2016 Folk Indie Resenhas Rock

Nick Cave And The Bad Seeds – Skeleton Tree (2016)

A trilha sonora do luto é onírica, árida e com sintetizadores onipresentes

Por Lucas Scaliza

A capa já anuncia tudo. Inteira negra, é luto. O nome da banda e do álbum, Skeleton Tree, em uma fonte digital e esverdeada, lembra as telas de programação de computadores antigos. A dor de Nick Cave, de sua esposa Susie Bick, e de todos ao redor, encontra um meio de expiação em oito músicas que ficam entre o orgânico e o eletrônico, o sonho e a áspera realidade, entre o experimentalismo e o velho e conhecido formalismo da banda australiana.

Nick Cave e seu braço direito nos Bad Seeds, o multi-instrumentista Warren Ellis, já haviam escrito todas as músicas do próximo disco da banda. Faltava apenas entrar em estúdio e gravá-las. Mas antes que pudessem seguir com o projeto, Nick Cave, que estava em uma ótima fase da carreira após o lançamento de Push The Sky Away (2013) e uma longa turnê, teve que lidar com a morte de seu filho Arthur Cave, de 15 anos. Após dividir com um amigo três tabletes de LSD, o adolescente acidentalmente caiu de um penhasco em Brighton, na Inglaterra, cidade onde Cave, Susie e os dois filhos viviam juntos. A partir daí, tudo o que o próximo álbum seria originalmente tornou-se impossível de perscrutar. Uma nova perspectiva tomou conta do compositor, de toda a banda e de todos os envolvidos no projeto. Se Skeleton Tree é o que é, o é pelo efeito do luto, da perda, da ausência.

E não há como retirar do álbum essas influências que, se por um lado são nefastas a nível pessoal, podem também ser grandes catalisadoras da sensibilidade artística. O novo disco de Nick Cave And The Bad Seeds é, então, o luto em forma de arte musical em uma de suas formas mais puras, objetivas e íntima.

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Skeleton Tree usa o piano para marcar os acordes, quando necessário, e usa os sintetizadores para quase todo o resto. De todos os 16 discos do grupo, este é o que mais deu vazão às ideias e técnicas de trilha sonora de Warren Ellis. Se Push The Sky Away já havia demonstrado que Nick Cave e sua banda estavam atrás de um novo tipo de som, Skeleton Tree aprofundou ainda mais a impressão etérea das composições. “Give Us a Kiss”, a sensível canção que ficou de fora do álbum de 2013, é o elo de ligação perfeito entre os dois álbuns.

Como o disco foi apresentado primeiro como o filme One More Time With Feeling, dirigido por Andrew Dominik, retratando todo o doloroso processo de luto e gravação do trabalho, faz sentido pensar em Skeleton Tree também como um álbum visual. A música arquitetada por Cave e Ellis deriva diretamente da trilha sonora contemporânea em que a exploração harmônica não é mais tão abrangente, dando lugar à manipulação de sons via sintetizadores, pedais de expressão e softwares em geral que ditam a transformação de notas musicais de maneiras que a simples mudança de dedos na escala de uma guitarra ou baixo não é capaz de fazer. Partem da abstração para encontrar o tom e os timbres e ruídos que, a cada determinado número de compassos, voltarão à faixa para nos lembrar que ainda estamos no mesmo contexto.

Assim, Nick Cave soa um pouco aéreo e sobrenatural, principalmente em “Anthrocene”, mas como nunca soara nos 15 álbuns anteriores.

“Jesus Alone” é uma entrada árida e inóspita. O estilo narrativo de Cave que o acompanha desde os anos 80 vai acompanhá-lo por esta jornada de luto também. Mas em nada os arranjos desta canção te preparam para o que está por vir. Sabe aquela coisa de falar baixinho e isso conquistar mais a sua atenção e interesse do que algo que está sendo dito em alto e bom som? É assim que “Jesus Alone” funciona, como uma profecia ou confissão. Já “Rings of Saturn” traz algo do folk à Bon Iver, usando samples vocais e programações. Obedece a estrutura de looping que marcou muito de seu estilo, com intervenções de manipulações digitais criando ruídos imaginativos. O sintetizador paira sobre a faixa como um véu.

Em “Girl in Amber”, a voz é nossa ligação com o chão firma, pois a música é etérea, como se ele cantasse para embalar o sono de alguém, um sono tranquilo, mas melancólico. Ou como se, sozinho e discretamente, cantasse para alguém que não está mais aqui. Não me lembro de outra música em que a voz de Nick Cave soe tão frágil quanto nesta.

“Magneto” e “Anthrocene” são as duas mais experimentais do álbum. A primeira é uma aula de como usar sinais, ruídos e distorções para fazer música. É imersiva e cheia de imaginação. Principalmente a partir de The Boatman’s Call (1997), sempre foi preciso confiar na sensibilidade do ouvinte para se entregar ao som de Cave. Mas este disco, e esta faixa, leva essa confiança a outro patamar, já que a composição de outrora se tornou algo muito menos preso ao formato canção que consagrou o cancioneiro. Quanto a “Anthrocene”, mesmo com todo o caos, Nick Cave não abandona a harmonia, sempre marcada pelo piano. Mas também não deixa de abraçar a vanguarda da manipulação de sons. A percussão acelerada é incompatível com o resto da faixa, mas a ideia é justamente promover o embaraço dos sentidos. De certa forma, é como o pós-punk que ele fazia em 1980, o mesmo espírito, mas com elementos diferentes. A banda precisa tocar menos como uma banda e mais como uma força da natureza.

O sintetizador, que permeia todo o disco, domina “I Need You” e faz dela a faixa mais quente e acessível do disco. Mas como estamos falando de sintetizador, que possui um timbre muito específico, estamos falando também de mais um clima onírico. Como mostra o vídeo retirado do filme, Cave quase não consegue conter a emoção e a voz dá uma leve embargada no refrão. Coisa linda de ouvir e assistir! “Distant Sky” funciona como o prolongamento do sonho. Música lenta, com orquestração e vocal da soprano dinamarquesa Else Torp, mais conhecida por participar de projetos eruditos.

Curiosamente, temos em “Skeleton Tree” uma faixa mais positiva no final do disco, com violões marcando o ritmo e dissipando um pouco a tristeza. Bem, todo luto tem seu fim, mesmo que isso não signifique que uma ausência não seja sentida e que uma ferida vai se manter aberta para sempre.

Não é um disco que desce de primeira. O mais apegado ao estilão antigo dos Bad Seeds não vai curtir. Nem aquele que só gosta do Nick Cave das guitarras. Em Skeleton Tree a guitarra aparece mais como um fantasma e uma fonte de ruídos. Mesmo assim, o álbum está longe de soar frio. Pode até parecer sombrio às vezes, mas é um disco com muita ternura. A dor inicial (“Jesus Alone”) vira desassossego mental (“Magneto”, “Anthrocene”) e dá espaço para a aceitação e esperança (“I Need You”, “Skeleton Tree”).

Se você precisa de um meio de expiar sua perda e sua dor, Nick Cave definitivamente é um companheiro. Daqueles que te conduzem pelos cantos escuros da tristeza, mas que te lembram também que há luz no fim do caminho, embora pareça um pouco pálida. Um disco termina, a vida segue.

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2 comentários em “Nick Cave And The Bad Seeds – Skeleton Tree (2016)

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