2016 Metal Resenhas

Meshuggah – The Violent Sleep Of Reason (2016)

Mesmo com músicas supercomplexas, novo disco do Meshuggah foi gravado ao vivo no estúdio e fala de terrorismo e de uma sociedade anestesiada

Por Lucas Scaliza

O novo álbum do Meshuggah já começa levantando os mortos, ou garantindo que eles fiquem quietinhos, soterrados por níveis insanos de distorção e afinações baixas. “Clockworks”, que abre The Violent Sleep Of Reason e já tem cara de nova obra-prima, resume o estilo de música que será apresentado pelas próximas nove faixas e ainda atesta a constante preocupação da banda com técnica, peso, criação de riffs e faixas que mexam com os nervos dos ouvintes.

Mais uma vez, não estamos em terreno inocente. Cada nota fora da escala e cada mudança de compasso é pensada para que o Meshuggah possa apresentar seu conhecimento de harmonia aliado a velocidade e uma matemática bastante complicada. Até mesmo “Born In Dissonance”, que se mantém por bastante tempo em 4/4, confunde o ouvinte, já que seus riffs são construídos para confundir a noção rítmica de quem os ouve. Assim, Meshuggah continua sendo uma ótima banda para os nerds metaleiros que gostam de contar compassos e notar cada semitom ou trítono nos riffs dos suecos Mårten Hagström e Fredrik Thordendal.

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Contudo, é mérito de The Violent Sleep Of Reason não parecer apenas música para músicos. Dá para curtir esse colosso de timbres pesados mesmo sem entender nada de tonalidade e mesmo que o ouvinte nunca tenha ouvido falar em sustenidos e bemóis. Afinal, uma música como a ótima “Monstrocity” pode facilmente ser entendida como algum tipo de cruzamento entre Slayer e Symphony X.

Tudo é pesado e muito arrastado no disco dos suecos. Raramente temos ritmos fluentes. Tudo é entrecortado por violentos ataques na guitarra e no baixo, cujos acordes e notas não se permitem reverberar por muito tempo, sendo logo abafados para, em questão de microssegundos, serem atacados novamente. Além disso, não faltam notas que não sejam puxadas para baixo, sempre soando meio tom mais altas, porém com um sentimento depressivo e dissonante (“The Violent Sleep Of Reason”).

Aliás, um dos momentos mais interessantes do álbum é o minuto final de “Stifled”, com uma bonita e melíflua passagem de teclados, algo que contrasta bastante com o estilo de riffs “burocráticos” que são a marca do Meshuggah. E essa bela passagem instrumental liga-se ao início pesado e poderoso de “Nonstrum”, criando um zumbido e devolvendo a música ao reino de caos matemático e metaleiro da banda.

Toda a concepção barroca do álbum é inspirada na gravura O Sono da Razão Produz Monstros, do pinto espanhol Francisco Goya. As letras cantadas por Jens Kidman versam sobre terrorismo, dogmas religiosos, o perigo de aceitar formas radicais de enxergar o mundo e o fato de não agirmos quando algo está claramente fora dos trilhos. Embora tenha sido gravado ao vivo, com todos os integrantes tocando juntos para capturar a energia e a crueza da banda, The Violent Sleep Of Reason em momento algum parece descarrilhar, tal é a precisão técnica de cada músico. É difícil ouvir o álbum e acreditar que alguns de seus músicos não tiveram uma educação formal em música, tal é a complexidade do que fazem.

Kidman, que canta com uma enorme competência, mesmo que seu vocal não traga grandes diferenças entre uma faixa e outra, ou mesmo entre os últimos discos do grupo, também responde pela guitarra base e, no caso do Meshuggah, temos que levar em conta o esforço muscular e mental para garantir que se mantenha dentro da métrica dos polirritmos. E por falar em ritmos, a dupla Dick Lövgren (baixista) e Tomas Haake (baterista e compositor) está perfeita em seus postos. A distorção no baixo de Lövgren contribui com todo o tom geral do álbum, enquanto a destreza e criatividade de Haake é de cair o queixo mais uma vez.

Em diversos momentos do álbum a banda soa mais lenta, mas nunca deixa de soar grave, down e sombria. É uma banda barulhenta sim, porém o peso verdadeiro vem das pinturas sonoras que conseguem registrar em cada disco, fazendo o ouvinte sentir (sinestesicamente falando) a textura áspera de cada riff.

Chama a atenção a beleza da guitarra solo de Thordendal. Às vezes mais dissonante, outras vezes criando zunidos semitonados que vão subindo de intensidade (“Monstrocity”) e tem até alguns mais lentos e melódicos (“Ivory Tower” e “Stifled”) ou que mais acompanham a harmonia (“Our Rage Won’t Die” e “Into Decay”) que mostram como ele sabe se expressar bem sem precisar recorrer eternamente à velocidade extrema. Mas há também fritação, como em “Born In Dissonance”, “Nonstrum” e “Monstrocity”. Mas não é uma regra. É preciso ouvir o álbum para ver como ele lança mão de todas essas técnicas, às vezes mais de uma na mesma canção.

Acostumados a dar um tempo de três ou quatro anos a cada novo álbum, o Meshuggah faz valer a espera. The Violent Sleep Of Reason é um discaço que consegue ser melhor que Koloss (2012) e ainda provar que o quinteto é uma superbanda sem ajuda das facilidades do estúdio. Podemos até dizer que a banda não muda e nem varia tanto assim sua sonoridade, mas a preguiça passa longe deles. Meshuggah continua sendo uma banda única.

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3 comentários em “Meshuggah – The Violent Sleep Of Reason (2016)

  1. Pingback: Animals As Leaders – The Madness Of Many (2016) | Escuta Essa!

  2. Ótimo review, me fez ter outra perspectiva do álbum, ja fiz umas quatro audições, realmente vale muito a pena e o Meshuggah se mostra muito capaz, muito obrigado!

    • E no Brasil não sai CDs… para variar.
      Não ouvi ainda a banda, mas tomei conhecimento apoś conhecer Animals As Leaders e o Devin Townsend.

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