2016 Resenhas Rock

Nosound – Scintilla (2016)

Tanto quanto álbum musical, Scintilla funciona como um cartão-postal

Por Lucas Scaliza

Apesar de ser vendido como uma nova percepção sobre seu estilo, Scintilla, o novo álbum da banda italiana Nosound, não se afasta tanto assim do ótimo Afterthoughts (2013). Embora os elementos estruturais e estilísticos ainda sejam basicamente os mesmos, é verdade que há novos elementos, mas não o suficiente para marcar uma ruptura.

Após uma breve introdução, leve menos de dois minutos para sentirmos toda a carga emocional de que a banda é capaz com “Last Lunch” e seus acordes volumosos, o andamento lento, a voz macia do líder Giancarlo Erra e um feeling absurdo para criar versos e refrãos que são como as ondas do mar em intensidade e ritmo, beleza e melancolia. Embora não seja uma banda dada a show offs, é clara a técnica musical apurada de todos os envolvidos, o que confere à banda e ao disco um lado progressivo bastante interessante.

A condução de Giulio Caneponi na bateria é impecável e impossível de não ser notada, sempre criando algum arranjo que faz toda a diferença. O baixo de Alessandro Luci alterna entre a fusão à base da música e a reivindicação de seu espaço de protagonismo. Os solos de guitarra, quase sempre épicos e marcantes em Afterthoughts e A Sense Of Loss (2009), ainda estão presentes, mas em menor quantidade e menor duração. Contudo, o sustain das guitarras de Erra e Paolo Vigliarolo parecem ainda mais absurdos agora (ouça o final de “Sogno e Incendio”, para conferir como cada nota do instrumento dura uma eternidade).

Se a estrutura ainda são os mesmos, se Erra ainda consegue fazer tempos lentos valerem a pena e transformarem-se em bombas de emoção, resta comentar o que faz de Scintilla diferente. Os arranjos confiam mais em novos instrumentos desta vez, conferindo um colorido diferente à obra. O tecladista Marco Berni ganhou maiores responsabilidades. Além de criar atmosferas com o teclado e bases com o piano, também usa sintetizadores para conseguir sons que sejam eletrônicos, mas que não fiquem muito afastados do espectro sonoro já estabelecido pela banda. E mais do que qualquer outro trabalho, Scintilla se permite ter orquestrações em quase todas as faixas, preenchendo-as ainda mais com cores e nuances. Assim, além da nostalgia evocada pela arte da capa, há também uma impressão de ouvirmos o álbum sob os últimos raios de luz, com os pés na água do mar. “Celebration of Life” talvez seja a música que melhor traduza esse sentimento (pelo menos para mim).

Se antes o Nosound deixava o ouvinte afundar em suas ruínas sonoras (se depender de “Love Is Forever”, ainda deixa), agora a banda nos faz sentir o gosto da tristeza para nos resgatar logo em seguida através da audição. “Emily”, por exemplo, começa como uma música soturna e conforme a orquestração se desenvolve, somos levados a um outro lado da composição, mais otimista. A levada do violão e o ritmo amigável de “Evil Smile” faz da faixa uma das mais fáceis de acompanhar, embora não seja exatamente pop. E às vezes eles te atacam com a intensidade roqueira da banda, como no refrão de “A Perfect Wife”.

Quando chegamos à “Scintilla”, no fim do trabalho, o colorido do crepúsculo litorâneo cedeu espaço à noite estrelada. Um violão, uma guitarra e um sintetizador criam a paisagem sonora perfeita para a conclusão desta pequena obra. O trompete festivo, o piano doce, a bateria em marcha nos conduzem de volta à nostalgia das boas lembranças. Tanto quanto uma obra musical, Scintilla funciona também como um cartão-postal e cabe aos seus sentimentos dizer de onde ele veio e para onde te leva ao vê-lo de novo.

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