2016 Eletronica Indie Resenhas

Nicolas Jaar – Sirens (2016)

Ligando o passado ao presente, Pinochet a Trump, música clássica e eletrônica, Nicolas Jaar faz um disco engajado que soa como um alarme de nossos tempos

Por Lucas Scaliza

O DJ e compositor americano Nicolas Jaar, que possui raízes no Chile, nos presenteia com mais um disco em que prova sua habilidade de fazer música para nossos sentidos, misturando com maestria ruídos do dia a dia, ambiência sonora e batidas da dance music. E como se não fosse o bastante, há uma dose de melancolia e em suas harmonias e algo de esquisito em como executa os temas de suas canções.

“Killing Time” abre o disco quebrando vidros de aquário, representando o estilhaço do objeto com um ágil deslizar de mãos pelas teclas do piano, flertando com a música clássica contemporânea. A segunda parte da música tinha tudo para ser algo comum, caso Jaar não substituísse a batida regular da bateria eletrônica e dance –como ele usou em Nymphs (2015) – pelo som retumbante que atinge seus tímpanos como uma estaca de construção civil atinge o solo. O terceiro ato é uma volta à música ambiente típica de Jaar, em que ondas sonoras de sintetizador se misturam a ruídos e gravações de objetos.

“Killing Time” contém a história de um jovem adolescente de 14 anos chamado Ahmed Mohamed que levou para a escola o estojo em que estava construindo um relógio, mas seu professor achou que parecia uma bomba e chamou a polícia. Depois cita Angela (sim, a Merkel) e sua política de abrir as portas para os imigrantes (ou seria para uma força de trabalho com custos baixíssimos?).

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Se no disco anterior as vozes eram mais um elemento do ambiente e de colagem, em Sirens ele volta a apostar em melodias vocais. Mas ele não facilita. “The Governor” é regular por alguns compassos e difusa por tantos outros, mesmo quando a batida raver começa. Jaar experimenta com instrumentos e dinâmica, passando longe de fazer uma canção previsível. E próximo ao final, tudo se encontra em um dos melhores momentos de Sirens.

“Leaves” é quase toda ambiente, com a intrusão de alguns acordes do teclado, de um sintetizador espacial e de uma introdução oriental, por meio da escala pentatônica. A música emoldura a gravação em espanhol de Jaar ainda criança, pouco antes de se mudar para os Estados Unidos, conversando com seu pai, Alfredo, sobre o uma estátua que estava sendo mordida por leões, mas os leões nada faziam a ela, pois era muito pesada. O gosto de Nicolas pelo clássico aparece na forma de referências ao francês Claude Debussy (que também foi um mestre na utilização da pentatônica na música europeia) e ao impressionista Erik Satie.

Em época de Donald Trump, cada vez que o espanhol chileno aparece nas gravações soa como um ato político. E Sirens não deixa de ser abertamente um disco político. A forma como ele cola sons que pouquíssimos outros artistas combinariam é um traço tanto de seu DNA musical quanto de sua habilidade como editor de música. Nem sempre é fácil entender o que ele quer dizer com todas as suas experiências ou com as gravações do jovem Jaar de 1993 que aparecem ao longo do disco, mas dá para sentir que há mais do que nostalgia envolvida.

A longa “Three Sides of Nazareth” é a faixa que poderia consagrar Jaar tanto em pistas underground como no mundo da música eletrônica com sérias preocupações artísticas. Suas batidas pungentes e regulares dão espaço para momentos transcendentais mais estilizados dentro da bolha de distorção sintética que cria. A letra fala de um muro e de andar de um certo lado da estrada, claramente mostrando há “um lado” perigoso e ameaçador nessa estrada. É tanto o fantasma de Pinochet dando as caras na canção – como acontece também nos contos e romances do chileno Alejandro Zambra – quanto uma metáfora para um possível futuro com Trump na sala oval da Casa Branca.

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E “History Lesson”, que fecha o álbum, é ainda mais surpreendente. Doce e em grande parte em 6/4 – um compasso que 90% dos artistas eletrônicos comuns parecem desconhecer –, ele destila um pouco de sua ironia sobre a América em que vive: “Nós fodemos tudo/ Nós fodemos de novo, de novo, e de novo/ Não pedimos desculpas/ E não tomamos conhecimento/ Nós mentimos/ Terminamos”.

“No” é outra música mutante que combina seu eletrônico experimental com a música chilena, um reggae de sintetizadores e batidas latinizadas filtradas por uma melancólica globalização. Música feita durante uma recente viagem ao Chile, evoca tanto o passado ditatorial do país, cujo governo foi apoiado pelos EUA, quanto o perigo de se colocar um novo ditador, por vias democráticas, no comando dos EUA.

As sirenes (“sirens”) de que fala o álbum de Nicolas Jaar são essas que estão soando por todo o lado, mas parece que não conseguimos ouvir. Ou se ouvimos, não podemos fazer muita coisa para mudar. Sirens é apenas seu segundo álbum completo – ou terceiro, se considerarmos sua trilha alternativa Pomegranates (2015) –, mas já demonstra um nível de criação muito maior agora do que em sua estreia com Space Is Only Noise (2011) ou com o duo Darkside. Aproveitou o momento com inteligência, fazendo uma música experimental, sensorial e engajada politicamente, usando a nostalgia não como uma volta à segurança da infância ou a um tempo bom que já passou. A nostalgia é justamente a ligação de uma situação de perigo com mais de 20 anos a outra que está se repetindo agora. Esse é o aviso e a verdadeira sirene que Sirens quer que nós escutemos.

 

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