Kings Of Leon – WALLS (2016)

Menos caipira, mais indie e uma banda renovada

Por Lucas Scaliza

No episódio 02 de nosso podcast, conversamos sobre o que poderíamos esperar do Kings Of Leon em WALLS. Ainda não tínhamos ouvido uma música sequer do novo álbum e nos baseamos inteiramente no teaser liberado pela banda. Entre muitas considerações feitas no programa, apostamos que seria um Kings Of Leon menos caipira, menos rock rural, e mais moderninho e urbano. Não dá para dizer que erramos.

Mesmo quando uma música tenta mostrar as características mais marcantes da banda – como os fills e solinhos de guitarra de Matthew Followill em “Waste A Moment” –, a canção acaba nos remetendo a outras referências que não são exatamente os seis discos já lançados pela família Followill. No caso de “Waste A Moment”, ela chega ao refrão como o U2 chegaria. Já “Reverend” e “Over” mostram a banda realmente explorando um novo horizonte musical. Mas como repreendê-los? Embora diferentes do que a banda nos acostumou a ouvir, “Reverend” tem uma graça que não víamos desde o segundo disco do grupo e “Over” (sobre um episódio de vício em álcool de Caleb, o vocalista) tem um refrão que evoca uma resposta emocional que a banda de Nashville raramente conseguem extrair do ouvinte.

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A explicação para tal mudança na sonoridade é a crise que a banda enfrentou após os fenômenos “Sex On Fire” e “Use Somebody” de Only By The Night (2008), disco que mais vender do quarteto. As vendas de discos caíram vertiginosamente nos lançamentos seguintes – passando de 2 milhões de cópias para menos de 400 mil no ótimo Mechanical Bull (2013). Chegava o momento de repensar os rumos da carreira para ganhar a atenção do público e, quem sabe, não ser mais um refém de “Sex On Fire” nos shows.

Uma das saídas foi romper com o antigo produtor, Angelo Petraglia, e contratar o produtor Markus Dravs, o mesmo responsável pela transição de indie rock para pop do Coldplay, o cara que soube tirar a veia western do Mumfords & Son e os colocar inteiramente no cenário indie para festivais com Wilder Mind (2015) e que também ajuda a polir o som do The Arcade Fire e de Florence + The Machine. Ou seja, é um cara que sabe dar uma cara diferente a uma banda – seja para o bem ou para o mal –, mas que é bem sucedido em fazê-las “funcionar”. Mumford & Sons chegou a um público maior; o Coldplay aumentou a pretensão global de sua música; e o Arcade Fire continuou tendo preocupações mais artísticas. Ficou claro então que o Kings Of Leon queria uma mudança.

WALLS reposiciona a banda, limpando os trejeitos mais sulistas do grupo e tornando-os mais palatáveis para um público de festivais. Tirou do mapa as guitarras incendiárias que achei tão incríveis em Mechanical Bull, mas também saiu da grande zona de preguiça que marcou Come Around Sundown (2010). Não soa como uma banda nova, mas renovada, disposta a apostar em ideias mais frescas. Daí temos a dançante “Around The World” com uma guitarrinha estralada que lembra Cindy Lauper, uma linha de baixo de Jared que é uma delícia, e a mão de Dravs fazendo uma progressão de notas no refrão que é muito parecida com a técnica usada em Reflektor, do Arcade Fire. E temos também “Muchacho” que impressiona por não tentar ser mais do que uma música agradável, passando do melancólico ao simpático com uma suavidade que não é (ou não era) o forte da banda.

Faixas lentas e que costumavam criar um clima etéreo com notas longas de guitarra foram substituídas por baladas mais convencionais, como “Conversation Piece”, em que o teclado de Dravs novamente dá as caras, acompanhando o dedilhado manjado, mas bonito, de Matthew. E “Walls”, que fecha o álbum, é uma das melhores canções já gravadas pela banda. Uma balada levada por violões e percussão que imita as batidas de um coração. Exige paciência do ouvinte. Chega ao final como uma lagarta que se liberta do casulo para se mostrar uma borboleta. Tem a guitarra característica de Matthew e a letra é sobre o fim de um relacionamento, mesmo depois de muita luta para manter o amor vivo. Escolhida como uma dos singles do disco, demonstra certa coragem da banda e confiança no próprio taco.

Além de reposicionar a banda, uma das conquistas de Dravs e do Kings Of Leon foi aumentar a resposta emocional das músicas com um novo jeito de pensá-las e escrevendo letras sobre suas intimidades. Embora seja um disco mais curto do que os antecessores, entretém bastante e a produção não é tão carregada que possa descaracterizar a banda (o sintetizador em “Find Me” quase passa despercebido e “Eyes On You” é perfeita para o quarteto tocar ao vivo). Não abandonam o rock, mas há sacrifícios nesse departamento também.

De certo modo, acabam sendo mais homogeneizados pela necessidade de voltarem a ser relevantes comercialmente. Contudo, mesmo não sendo o mais original possível, WALLS é uma volta digna. Toda a delicadeza que não encontravam mais nos últimos discos, encontraram nas letras mais confessionais, no novo produtor e gravando de novo em Los Angeles, no mesmo lugar em que foram feitos Youth & Young Manhood (2003) e Aha Shake Heartbreak (2004). Uma mudança de ares que fez bem aos Followill.

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