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Aquarius – A trilha sonora (2016)

por brunochair

Hoje / Trago em meu corpo as marcas do meu tempo. “Hoje”, música que integra o disco de mesmo nome de Taiguara lançado em 1969, foi a música escolhida para abrir e encerrar o filme Aquarius, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Estes primeiros versos da música (que refletem uma condição forte e intrínseca entre o passado e o presente) dão vazão à condição conflituosa da personagem Clara (Sônia Braga), que prefere resistir às marcas de um novo tempo – que não o seu. No entanto, espera que os novos tempos ao menos (e também) respeitem às suas próprias marcas, trazidas lá de trás. Novos tempos: business, empreendimentos imobiliários de grande porte, especulação na orla de Boa Viagem, e… o edifício Aquarius, em pé. O passado ali, visível. E a música de Taiguara servindo como um aviso de que pessoas e prédios e cômodas pedem passagem e ainda desejam existir, a seu modo. E de pé, ainda que com marcas.

Na segunda parte do filme, Clara (já Sônia Braga, já uma jornalista cultural bastante respeitada) está concedendo uma entrevista para um jornal local sobre as músicas e plataformas da atualidade. Clara diz não ter nada contra streaming e mp3, mas ainda prefere a companhia dos discos. E, enquanto a entrevista acontece, ouve-se “Dois Navegantes”, música que está no disco da banda Ave Sangria de 1974. Ao mesmo tempo que Ave Sangria é executado sem falhas no aparelho de som, Clara mostra um vinil do último álbum de John Lennon, chamado Double Fantasy. “Isso aqui é uma mensagem numa garrafa“, diz ela, ao narrar a história daquele disco, comprado em um sebo. Dentro do vinil, uma reportagem feita com John Lennon, semanas antes de ser assassinado. Uma das perguntas da reportagem: quais são seus planos para o futuro? Como pode-se ver, não há futuro – nem em Lennon nem no filme. O futuro talvez esteja representado no filme no momento em que Clara ensina o seu neto, filha de Ana Paula, a mexer no antigo aparelho de vinil. Ensiná-lo o gosto pela música, a não descartar o que há de história em tudo.

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E é através deste respeito à história e ao passado que Tia Lúcia comemora o seu aniversário de 70 anos no início da década de 80, ao som de Altemar Dutra e a sua canção “Sentimental Demais”, na primeira parte do filme. Enfim, outra música do passado, que serve como trilha do presente. E essas “músicas do passado” acabam por falar e traduzem muito mais o presente do que as músicas atuais. Clara lança mão de “Fat Bottomed Girls” do Queen* para expressar toda a sua raiva em relação ao barulho que vinha de cima do seu apartamento. Poderia ter colocado um rock pesado para atrapalhar os vizinhos? Sim, mas o Queen é mais vibrante, é mais forte, traduz muito mais a sua revolta. Em outro momento do filme, Clara aconselha o seu sobrinho, durante um passeio na praia, a colocar pra tocar uma música de Maria Bethânia para impressionar uma garota que ele está conhecendo. “Mas, Bethânia?”. Sim, Bethânia.

E esta mesma garota, que vem do Rio de Janeiro e integra a família por alguns dias, surpreende Clara ao escolher a música “Pai e Mãe”, do Gilberto Gil para tocar na vitrola. “Não é tão conhecida nem badalada dele, mas é uma das minhas preferidas”. A partir daí, somos tomados pela voz de Gil e pela cumplicidade do olhar entre Clara e Júlia, a garota carioca. Como duas pessoas tão diferentes, ainda que unidas pela mesma língua e envolvidas pelo mesmo país, conseguem emocionar-se ao ouvir uma música? É algo que não consegue ser explicado através da tela do cinema, uma energia transportada também para nós, os telespectadores.

Outra música digna de nota desta trilha sonora é “O quintal do vizinho”, de Roberto Carlos. Neste momento do filme, Clara está retornando de uma noite mal-sucedida – dançou com um homem viúvo, foi levado por ele até o seu carro, mas as suas “marcas do passado” não foram bem recebidas pelo homem, e.. cada um para o seu lado. Aí ela volta pra casa, e coloca um Robertão pra ouvir. Música de fossa? Que nada! Rompendo todos os esteriótipos, a música escolhida para a trilha sonora possui uma mensagem bastante positiva, e é partindo dela que Clara prefere espantar a tristeza dançando…

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Ainda que na primeira parte do filme tenhamos o frescor de uma fita k7 com “Another One Bites the Dust”, do Queen; e “Meu Som é Pau” do Aviões do Forró, embalando um bacanal regado a fezes, a maioria das canções está na trilha sonora do filme para ressignificar o presente à partir de uma perspectiva do passado. A revolução em Aquarius está, por fim, em dar força a este passado, revelando-o. E a trilha sonora consegue capturar com maestria este propósito. A trilha sonora de Aquarius não é só um conjunto de músicas: serviu para dar vazão e visão de mundo aos sentimentos dos personagens; é uma imersão feliz e profunda na MPB e no pop mundial, através dos olhos de uma protagonista que não tem nada contra o futuro: só acha ele meio estranho, sem sal e sem sentido.

Deixem-na em paz.

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