Dark Suns – Everchild (2016)

Banda alemã chega ao ápice criativo misturando metal, jazz, progressivo e toneladas de melodias cativantes

Por Lucas Scaliza

A safra de música heavy metal de 2016 está muito superior à dos anos anteriores. Não que não tivesse um ou outro destaque, mas este ano o metal voltou a ser instigante e parecer muito menos acomodado que no passado (vide o caso do Dream Theater). Algo que também chama a atenção é o quanto as bandas têm arriscado, colocando a criatividade acima de qualquer “obrigação” de manter uma certa sonoridade (caso de Affinity do Haken e o vindouro Sorceress do Opeth). Everchild, quinto disco dos alemães do Dark Suns, é a cereja em cima do bolo do metal progressivo, nos presenteando com um trabalho incrível. Se faltava algo para a banda ascender ao primeiro escalão do prog metal, era este disco.

Para começar, eles não se importaram em misturar diferentes gêneros musicais e incluir ideias ousadas ao seu metal, transformando-o em algo muito mais complexo e difícil de definir. As duas músicas que abrem Everchild – “The Only Youn Ones Left” e “Spiders” – vêm com um leve toque jazzístico em meio à guitarras com overdrive mantendo a animação das faixas. Já “Escape With The Sun” é um rock progressivo que vai dos teclados setentistas ao blues rock moderno. Transcendendo o metal progressivo, os alemães pisam no terreno que podemos chamar de fusion prog metal.

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Em termos de jazz, o Dark Suns se revela em toda sua sensibilidade em “Monster”, canção lenta, melodiosa e extremamente bem feita. Um guitarra bate os acordes com distorção leve (para não esquecermos de que se trata de rock), outra faz dedilhado, um piano e o trompete dão a tônica jazzística. A melodia, em dueto, é um aceno à melhor contribuição do metal melódico para o álbum e para o metal em geral. Uma faixa corajosa, para um disco de metal, que mostra não só a pretensão da banda, mas a capacidade de fazer algo que foge completamente à expectativa de seus ouvintes.

Em termos de metal, não espere nada próximo ao death metal que fizeram no início da carreira. Assim como Opeth, os heróis do Dark Suns, a banda evoluiu bastante a sua forma de encarar a música e mostrou uma abertura sonora surpreendente em Orange (2011), quando o fusion ficou sério, e em Grave Genuine Human (2008), trabalho em que seu metal mostrou mais preocupação artística do que vontade de agradar a fãs presos às velhas fórmulas do estilo. Os vocais de Everchild são quase sempre suaves para acompanhar canções de fundo melancólico (e aí há uma proximidade com a fase mais recente do Katatonia). Ao mesmo tempo, usam timbres mais clássicos para seus instrumentos. O teclado de Ekkehard Meister em “Codes” e em “Morning Rain” soa vintage, como o do Opeth em seu Sorceress.

Mesmo sendo mais diverso que Orange, Everchild é menos esquizofrênico que seu antecessor. “Unfinished People” tem tanto uma pegada mais obscura como mais moderna, frente à beleza singela da balada “The Fountain Garden”, às melodias supercativantes de “Torn Wings” e ao refrão poderoso de “Everchild”, saciando a vontade de guitarras pesadas do ouvinte.

É nesse equilíbrio entre peso, intensidade, levadas roqueiras, levadas jazzísticas, quebras progressivas, ótimas harmonias e uso de melodias expressivas que Everchild se faz um dos melhores discos de 2016 e a obra mais vistosa já criada pelo Dark Suns até agora. As duas últimas faixas, ambas com mais de 10 minutos de duração, fazem um grand finale digno dos melhores discos do século 21 do estilo, passando por bandas como Tool, Pain Of Salvation, Dream Theater e o próprio Opeth. A sofisticação sonora de “Morning Rain” e “Yes, Anastasia” (um cover de Tori Amos) não difere do que foi apresentado nas nove faixas anteriores, fechando um ciclo que cria uma ponte entre o metal, o rock, o progressivo e o fusion dos últimos 20 anos utilizado por bandas da Europa continental, da Inglaterra e dos Estados Unidos. Acredito que nem mesmo o Dark Suns tenha noção dessa amálgama sonora que conseguiu criar sem que essa diversidade de referências soe pastiche, mas está tudo em Everchild para que perceba qualquer um que tenha acompanhado o heavy metal nos últimos anos.

A banda apostou alto dessa vez, inclusive em termos financeiros. Usaram todo o dinheiro recebido como adiantamento para custear o aluguel do estúdio Funkhaus, em Berlim, com o produtor Yensin Jahn. Para financiar a mixagem feita pelo produtor Peter Junge em Londres, abriram um crowdfunding – o que diz muito também sobre a qualidade e confiança dos fãs do Dark Suns. Dessa vez o vocalista Niko Knappe concentra-se apenas nos vocais, deixando as guitarras para Maik Knappe e Torsten Wenzel, que fazem uma dupla e tanto, nunca competindo um com o outro, e sim complementando-se. O baixista Jacob Müller se dá muito bem no jazz e cria linhas marcantes para as faixas mais lentas. Dominique Ehlert agora é o baterista oficial do grupo e simplesmente destrói em Everchild. Ao lado de Meister nos teclados, é o músico que se mostra mais versátil, indo do metal ao jazz, do rock à balada, sem deixar de propor uma dinâmica prog que perpassa todo o álbum. Por fim, Govinda Abbott e Evgeny Ring entram para a banda definitivamente no trompete e no saxofone alto, respectivamente, adicionando os bem-vindos elementos de jazz.

Em termos de metal, eles conseguiram um som desafiante e inovador. Em termos artísticos, chegaram ao ápice de sua criatividade demonstrada até aqui. Elevaram o grau de comparação não só para si mesmos, mas para as outras bandas também.

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