Frank Ocean – Blonde (2016)

Um dos revolucionários do R&B atual, com um excelente trabalho, de novo

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em música R&B, o que você pensa? Música popular, dançante? Para muitos, o R&B é sinônimo de música descartável. E há quem ache limitado o universo musical do estilo limitado, preso aos próprios conceitos e regras. Tudo bem, alguns lançamentos do R&B contemporâneo realmente soam acomodados e restritos à vontade de sucesso cada vez maior dos artistas – o que acaba suprimindo a originalidade e a criatividade. Mas há exceções. Por exemplo, o jovem Frank Ocean. Em 2012, quando ganhou o mundo com Channel Orange, ele se mostrou disposto a revolucionar o R&B (e a música) mundial.

E não há exagero no termo “revolucionar”, até porque ouvindo com atenção o disco, notamos que o conceito de pop e R&B que o jovem apresenta é bem distinto do que é mais comum ouvirmos por aí. Ele rompe violentamente com os padrões do estilo e expande as fronteiras. Dando o play, nos sentimos imersos em um oceano profundo com muitas direções para navegar. As referências e a clareza com que elas são expostas, andando lado a lado com a genialidade e sua preocupação em expor seus sentimentos são alguns dos pontos positivos do álbum.

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Blonde, seu novo e esperado álbum, foi lançado um dia após Endless – seu primeiro álbum visual –, e Ocean mostra-se disposto a se reinventar também. Claro, ele mantém a essência, mas expandiu as ideias. O artista abre a mente para as experimentações criativas e ousadas, tornando a sua música ainda mais inventiva e destacável.

Blonde é bem enxuto. O cantor passou cerca de três anos produzindo o disco, convidou tanta gente famosa – um time formado por produtores e compositores que inclui Pharrel Williams, Beyoncé, Kanye West, Kendrick Lamar e Rick Rubin – e fez algo que marca por uma relativa simplicidade. Cada instrumento tem seu peso nas faixas, preenchendo muito bem os arranjos e cada um acrescentando um sabor especial a cada faixa, sempre acompanhados pelo ingrediente essencial e onipresente do álbum: a voz limpa e maravilhosa de Ocean.

“Nikes” abre Blonde com uma base distante e simples, uma batida e um sintetizador. A voz distorcida ecoa por toda a faixa, até que Ocean surge com um jogo de palavras sensacional. “Ivy” é baseada nos acordes de duas guitarras cheias de efeitos. A voz de Frank Ocean é realçada e percebemos como ele continua colocando muito bem sua voz. “Solo” – com a melodia mais marcante do álbum – também nos deixa claro as suas qualidades como cantor. O rapper está bem com sua voz e aproveita a base instrumental econômica para desenvolvê-la. Perceba como o tratamento dos vocais na mix é simples, sem muitos efeitos, nem muitos overdubs, mas sim a voz quase crua de Ocean sobre os arranjos instrumentais.

Se “Solo” tinha um tratamento simples da voz, “Pink + White” traz vocais dobrados e um tratamento mais típico do R&B. Possui um arranjo calmo e limpo. Podemos até ouvir a voz de Beyoncé ao fundo com alguns arranjos vocais, mas só. “Be Yourself” é um dos interlúdios do álbum, apresentando uma voz feminina dando conselhos que, dentre outras coisas, desencoraja o uso de drogas. A quietude de “White Ferrari”, guiada por harmonias vocais precisas, é impressionante. A canção possui um sample de “Here, There and Everywhere” dos Beatles. Já em “Solo (Reprise)”, Ocean dá espaço para André 3000 (do Outkast) fazer seu rap.

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O que mais impressiona na música de Frank Ocean é a sua facilidade em contar histórias através dos álbuns, fazendo com que a experiência de ouvir Blonde seja também um convite à imaginação para produção de imagens reflexivas. Ele o faz recheando o disco de interlúdios, diálogos e assim vai criando personagens.

Musicalmente, Ocean continua investindo em ideias e detalhes que distinguem seu trabalho de muitos outros artistas R&B. Sua música soa densa, com bases flutuantes, atmosféricas e nos transportando para um universo bem diferente, enquanto seus vocais se destacam. Sua proposta também não abre mão de melodias irresistíveis, que podem funcionar bem comercialmente. No entanto, ao final de Blonde percebemos que não estamos distantes. Estamos bem perto de casa, só aprendemos a olhar para o mundo de uma forma diferente. Ou seja, Ocean nos ensina a olhar para o R&B de uma forma diferente e esperar excelentes criações a partir desse novo modo de encarar o estilo. Dev Hynes, do Blood Orange, é outro que olha de um jeito diferente para o papel da música.

Frank Ocean faz a música R&B valer a pena. Levando a bandeira do gênero com genialidade e sofisticação, o músico parece não ter limites. A tendência é que ele mantenha seu estilo único e suas ideias diferenciadas. E uma coisa é fato: Ocean e seus discos serão referências para a música das próximas gerações.

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