2016 Indie Resenhas Rock

Warpaint – Heads Up (2016)

O segredo dessas quatro californianas está no jeito de tocar

Por Lucas Scaliza

Após o bem sucedido segundo álbum, o quarteto feminino Warpaint lança o terceiro trabalho com os mesmos elementos que o antecessor, mas esbanja mais confiança. E mais confiança, no caso delas, parece refletir segurança em fazer uma música que não seja milimetricamente planejada e dê muito espaço para percebermos que há muita espontaneidade.

Tanto quanto o tipo de som que a banda faz, que já está bem exemplificado em seus dois primeiros álbuns e EP de estreia, uma das marcas do Warpaint é a forma extremamente orgânica como soam as gravações de todos os instrumentos. Ao mesmo tempo em que tudo está em seu devido lugar, é possível perceber um certo “desleixo” por parte das instrumentistas. Mas não entenda desleixo como erro, e sim como uma forma de tocar bem própria delas que faz a gravação do álbum soar quase que como um ao vivo. E esse “desleixo” não é um prejuízo, e sim algo a mais para se ver na banda e aprender a gostar. Como se fosse um meio termo entre as Hinds e as Savages, as californianas do Warpaint são uma banda de rock que vão na contramão das superproduções.

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O processo de gravação e a ideia que norteou o projeto de Heads Up contribui para este resultado tão interessante. O produtor Jake Bercovici, que trabalhou com o quarteto em Exquisite Corpse (2008), coordenou o trabalho da banda no estúdio House on the Hill, no centro de Los Angeles, mas cada uma das integrantes pôde contribuir gravando algumas partes de músicas de suas próprias casas, com liberdade criativa. No final das contas, conseguiram não só manter o estilo que a banda já vinha desenvolvendo como também mostrar novas influências (algumas bastante literais). Assim, Heads Up soa um pouco mais consistente do que Warpaint (2014).

Embora tenha duas guitarristas na banda, Emily Kokal e Theresa Wayman, a guitarra manda muito menos nas faixas, sendo mais utilizadas para complementar os arranjos e algumas esquisitices do grupo. Difícil ouvir faixas como as ótimas “By Your Side”, “The Stall” e “Dre” e não lembrar do rock alternativo dos anos 90, quando a ambientação mais soturna das faixas era tão ou mais importante que a técnica musical da banda. “Witheout” lembra muito o Radiohead da fase Hail To The Thief (2003) e outras como “So Good” e principalmente “Don’t Let Go” são um perfeito exemplo de como a banda combina elementos mais acessíveis (como o refrão) a outros bem alternativos (como todo o resto da instrumentação).

“New Song” é o primeiro single do álbum e não é à toa. É a banda fazendo uma música mais acessível e regular com um refrão capaz de grudar no ouvido. “Above Control” é como uma versão Warpaint de uma música dos primeiros álbuns do New Order.

Se as guitarras têm menos presença na condução das músicas, sobra para a baixista Jenny Lee Lindberg e a baterista Stella Mozgawa mostrarem que são as instrumentistas definitivas de Heads Up. Embora Mozgawa tenha seus momentos, como em “Above Control” e “Don’t Let Go” e “By Your Side”, é Lindberg quem faz um trabalho ainda mais notável do que já tinha feito no registro anterior. Além de seu baixo segurar toda a base harmônica das canções do álbum para que as guitarras e os eventuais sintetizadores possam fazer suas mágicas, ele não se contenta em fazer apenas bases simples e dá um show de interpretação. Tire as frequências graves produzidas por Lindberg e Warpaint não será mais a mesma banda.

As meninas do Warpaint não perderam a veia indie original, mas fazem músicas que agora trazem algo mais divertido ao seu cenário noturno. Dá até para dançar uma ou outra faixa. Heads Up mostra que a banda está cada vez mais consciente do que pode fazer e ciente de que o jeito de tocar de cada uma é um dos maiores trunfos da banda, já influenciando diversos outros grupos desde 2014. E assim vão escrevendo seu nome no indie rock contemporâneo.

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