2016 Resenhas Soul

Beverley Night – Soulsville (2016)

Disco define a soul music em 2016

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me da primeira vez que ouvi Aretha Franklin. Meus ouvidos já estavam acostumados com boas cantoras, mas nunca tinha ouvido algo tão fantástico. Sua voz potente, clara, com uma força sobrenatural me surpreendeu e me deixa estarrecido até hoje. Sua voz é um típico talento desenvolvido nos corais das igrejas americanas, locais conhecidos pela educação vocal de muita gente famosa do século passado.

Outra grande artista que teve sua voz treinada dentro das igrejas na infância, foi Beverley Knight. A cantora, que é considerada uma das grandes vozes do soul no Reino Unido – seu début foi classificado como o melhor álbum de soul britânico pela revista Echoes –, possui uma potência vocal absurda, e bom senso na utilização da técnica combinado a um feeling sensacional. O primeiro disco, B-Funk (1995), era mais focado no R&B noventista que tinha alguns representantes nos Estados Unidos como Maxwell e D’Angelo. Mas recentemente, a sonoridade de Beverley Knight está mais próxima do soul que a influenciou, como no seu último disco, que era um coleção de covers chamada Soul UK (2011).

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Em seu novo disco, Soulsville, a cantora trabalha uma sonoridade ainda menos dançante e mais anacrônica, explorando ainda mais a conexão com o soul americano. O nome do álbum faz referência ao bairro da gravadora de soul Stax Records, em Memphis. O álbum foi gravado em uma semana no Royal Studios – onde Mark Ronson e Bruno Mars gravaram parte de “Uptown Funk” – e possui a participação de músicos notáveis como Jamie Cullum e Sam Moore.

“Middle of Love” abre o álbum com guitarras anacrônicas recheando o arranjo e depois desemboca em um ótimo refrão que nos convida a cantar junto. “All Things Must Change” é um dos pontos mais altos. A faixa possui um teclado pontuando notas em staccato, enquanto Beverley passeia livremente com sua voz e uma entrega apaixonante. O refrão possui uma ambientação bem parecida com a técnica Wall of Sound do produtor Phil Spector, muito comum no soul dos anos 60.

“Don’t Play That Song” é um cover do Ben E. King. É uma balada dolorida, que remete totalmente à Aretha Franklin. Os vocais de fundo preparam o caminho, enquanto o vocal principal desfila grandiosamente. “Still Here” é moderna, jazzística e conduzida por um baixo forte. O cover “Hold on, I’m Coming” é uma festa de celebração da soul music. Traz um dos grandes cantores do estilo, Sam Moore (inclusive o cover é da dupla Sam & Dave). O dueto é tão interessante que parece que Beverley é contemporânea de Sam, tamanha é a sua desenvoltura em uma performance fantástica.

Em diversos momentos de Soulsville, percebemos que Beverley Knight não somente canta soul, mas ela possui o estilo impregnado em suas cordas vocais. E ela não pode fugir disso. Sua voz é perfeita para o estilo.

Este álbum não é somente um disco comum. É uma celebração do estilo que definiu parâmetros para produções musicais por décadas. Beverley canta com tanta propriedade que é difícil acreditar que ela não é uma das criadoras da soul music.

Enquanto Soul UK (2011), seu último lançamento, tinha somente covers clássicos, Soulsville mescla covers com canções próprias. É como se o repertório nos permitisse perceber que Beverley compõe e executa canções tão boas quanto as feitas nos anos 60. Mesmo que suas canções não sejam clássicas como os covers que ela traz, ela cria canções que, tratando-se de soul, possuem a mesma paixão e o mesmo brilho. Ou seja, é tudo soul music de altíssimo nível.

Se há um disco que defina o soul em 2016, é este.

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