2016 Diversos Resenhas

Ólafur Arnalds – Island Songs (2016)

Artista eletrônico e músico erudito reverencia a música de sua ilha natal, a Islândia

Por Lucas Scaliza

Ólafur Arnalds é um dos nomes mais interessantes de se acompanhar da música islandesa contemporânea. Ele é DJ e multi-instrumentista. Ao lado de Janus Rasmussen, é um artista eletrônico no duo Kiasmos. Já foi baterista de bandas de metal. Faz música ambiente e trilhas sonoras (como a do seriado Broadchurch). E inclusive faz incursões pela música erudita, seja ela em seu estado mais cristalino (como o disco reinterpretando Chopin com a nipo-alemã Alice Sarah Ott) ou misturada a intervenções eletrônicas (como nas colaborações com o alemão Nils Frahm).

Seu novo trabalho é uma carta de amor à sua terra natal, a Islândia. O projeto que deu origem a Island Songs mistura deslocamento geográfico, laços de amizade e exploração pelo folclore da ilha escandinava. Este ano, Arnalds tirou sete semanas para viajar para sete regiões diferentes do país e em cada uma encontrou músicos dispostos a criar e tocar novas composições com ele. A cada semana, uma nova peça musical seria criada e registrada em vídeo pelo diretor Baldvin Z. Usando as redes sociais, todo o processo da viagem, da composição e gravação foi documentado e acompanhado pelos fãs e interessados (todos os vídeos estão no YouTube).

olafur_arnalds_2016

Island Songs, o projeto, virou um álbum. Embora seja um músico que mire a perfeição, deixou-se levar pela música em estado mais bruto e natural para gravar todas as canções ao vivo (enquanto Baldvin filmava), permitindo que o improviso fosse parte do processo.

O que Ólafur Arnalds conseguiu, mais uma vez, foi uma coleção de músicas suaves que fazem bem ao coração. E o que ele conseguiu de forma inédita em sua obra é retratar um pouquinho mais dos sons que fazem parte da Islândia, seja seu lado mais folk, mais erudito, mais experimental ou mais pop. E o nível de sensibilidade é impressionante.

“Particles”, a única com vocais em inglês, é cantada por Nanna Bryndís Hilmarsdóttir, do Of Monsters And Men, com alma e entrega. “Dalur” é obra erudita com Arnalds no piano, dentro de uma espécie de bar, e o trio de sopros Brasstríó Mosfellsdals do lado de fora, mostrando a típica dinâmica dos sopros islandeses, menos virtuosos que o jazz americano e mais abstrato que a maior parte da música folclórica europeia continental. Gravada em uma pequena capela, “1995” tem a contribuição de Dagný Arnalds no órgão, Ólafur nos sintetizadores que surgem pra lá da metade da canção e um trio de violinistas. A repetição do fraseado de Dagný é a base para todo o desenvolvimento melódico melancólico das cordas.

“Árbakkinn” abre Island Songs com uma narração em islandês do poeta Einar Georg, escolhido entre mais de 100 possibilidades. Além do piano de Arnalds, um quarteto de cordas completa a sonorização deste poema musical. Na climática e belíssima “Öldurót”, Arnalds une forças com a orquestra SinfoniaNord e com o maestro Atli Orvarsson que por muito tempo foi um compositor de trilhas em Hollywood e agora fixou residência na ilha nórdica novamente.

Fãs de Björk, talvez a voz mais famosa da Islândia, sabem como os corais de lá são versáteis, empregando técnicas da música clássica em canções pop e eletrônicas para criar um efeito único. Ólafur Arnalds se aproveita disso em “Raddir”, gravada com a South Iceland Chamber Choir dentro de uma igreja. Quando o coral termina de emanar as melodias tristes, um quarteto de cordas assume a canção e a leva até o fim. “Doria”, embora gravada em uma sala escura de concertos na capital Reykjavík, é o raio de luz do disco. Colorida, alegre e esperançosa desde o início, ascende suavemente com todos os violinos, violas e cellos para depois dar protagonismo ao piano de Arnalds, terminando em um acorde que nos deixa na expectativa de reencontrar o tom da música, o que não acontece.

O trabalho de Baldvin Z. é primoroso. Sempre grava planos sequência e dirige cada movimento da câmera com leveza e uma sensibilidade que quase dá para tocar. Seja rodando em volta dos músicos na torre onde foi gravada “Particles”, ou seja passeando pelos rostos das pessoas no bar em “Dalur”, o diretor nunca erra a mão. Mas o seu melhor está em “1995”. Se aproxima com cuidado dos músicos, deixando a música fluir, e no final, quando quase não há mais música, a câmera se precipita na direção da janela, enquadrando através dela a brincadeira de duas crianças. Um momento surpreendente e singelo.

Island Songs é feito de emoções nada piegas e de recursos nada gratuitos. Se tem toda a modernidade ou a estranheza que a música da Islândia pode proporcionar, também tem em seu âmago os sentimentos mais comuns a todos os ouvintes. É uma viagem pelo interior do país, captando a arte feita por artistas locais, e não por gente com tendências globais (ou mesmo nacionais). Temos, assim, uma etnografia íntima da música islandesa vista por dentro.

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