Moby & The Void Pacific Choir – These Systems Are Failing (2016)

“Deixem os sistemas falharem”, pede Moby em seu disco eletrizante a favor dos animais e do meio ambiente

Por Lucas Scaliza

Moby veste terno e está submerso em uma piscina. Segura um microfone e embora seja possível ouvir sua voz, quando sua boca se abre debaixo d’água bolhas saem dela, não sons. Mas a narração nos conta que o humanidade precisa de “coisas” para viver feliz e sobreviver. Essas “coisas” nos salvaram, coisas como armas, comida e abrigo. A humanidade conseguiu o que queria, estabelecer o mínimo de condições para viver bem e vencer as intempéries do ambiente em que estava jogada.

Mas vencer não foi o bastante e a humanidade seguiu em frente comendo como se não houvesse amanhã, destruindo o meio ambiente em nome do progresso e lutando guerras sem sentido. Grandes cidades, grandes indústrias e grandes sistemas foram formados para gerir tudo isso. “Esses sistemas deveriam nos proteger, mas poluíram nosso ar e nossa água. Esses sistemas deveriam nos salvar, mas estão nos matando”, diz Moby. “Esses sistemas estão falhando. Deixe que falhem.”

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O DJ, produtor e compositor americano Moby é vegano e um defensor voraz da causa animal desde o início dos anos 90. Uma rápida olhada em seu Instagram e já é possível sentir seu carinho pelos bichos e agressividade com que milita pela causa. Ele não despreza quem come carne, mas é notório que usa sua fama para dar visibilidade para a causa. These Systems Are Failing, primeiro disco em parceria com a banda The Void Pacific Choir, é uma reação raivosa contra esses sistemas capitalistas e predatórios em forma de música. Suas mensagens tentam sensibilizar bilhões de pessoas que vivem e promovem um estilo de vida que depende da ação desses fatores que colocam em risco animais e o meio ambiente.

De certa forma, o disco é um retorno à Animal Rights, o segundo disco de Moby. Ele já era reconhecido como um artista em ascensão na cena eletrônica de Nova York, mas meteu na cabeça que queria fazer um disco de punk rock, tocando guitarras distorcidas e tudo o mais. Foi um fracasso lá em meados da década de 1990 e nem consta em sua discografia no Spotfy atualmente. Agora talvez tenha mais sucesso, já que é um nome e tanto da música mundial. Contudo, não será um sucesso mainstream – ou pelo menos não deveria ser. Se é para ir contra o sistema, Theses Systems Are Failing não pode ser absorvido facilmente por ele.

O disco é roqueiro, mas não deixa de ser Moby nem por um minuto. Há diversas batidas claramente eletrônicas e partes de teclado e sintetizadores que reconhecemos como parte do estilo tecno do DJ careca (como em “Are You Lost In The World Like Me?”). Mas há também guitarras distorcidas e urgência na forma de cantar e expressar as canções. “The Light Is Clear In My Eyes” é o lado mais Joy Division/Ian Curtis que Moby nos mostrou em anos. Com menos de dois minutos, “And It Hurts” é uma rajada de eletro punk, com a voz do cantor filtrada e todos os sons saturados de eletricidade. Já a poderosa “Don’t Leave Me” ganhou um clipe que só pode existir na era YouTube. Caso fossem ainda os anos 90 e o artista dependesse da MTV, o vídeo seria recusado, por mostrar frangos, porcos, bovinos, ratos, macacos e diversos outros animais em situações degradantes de confinamento, seja para venda, engorda ou abate.

O álbum é bem direto, com composições que entregam logo tudo o que têm. Sobra energia e sobra vibração. These Systems Are Failing é bem diferente de todos os álbuns que Moby lançou nos últimos 10 anos, preenchendo tudo com som de guitarras pesadas e baterias enormes, em contraposição às faixas mais noturnas e atmosféricas que lançou. “Hey! Hey!” tem algo de anos 80 em seu DNA, “Break.Doubt” é quase como uma faixa de rock industrial e chega a lembrar Rammstein e “Errupt And Matter” soa apocalíptica.

Não dá para confundir as coisas com Moby & The Void Pacific Choir. É um disco para cima e forte, mas não do tipo animado e feliz. A energia do álbum tem mais a ver com revolta ou uma animação torpe de quem assume uma posição pessimista do mundo e da sociedade. Há aí um pouco dos Pixies no início de carreira também.

Embora tenha boas canções, These Systems Are Failing não pretende mostrar um nível de composição tão alto quanto qualquer outra obra de Moby. É um álbum que pretende incomodar, falar alto e rasgado para seus ouvintes, apontar o dedo acusador mesmo, ser sarcástico e irônico. Afinal, só mesmo a consciência e a entrega a um problema mundial tão grande – e tão difícil de ser solucionado – faria um homem de 50 anos voltar a se sentir como se tivesse 20 e poucos e gravar músicas tão eletrizantes.

A banda Muse também vem criando histórias e álbuns que pintam um presente e um futuro distópico, mas o senso de espetáculo da banda acaba fazendo tudo parecer mais entretenimento do que um tema que a banda queira discutir seriamente (vide Drones, de 2015). E o U2 também continua permeando seus shows e atos fora do palco de intenção política, mas as músicas que vem criando há muito tempo deixaram de vociferar duramente ou poeticamente contra as mazelas do mundo. Somente Neil Young fez um disco (The Monsanto Years, de 2015) que é sarcasticamente corrosivo e direto ao ponto contra grandes corporações e a favor do meio ambiente, sem rodeios e sem tentar abafar os assuntos de que trata.

No mundo real, Moby & The Void Pacific Choir são Davi e as indústrias são Golias, a banda é Dom Quixote e o capitalismo carnívoro é um moinho de vento. Não importa se vão fazer a diferença. Importa a coragem de se erguer e deixar claro o que está acontecendo.

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