2016 Folk Resenhas Rock

Okkervil River – Away (2016)

Will Sheff deixa de lado a nostalgia e se dá bem com o folk

Por Lucas Scaliza

Assim como muda de formação, a banda americana Okkervil River pode mudar sua sonoridade. Mas nunca tinha se mostrado tão longe do rock de guitarras quanto em Away, oitavo disco da carreira e o mais folk de todos. A animação e progressão de acordes que davam um ar positivo à The Silver Gymnasium (2013) e I Am Very Far (2011) foi substituída por tons menores, passo mais lento e maior ênfase nas orquestrações e em arranjos bem produzidos.

Away é um reflexo direto das mudanças que a vida proporcionou a Will Sheff, o líder da banda, nos últimos anos. Entre os principais acontecimentos está a troca de membros da banda e a morte de seu avô. Ao escrever as músicas e passar por essas experiências, Sheff se viu trilhando um caminho em que era obrigado a deixar certas coisas para trás e dar espaço para um novo tipo de vida. No final das contas, letras e músicas do disco tentam dar forma a essa condição. Para ajuda-lo nessa empreitada, contou com a participação da cantora Marissa Nadler, da orquestra yMusic, do cantor Jonathan Meiburg (do Shearwater), e do produtor Jonathan Wilson (que produziu os dois discos de Father John Misty).

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Com músicas mais longas que o normal, Sheff e sua banda explora melhor o espaço para versos e para fraseados que vão surgindo ao longo das canções, sem pressa, criando uma música rica de arranjos e com variações de clima, mesmo nunca se distanciando da melancolia que busca explorar. Assim temos músicas tão gostosas como “Mary On a Wave”, tristes como “She Would Look For Me” e imaginativas como “Judey On a Street”, que talvez seja uma das melhores composições da banda, no melhor estilo Joanna Newsom. A intensa “Frontman In Heaven” e a acessível “The Industry” são menos melancólicas, mas não menos emotivas. Em “Frontman in Heaven” temos uma interpretação daquelas da parte de Will Sheff. Na frente do microfone ele não apenas canta, mas conta uma história como um Mark Kozelek (Sun Kil Moon) ou Nick Cave.

“Okkervil River R.I.P.” é uma linda e tranquila ode à banda de outrora, com outros companheiros, gente por quem Sheff ainda tem muita estima. Mas teve que se desfazer desse apego para poder continuar e se transformar em algo diferente. Já a simpática “Comes Indiana Through The Smoke”, uma música perfeita para ouvir durante uma viagem, é totalmente sobre seu avô, T. Holmes Bud Moore. Muito próximo a ele, escreveu grande parte do conceitual The Silver Gymnasium sentado no telhado da garagem dos avós. A faixa tem um trompete, instrumento que Moore tocava, e imagina sua morte como uma volta ao navio em que serviu durante a Segunda Guerra.

Assim como o conteúdo musical e lírico, a arte que apresenta Away é uma das capas de disco mais bonitas que vi este ano. É uma pintura de um artista de 77 anos chamado Tom Uttech e a primeira vez que não usam uma imagem criada por William Schaff (desta vez, Schaff fez apenas a tipografia na imagem). Uma capa com uma variedade de animais em uma típica paisagem americana que, embora não tenha a figura humana, deixa subentendida a ação do homem nos tocos de árvores. É o mesmo tipo de beleza que há em uma música como “Days Spent Floating (In The Halfebetween)”: bucólica e melancólica. Aliás, esta é a última faixa do disco e mais uma que cresce em nós conforme cresce sua instrumentação.

Se a história de sua própria infância era o mote do disco anterior, e toda a carga nostálgica que evocava em sons e versos, Away parece ser o contrário disso, buscando sensibilizar o ouvinte para o seu momento atual, para a empatia que pode ter hoje, com o presente, sem precisar ficar buscando conforto a todo momento nas referências do passado, do que já é conhecido e testado. Isso vale para toda a cultura que nos cerca e também para a arte de que usufruímos. Away pode até falar do passado, mas é ao hoje que responde e espera despertar a empatia em cada ouvinte com o tempo presente.

O próprio Will Sheff aprendeu a lidar com isso antes de propor o mesmo. “Cheguei ao ponto em que a nostalgia não me torturava mais ou me deixava obcecado. Era só diversão, uma animalzinho empalhado no canto, ao invés de um monstro gigante que me ameaçava arrancar meus membros. E aí eu fiquei, tipo, ‘O que vem depois e o que temos agora?’”, ele diz.

Away não é o que você esperava que o Okkervil River faria, mas é o álbum que você precisa para pisar no freio, relaxar, pensar em sua própria vida (a partir da vida de Sheff. Empatia, lembra?) e se deixar levar por uma vibe musical muito mais folk do que roqueira. É surpreendentemente bonito e sensível.

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