2016 Pop Resenhas

Skye & Ross – Skye & Ross (2016)

Orgânico e feito em casa, disco de integrantes do Morcheeba oferece uma coleção de ótimas produções

Por Lucas Scaliza

No momento em que você dá play em Skye & Ross, parece, por dois minutos, que teremos um grande álbum de trip hop, eletrônico e sofisticado, sem ansiedade e com muita elegância. “Repay The Saviour”, que abre o trabalho, é rica em atmosfera e te engana. Pois todo o resto do álbum é menos eletrônico e mais orgânico, fazendo do trip hop mais uma influência do que um estilo em exercício.

Mesmo assim, Skye & Ross é válido do começo ao fim. Mesmo que nossas expectativas quanto ao estilo sejam frustradas por uma abordagem mais convencional, é inegável a qualidade de cada uma das composições e o cuidado como todos os elementos foram tratados e encaixados. A voz de Skye Edwards é puro veludo. Os timbres de guitarra ficam entre o rock, o soul e o psicodélico (Dan Auerbach ficaria orgulhoso). E as várias camadas de teclado garantem que Skye & Ross não soe eletrônico, mas tenha clima de sobra.

skye_ross_2016

O álbum reúne os talentos de Skye Edwards, Ross e Paul Godfrey, todos do Morcheeba , trio inglês de trip hop bastante influente desde os anos 90. Mas dessa vez eles tentaram algo diferente, mais orgânico, com mais cara de banda e nunca – NUNCA – nivelando por baixo. Tiraram as programações e batidas eletrônicas e substituíram tudo por uma banda de verdade.

O desafio é achar algo que seja menos do que bom no álbum. Ou achar algo que pareça fora de lugar. “Light and Gold” e “All My Days” são almas gêmeas e conquistam o ouvinte com cada acorde. “Hold On” parece que vai cair no eletrônico até chegar o refrão cheio de vida e alma. “Clear My Mind” é mais clean, apenas voz e um violão sendo dedilhado. Apesar da simplicidade, note como tudo ressoa com uma beleza rara. A voz de Skye é cristalina e as cordas criam toda a ambiência que a faixa precisa. São os méritos de produção de Ross.

“How To Fly” e “Feet First” revelam a influência mais roqueira e western na dupla, sempre aumentando a dinâmica sem perder a suavidade dos timbres. “Head Home” vai sendo construída aos poucos, novamente, tira sua força da produção esmerada. Tem apenas dois minutos, mas poderia ter o dobro do tempo que ficaríamos gratos em acompanhá-la.

Apesar de ser um disco redondinho, só não é perfeito por não tentar ousar um pouquinho mais. Se Skye & Ross peca em algum ponto, é em não confiar em suas credenciais musicais já muito bem estabelecidas com mais de 20 anos de carreira e entregar algum momento mais anárquico ou mais confuso ao longo do repertório. Embora corram algum risco por terem mudado o jeito de fazer música e o estilo, esse risco é atenuado por levar a marca Skye & Ross, e não Morcheeba. A única faixa que parece se deixar libertar um pouco mais é a lenta “The Point Of No Return”, que aproveita bem seus quase 7 minutos para ir do blues rock dos Rolling Stones a uma pegada mais psicodélica, sem falar no excelente trabalho de vocalizações.

Como o disco foi todo gravado em estúdios montados na casa de Skye Edwards e Ross Godfrey, contaram com suas famílias para ocupar todas as vagas disponíveis da banda. O filho de Skye tocou bateria e o marido assumiu o baixo. Já a esposa de Ross contribui com os vocais. O único músico profissional que precisaram contratar foi o tecladista, que já tocava com eles ao vivo há alguns anos. Após todas as faixas estarem praticamente prontas, Ross apenas enviava um arquivo de áudio para Skye que gravava a voz principal em seu próprio estúdio improvisado em uma sala de costura.

Parece uma forma de gravar descomplicada e realmente deve ser, pois Ross diz que foi mais fácil e mais divertido fazer Skye & Ross do que qualquer outro disco do Morcheeba. Essa falta de tensão transparece no álbum e é um dos motivos de ser uma coleção de músicas tão boa para te acompanhar em qualquer momento do dia. Não é o tipo de disco que vai concorrer aos melhores do ano, mas fará seu dia mais leve com uma grande qualidade musical.

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1 comentário em “Skye & Ross – Skye & Ross (2016)

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