2016 Resenhas Trilha Sonora

Demônio de Neon (The Neon Demon) – a trilha sonora (2016)

Moda e mistério em Los Angeles: Cliff Martinez usa sintetizadores para dar clima sombrio e de sonho ao filme de Nicolas Winding Refn

Por Lucas Scaliza

De muitas maneiras, Demônio de Neon (The Neon Demon), filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn, lembra o clássico cult Cidade dos Sonhos (Muholland Drive, 1998), do mestre David Lynch. Ambos se passam em Los Angeles, cidade de sonhos pré-fabricados, de ganância, de impetuosidade, de egocentrismos, onde a inocência e as segundas intenções andam juntas. Os dois lidam com as expectativas de fama e glória de mulheres egressas de cidades menores. No filme de Lynch, é Betty que chega a L.A. para tentar uma carreira como atriz; no de Refn, é Jesse (interpretada por Elle Fanning) que encontra os prazeres e temores da cidade ao tentar emplacar uma carreira como modelo fotográfica e das passarelas. E ambos tentam revelar os cantos escuros das indústrias que enfocam: a cinematográfica e a da moda.

Por baixo de todo glamour, há sempre muita sujeira, pode parecer a princípio. Assim como Cidade dos Sonhos, Demônio de Neon preenche a relação entre os personagens com mistério e suspense. O que realmente aconteceu a Jesse quando o famoso fotógrafo de moda pediu que a equipe saísse do estúdio? Qual é a das modelos amigas da maquiadora Ruby (Jena Malone)? O que aconteceu à garota do outro lado da parede?

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Unindo o mistério das intenções de cada um às promessas evocada por essa cidade de ídolos, é claro que Refn, como Lynch, também daria a sua história a atmosfera de sonho, perfeita para emular um jogo de ilusões, pulsões sexuais e morte.

O diretor apresenta imagens interessantíssimas e fotograficamente supercalculadas para criar seu filme, que realmente está muito mais preocupado com a estética visual do que com o roteiro. Mas apesar de toda a técnica visual, é no som que está a chave para as paisagens oníricas de Demônio de Neon. A trilha sonora, composta por Cliff Martinez (que também fez a trilha de Drive e Only God Forgives, também dirigidos por Refn) foi feita inteiramente com sintetizadores, esse instrumento de várias facetas e capaz de se metamorfosear de inúmeras maneiras diferentes, nos dando a um só tempo a vibe eletrônica do mundo moderno, timbres dos anos 70 e 80, e grandes atmosferas etéreas e flutuantes. Martinez entrega muito mais melodia dessa vez do que nos filmes anteriores de Refn, mas não deixa de criar faixas com batidas bem regulares e que ajudam a identificar a nossa época atual e a clara influência de John Carpenter – mas ele próprio lembra da banda de rock progressivo Goblin, que já trabalhou com o cineasta italiano Dario Argento.

Martinez faz desde música excitante para momentos gore (“The Neon Demon”, já no início do filme), excitação que se transforma em mistério (na cena da apresentação artística na boate, quando a faixa “The Demon Dance” se transforma em algo mais nefasto), faixas fantasmagóricas (“Ruby At The Morgue”, “Ruby’s Close Up” e “Get Her Out Of Me”), e músicas que atestam o feeling de sonho em tudo o que Jesse está vivendo. Uma delas é “What Are You”, que sutilmente sublinha o momento em que Jesse descobre que será “excelente” como modelo logo em sua primeira entrevista. Igualmente doce, só que mais onírica, é “Don’t Forget Me When You’re Famous”. Com um vestido comprido e esvoaçante no alto de um morro, Jesse observa a lua e as luzes de Los Angeles, indo de cá para lá como se flutuasse sobre a cidade. Uma variação de “What Are You” acompanha a jovem modelo durante sua passagem pela primeira vez a um enorme estúdio fotográfico, ressaltando seu deslumbramento. Em seguida, durante o ensaio, “Gold Paint Shoot” nos leva de novo a um tipo de sonho, combinando a trilha sintetizada de Martinez com a escolha pela fotografia precisa e câmera lenta de Refn. Já “Thank God You’re Awake” é puro suspense.

Entre cada um desses momentos, há cenas com silêncios absolutos que fazem o filme voltar a uma realidade fria de Los Angeles ao mesmo tempo que ressalta o suspense da história. Enquanto a música toca, as cenas parecem mais seguras. Quando não estão mais presentes, fica difícil intuir o que virá em seguida. Diversas músicas que estão completas no disco da trilha sonora às vezes figuram com espaço de tempo reduzido ou volume baixo no filme, como se fossem sound designs e não exatamente “faixas” da trilha. É uma escolha artística que demonstra uma utilização da música em favor do filme e de sua narrativa. Além disso, entre a excitação, a melancolia e a doçura, Martinez consegue fazer um acompanhamento perfeito para as imagens escolhidas por Refn na montagem de Demônio de Neon.

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Cliff Martinez teve bastante tempo para trabalhar na música do filme. Sua amizade com Nicolas Winding Refn faz com que, antes mesmo de ter um roteiro pronto, o diretor já lhe conte o que será e como será o filme. Mesmo assim, embora possa ir planejando o que pretende fazer a partir da ideia inicial e do roteiro, Martinez prefere ter algum material visual para ter certeza de onde quer levar sua música. E o diretor faz sua parte, fazendo de algumas faixas de Martinez apenas um acompanhamento sutil, enquanto outras já saltam para o primeiro plano para serem notadas.

Embora se revele em toda sua extensão apenas no disco, essa trilha só pode ser realmente compreendida, como qualquer outra, dentro do filme. Mas este caso pode ser um pouquinho mais especial, já que a ênfase visual foi pensada desde o início do projeto para combinar com as músicas que Martinez criaria – e o compositor, por sua vez, sabia que teria que compor algo que tivesse pulsão, uma sensualidade lânguida, algo de doce, algo de amargo, algo de estranho, distorção, brilho e ameaça. Isso tudo ele cumpriu muito bem, modelando sons com seus instrumentos digitais e às vezes ficando próximo de um resultado obtido por Disasterpeace em Corrente do Mal.

Demônio de Neon teve uma recepção fria e marcada pela reação exagerada de parte dos convidados e críticos que vão a Cannes. Assistindo ao filme, longe da bolha que é o festival francês, fica claro que grande parte das críticas à produção não se deve ao filme em si, mas sim a implicância com o diretor Nicolas Winding Refn. Como se não bastasse a assinatura visual e narrativa que deixa na obra – como vários outros cineastas/autores –, ele realmente assinou a película com suas iniciais. No mundo egocêntrico e cheio de ilusões do mundo do cinema e seus festivais, isso deve ter incomodado muito mais do que qualquer cena de necrofilia e necrofagia.

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1 comentário em “Demônio de Neon (The Neon Demon) – a trilha sonora (2016)

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