrônica, na verdade. Cai em um refrão mais próximo do dance, com uma ponta de melancolia, e termina com um saxofone solando na periferia da mixagem, deixando o centro para os longos acordes do teclado. “Def Pacts” é outra que merece menção como uma conquista de Innocence Reaches. Mais instigante sozinha do que metade do disco, espacial como o Pink Floyd e alterna a dinâmica de forma brusca.

A voz de Barnes e sua procura por ampliar a sonoridade cada vez mais estão presentes, conferindo mais uma vez aquela assinatura quase sem paralelos que o Of Montreal possui na música indie americana e mundial. O compositor afirmou que havia se desligado um pouco do passado, do som dos Beatles e dos Beach Boys (que sempre nortearam sua percepção de ousadia musical), para ouvir produções mais recentes, de gente como Arca, Chairlift e Jack Ü. Uma faixa como “Trashed Exes” mais sofre com essa influência da música atual do que se beneficia dela, pois ao mesmo tempo em que parece algo arrastado e difícil de ouvir, pois vezes sem conta as músicas da banda assim nos pareceram no passado, soa também como uma faixa aborrecida, que não sabe para onde vai com suas quebras no ritmo e arranjos de sintetizador. “Chap Pilot”, com ritmo constante e efeitos sonoros mil lembra a fase mais recente do Flaming Lips, mas sem o mesmo brilho e sem o mesmo senso de propósito.

Por melhor compositor que Kevin Barnes seja, parece atravessar uma fase em que a criatividade a forma de expressão não estão andando sempre juntas. A própria questão de gênero, que sempre foi notável na forma como Barnes se apresenta ao vivo – com roupas extravagantes, divertidas, malucas ou mesmo vestido de mulher (ou mesmo até pelado!) –, era um dos elementos que complementava o propósito excêntrico de seu indie rock. Isso está presente em “Different For Girls”, música em que discute a questão de gênero e acusa a forma como a sexualidade é pensada de uma forma bem irônica. A letra e o assunto são ótimos, uma pena a música e o resto do álbum não serem interessantes na mesma medida.

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1 comentário em “Of Montreal – Innocence Reaches (2016)

  1. Pingback: Orbs – Past Life Regression (2016) | Escuta Essa!

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