Steven Tyler – We’re All Somebody From Somewhere (2016)

Disco solo do vocalista do Aerosmith apresenta uma faceta do cantor até então pouco explorada

Por Gabriel Sacramento

O americano Steven Tyler é uma das figuras mais emblemáticas da história do rock. Disso, poucos duvidam. Mas quando em 2015 anunciou que lançaria um álbum solo country, Tyler surpreendeu muita gente – e desagradou a outros. Mesmo assim, ele seguiu em frente com o projeto e aproveitou a sua fama para conseguir um contrato com a gravadora Big Machine Label Group – considerada uma das maiores gravadoras do country. Tyler também se mudou para a capital do gênero, Nashville, e se uniu a famosos músicos da região para composição e produção do álbum.

A ideia foi um tanto perigosa: não é todo mundo que depois de anos de carreira em um gênero, se aventura do nada aos 68 anos para outro estilo musical. Mas Tyler quis expressar o que sente e isso o motivou a escrever novas canções. Seu primeiro álbum solo ganhou o nome de We’re All Somebody From Somewhere.

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Foto: Gregory Shamus/Getty Images

Embora tenha sido composto calcado no country, o disco possui pontas de outros estilos. “My Own Worst Enemy” abre é a balada confessional cheia de feeling e com uma performance vocal digna de nota que abre o trabalho. Tyler consegue ser ele mesmo, com o drive e as notas altas, ao mesmo tempo em que canta uma balada country que termina com um solo bem rock’n’roll. A esquisita “Hold On (Won’t Let Go)” traz um toque de psicodelia ao repertório, mostrando que Tyler soube diversificar as coisas. Os efeitos e o experimentalismo dosado me lembram algumas ideias que Jeff Beck explorou em seu último álbum solo, Loud Hailer.

Temos uma série de baladas amorosas como “It Ain’t Easy”, “Love Is Your Name” e “What Am I Doin’ Right”. Uma série de canções country pop que farão Luke Bryan e Eric Church se incomodarem com mais um concorrente no topo das paradas, como “Red, White and You” e “Sweet Lousiana”. Ainda tem um cover do Aerosmith de “Janie’s Got A Gun” (com o instrumental tocado pelos caras do Stone Temple Pilots) e “Piece of My Heart”, que ficou conhecida na voz da Janis Joplin. Destaco a interpretação do vocalista nestas duas faixas.

A ideia era ousada e Tyler embarcou com empenho para obter bons resultados. E ele conseguiu. O disco traz o velho Steven Tyler que todos conhecem e gostam, com seus trejeitos, seu estilo vocal e um pouco da loucura que estamos acostumados a ver e ouvir. Embora a impressão da sua personalidade roqueira seja mais dosada (afinal, o foco de We’re All Somebody From Somewhere não foi esse”, Tyler consegue manter sua personalidade vocal mesmo quando nos apresenta novas canções diferentes e variadas.

Muita gente criticou o álbum por querer agradar o público country e ao mesmo tempo o público do Aerosmith. Na verdade, Tyler fez a jogada mais inteligente que podia. Seria arriscado demais para ele se afastar completamente das suas influências roqueiras e das características de sua banda que já impregnam suas cordas vocais. Por isso, ele faz algo novo ao mesmo tempo em que louva o passado com algumas referências ao som mais roqueiro.

É bom lembrar também que o próprio Aerosmith fez um disco inteirinho de covers de blues chamado Honkin’ On Bobo (2004) e, na época, a gravadora achava que o grupo deveria continuar com seu rock habitual. Como a banda bateu o pé e seguiu em frente com a ideia, a gravadora anunciou que se afastaria do projeto, lançariam o álbum, mas não investiriam nele. Ao chegar ao mercado, o resultado de vendas do álbum foi excelente e a gravadora voltou atrás. Parece que o público entendeu que o Aerosmith sempre fora uma banda blueseira desde sempre. A gravadora é que não tinha entendido.

O que alguns críticos e fãs chamaram de falta de personalidade pode ser entendido como uma impressão de uma outra faceta do cantor que até então tinha sido pouco explorada. É pop country, com melodias acessíveis e fáceis de serem cantadas, aliado à veia roqueira, que fica mais evidente com os drives e com a agressividade vocal de alguns momentos.

We’re All Somebody From Somewhere é um bom álbum que possui suas virtudes na variedade e na diversidade que tenta apresentar. Depois de tantos anos de carreira e de estrada, Tyler meio que quer apresentar um pouco de cada coisa que aprendeu na vida, construindo um conjunto com as diferentes partes que compõem sua experiência no mundo da música.

Além disso, é legal ouvir a voz do cantor americano usada em novas e interessantes ideias, diferentes do que ele já produziu.

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