Bon Iver – 22, A Million (2016)

Justin Vernon volta menos folk, mais vanguarda e ainda muito sensível

Por Lucas Scaliza

Justin Vernon pesou a mão desta vez e faz de 22, A Million o álbum mais difícil de sua banda até agora. Se já se dizia que o Bon Iver era um folk de vanguarda, agora diremos o que? Que é ainda mais de vanguarda? Ainda mais experimental? Talvez seja uma questão para os teóricos do futuro, mas por hora é prudente dizer que é o trabalho menos apegado ao folk que a banda americana já fez.

Após o sucesso de crítica de Bon Iver, o disco de 2011, Vernon, o líder e principal compositor do grupo, passou por um período de ansiedade e esgotamento. Levou um tempo para que se desse conta de que tipo de música gostaria de fazer e de como poderia engendrá-la. Ouvir apenas as primeiras três faixas do novo disco já dá uma ideia de como ele resolveu seu dilema: manteve as melodias bonitas e adultas, bem cara do folk, mas o instrumental se tornou algo muito mais complexo e até imprevisível. “22 (OVER S∞∞N)” é construída inteirinha sobre apenas uma nota – dó sustenido – enquanto os saxofones, as harmonias vocais de Vernon, violas, violinos e o piano constroem uma música mais colorida por cima. “10 d E A T h b R E a s T ⚄ ⚄”   tem batidas pesadas e processamento de voz que fazem a faixa parecer mais Björk ou FKA Twigs do que Bon Iver. É a coisa menos folk que Vernon já gravou (mas nem por isso deixe de conferir). E os filtros vocais de “715 – CRΣΣKS” curiosamente lembram a produção de Kanye West (com quem ele já colaborou, aliás). Caso a descrição desses elementos todos não te convençam de que Bon Iver realmente apostou em algo diferente, repare no nome das faixas, sempre misturando números e linguagem críptica.

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Se o nome dele saiu das beiradas do indie e chegou ao mainstream, sendo citado por artistas com carreiras maiores e mais reconhecidas, sendo tomado como influência por novos artistas e bandas e até participando de programas de televisão populares (como o Saturday Night Live), 22, A Million é um lembrete contundente de que Bon Iver é música de nicho e assim continuará. Cinco anos se passaram e eles não voltaram mais adaptados ao gosto geral do público. É um álbum que corre riscos, inclusive de perder fãs que esperavam algo que tivesse mais a ver com Bon Iver: folk, mas não tradicional demais; vanguardista, mas não vanguardista demais.

Embora seja menos folk e vanguardista demais, Justin Vernon não apostou todas as fichas na excentricidade, sabendo misturá-la, em diversos momentos, com passagens mais fáceis. É o caso de “33 “GOD””, uma faixa com dois refrãos bastante palatáveis.
“29 #Strafford APTS”  também lembra bastante o estilo “clássico” da banda, sendo uma das faixas com menos surpresas. “666 ʇ” é outra composta por instrumentos e sons programados que aos poucos ganha peso com a adição de uma percussão bem saturada e de baixos pesados.

Duas coisas são absolutamente interessantes e importantes nesta obra. Primeiro: mesmo que a faixa pareça menos intrincada, ouça-a com atenção para encontrar diversos instrumentos ou programações eletrônicas enriquecendo os arranjos, mesmo que estejam bastante discretos na mixagem. Esse jogo de mostrar e esconder é um dos trunfos do grupo em 22, A Million. “21 M♢♢N WATER” é uma música se a ouvir displicentemente e outra se colcoar seus fones e buscar todas as vozes, sopros e ruídos escondidos nela. É um disco para se ouvir verdadeiramente além da superfície.

Segundo: mesmo que pese a mão na experimentação para além do que estamos acostumados, nenhuma das 10 músicas-canções do álbum deixam de ser emocionais e apresentar beleza genuína conforme ele canta sobre alienação, solidão e a ansiedade causada pela consciência desses dois estados. Você pode encontrar esses lindos momentos na progressão de acordes de “8 (circle)”, na paz transmitida por “29 #Strafford APTS”, nos refrãos de “33 “GOD””e “666 ʇ” ou no folk de “00000 Million”, que fecha o álbum limpando os maneirismos estilísticos e apostando – e acertando novamente – numa canção com jeitão mais tradicional.

Todo o álbum começou a ser composto por Vernon em um OP-1, um sintetizador portátil que mais parece um brinquedo. E os sons dele estão em diversas faixas de 22, A Million, não sendo substituído por um sintetizador ou teclado mais potente. Chris Messina, um músico amigo de Vernon, fabricou um novo instrumento que acabou se chamando Messina e está por todo o disco, mas é mais evidente na terceira e na nona faixa.

O folk como aquela música de cancioneiro tradicional, que há 50 anos separavam os adolescentes dos adultos nos Estados Unidos, continua existindo e tendo seu espaço entre bons cantores, compositores e instrumentistas. Mas uma outra cepa do estilo continua se desenvolvendo, levando o folk para paragens cada vez mais insuspeitas. É o caso de Bon Iver/Justin Vernon tanto quanto de Sun Kil Moon, Sufjan Stevens e Damien Rice, só para citar alguns. O que os une, no entanto, e que 22, A Million cumpre muito bem, é a qualidade de ser uma música confessional, madura e que, com a devida atenção que a obra merece, faz o ouvinte sair dela transformado. Não para melhor, mas mais sensível, com certeza.

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