2016 Pop punk Rock

Green Day – Revolution Radio (2016)

Álbum sintetiza o que a banda produziu até hoje, com uma sonoridade mais rock e temas atualíssimos

por brunochair

O primeiro CD da minha vida foi o Nimrod, do Green Day. O ano era 1997, e pela primeira vez na vida pude colocar um CD pra tocar. Estranhei o fato de não existir lado A e lado B, era tudo uma coisa só. E o punk rock que o Green Day se propunha a fazer nos clipes da MTV ganhava outros sabores, com jazz, skate rock, baladinhas, ska… enfim, o Green Day era muito mais eclético do que eu imaginava, e todos aqueles elementos deixavam o adolescente brunochair bastante surpreso (num bom sentido, no caso).

Após isso, fui conhecendo os outros álbuns (mais antigos) do Green Day. Mês a mês, fui preenchendo minha CDteca. Dookie, Kerplunk, Insomniac. Não cheguei a comprar o CD do Warning, mas acompanhei todo esse período muito bem. Pra dizer a verdade, torcia o nariz para aquele punk ultra pop dos anos 2000, mas hoje vejo como um período interessantíssimo da carreira dos caras – época de ousadia estética, que refletia na sonoridade, na busca por um público, por identidade.

American Idiot fez o Green Day voltar a ser popular, como nos tempos de Dookie. American Idiot trazia uma outra identidade, outras propostas estéticas. Pela primeira vez, letras políticas e de protesto entravam na temática do Green Day, algo que começou a aparecer em Warning de forma precária e contrastava totalmente com o niilismo e falta de sentido de viver que eram cultuados em Dookie.

Desde então, o Green Day nunca mais lançou mão (Billie Joe Armstrong, o grande compositor da banda) de tratar temas políticos e sociais nas canções. Há sim uma ponta de niilismo, mas o foda-se juvenil deu espaço para artistas realmente preocupados com a sombria e inevitável realidade. E assim tem sido nos álbuns 21st Century Breakdown, e a trilogia Uno! Dos! Tré!, em que a banda utiliza-se do seu grande espaço no showbizz para tratar de assuntos essenciais da realidade.

green-day-revolution-radio-3

Revolution Radio, o novo disco do Green Day, segue essa mesma tendência contestatória. Billie Joe e sua turma, totalmente atualizados sobre o cenário político e sobre a sociedade do espetáculo, procuram contribuir com a discussão, mostrar o ponto de vista deles para seus milhões de seguidores – sejam eles americanos ou não. Ainda que a discussão sobre a eleição americana (a perigosa ascensão de Trump entre o eleitorado americano) seja um tema bastante espinhoso e específico deles, vemos em tantos outros países uma onda de conservadorismo e proto-fascismo crescendo vertiginosamente. Portanto, a discussão é necessária, e mundial.

Em entrevista para a Rolling Stone, Billie Joe Armstrong diz ter dado de frente com uma passeata do Black Lives Matter. O cantor do Green Day diz ter parado o carro na Eight Avenue e começou a marchar com os manifestantes pelas avenidas de Nova York. “Revolution Radio”, um dos primeiros singles deste disco, reflete essa necessidade de legalizar a verdade e lutar contra o establishment.

Em“Bang Bang” Billie Joe dá voz a um atirador psicótico. De certa forma, a discussão recai nessa “habilidade” da sociedade americana em produzir potenciais atiradores em massa, e ao mesmo tempo na existência desse narcisismo perigoso que se criou com as redes sociais – e que pode dar vazão a perturbadores indivíduos, como estes atiradores em massa. O álbum também traz uma música de Billie Joe em homenagem à sua esposa Adrienne (“Youngblood”), com quem convive junto há 22 anos. Outra música digna de nota é “Still Breathing”, que possui forte inspiração no período em que Billie Joe esteve em uma clínica de reabilitação, para cuidar de sua dependência com o álcool.

green day revolution radio 2.jpg

Meio político e meio confessional, o Green Day atualiza as discussões, os debates, as aflições, a desesperança (“Troubled Times”). Quanto à sonoridade, percebe-se que pouca coisa mudou desde American Idiot: o Green Day abriu mão da experimentação da década de 90 e partiu para um punk rock de arena, que ressalta o ROCK em relação ao punk. Podemos perceber em Revolution Radio que as guitarras estão sempre em destaque, Mike Dirnt buscando brilhar nos respiros e Tré Cool (ainda que com menos energia e menos velocidade) originalíssimo, com várias saídas inteligentes e viradas, tornando-se o instrumentista destaque deste álbum.

Não trata-se aqui de uma crítica a esta fase anos 2000 do Green Day, mais ROCK e menos punk, apenas uma constatação de que a sonoridade do grupo está menos adepto ao ecletismo do que outrora. Ainda assim, as músicas continuam seguindo uma linha do punk, com arranjos bastante simples – o que considero uma virtude, pois foi essa simplicidade que também atraiu (e continua atraindo) público interessado no Green Day.

Interessante observar que Revolution Radio foi gravado em um pequeno estúdio em Oakland (Califórnia) apenas com o auxílio de um engenheiro de som. Ou seja, o Green Day foi o próprio produtor do álbum. O álbum tornou-se mais “orgânico” com isso? Talvez sim, mas no caso do Green Day a questão nem é essa: após tanto tempo trabalhando em álbuns independentes, grandes gravadoras e com produtores de renome, o grupo talvez esteja agora bem consciente do que quer e onde querem chegar.

Enfim, essa resenha não elegerá Revolution Radio o melhor ou o pior álbum do Green Day. No fim das contas, era o melhor que o Green Day poderia fazer para agora (em 2016). Um disco atual, sincero e sem rodeios, produzido por eles próprios. Não há do que reclamar: Revolution Radio sintetiza o que o Green Day foi até durante essas quase três décadas, dando ênfase na sonoridade anos 2000 e nos temas atualíssimos.

Pode ouvir, que a gente recomenda.

green day revolution radio 1.jpg

0 comentário em “Green Day – Revolution Radio (2016)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: