2016 Especial Folk Resenhas Rock

Bob Dylan – Blonde On Blonde (1966) faz 50 anos

Primeiro disco duplo da história do rock fecha a trilogia que trouxe um novo Dylan para o mundo

Por Gabriel Sacramento

O que é

Blonde on Blonde, sétimo álbum de Bob Dylan e o primeiro álbum duplo da história do rock.

História e curiosidades

Em julho de 1965, um jovem cantor de folk americano mudou a cara do estilo para sempre. Ao cantar no Newport Folk Festival com guitarra elétrica e uma banda completa, ele ajudou a iniciar o movimento conhecido como folk rock, que tratava-se da música folk da época mesclada aos elementos roqueiros, como a instrumentação eletrizada. Além da performance, Dylan já tinha lançado um disco de folk rock chamado Bringing It All Back Home em março do mesmo ano e estaria para lançar o icônico Highway 61 Revisited em agosto. Com os dois álbuns, Dylan se afastou da fase trovador solitário de The Freewhelin’ Bob Dylan (1963) e The Times They Are a-Changin’ (1964) e deu início a uma fase mais roqueira.

Depois do lançamento de Highway, Bob começou as gravações de um novo álbum, que se chamaria Blonde on Blonde. Ele começou tentando acertar algumas ideias que ficaram de fora do anterior, com sua banda de apoio nas turnês, The Hawks (futura The Band), em Nova York. Porém as sessões no ano de 1965 não foram nada produtivas, pois nenhum dos takes gravados agradaram o cantor. Ciente da insatisfação do seu cliente, o produtor Bob Johnston – o mesmo do Highway 61 Revisited – sugeriu que eles mudassem para Nashville e tentassem gravar por lá. As gravações em Nashville começaram em fevereiro de 1966 e finalmente deram certo. Al Kooper, organista que já tinha tocado com Dylan no anterior, e Robbie Robertson (guitarrista da The Band) foram os únicos músicos que seguiram com Dylan de Nova York para Nashville. O resto da banda foi composta por instrumentistas famosos da região. Dylan e Kooper compunham inicialmente as canções no piano, e depois o organista ensinaria para os outros músicos.

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Blonde on Blonde foi lançado oficialmente em maio de 66 e complementou a trilogia que figura entre os discos mais conhecidos do cantor. A ideia de Dylan era continuar o som roqueiro mesclando-o com o folk de suas origens. Além de fazer parte da famosa trilogia, o disco também ficaria bastante conhecido por ser o primeiro disco duplo da história do rock. Dylan possuía muitas boas músicas – algumas bem longas – e não queria esperar para lançá-las em discos separados. Embora o som siga a mesma pegada dos dois anteriores, Blonde on Blonde possui suas particularidades, que veremos a seguir.

As canções

A maioria das canções apresenta introdução com a gaita de Dylan (o cantor não era ótimo no instrumento, mas seu jeito singular de tocar acrescentava muito aos arranjos). O instrumento foi bastante enfatizado pelo cantor, talvez até como uma forma de manter balanceado o aspecto folk com a instrumentação rock. “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Absolutely Sweet Marie” são as únicas que não apresentam a gaita na primeira seção. Os arranjos possuem até mesmo solos improvisados do instrumento como em “Pledging My Time”. Além de Dylan, o músico Charlie McCoy também toca gaita no disco.

Chama a atenção a forma inteligente como as canções do repertório foram posicionadas. O disco se mantém empolgante mesclando canções mais blueseiras com semibaladas e as típicas canções no estilo folk rock, diversificando sem manter uma sequência de faixas idênticas. Mesmo sendo um disco duplo e possuindo 14 faixas, ele mantém o ouvinte interessado do início ao fim. A abertura é com a irreverente “Rainy Day Women #12 & 35”, música que caracteriza andamento de marchinha, risadas e sons de conversa ao fundo. O próprio Dylan ri enquanto interpreta. O título da canção foi retirado da bíblia: Livro de Provérbios, capítulo 27, verso 15, verso no qual as três palavras do título aparecem. No entanto, a canção ficou conhecida pela polêmica causada pelo verso “Everybody must get stoned” (um trocadilho entre “ficar chapado” e “ser apedrejado”). Dylan foi acusado de fazer apologia às drogas, mas depois explicou que a letra se referia ao acontecimento no Newport Festival, no qual ele foi “apedrejado” pelas críticas e vaias do público que não gostou de ver o ícone da música folk trocar o violão pela guitarra.

O encerramento é com “Sad Eyed Lady of the Lowlands”, uma canção de 11 minutos com andamento linear e letra que foi dedicada à sua esposa, Sara Lownds, com quem tinha se casado recentemente. Dylan confirmou que a música era para ela quando escreveu “Sara” em 1975, em cuja letra dizia que realmente escreveu “Sad Eyed…” para ela.

A blueseira “Pledging My Time” possui o andamento típico do estilo e a gaita onipresente do Dylan por todo o arranjo (a presença da gaita dá o toque de blues britânico). Também apresenta notas de guitarra estaladas ao fundo. O arranjo é linear, a não ser pela nota de nove segundos sustentada pela gaita, que a diferencia um pouco e gera um aumento na dinâmica. “Visions of Johanna” é uma das grandes obras-primas literárias de Dylan e uma das provas de que Dylan mereceu o recente Nobel de Literatura. Construindo a imagem da personagem Johanna, Bob faz referências a Leonardo Da Vinci, misturando o clássico com o comum em uma escrita complexa e bem elaborada. “I Want You” é mais uma das composições surrealistas de Dylan, com referências implícitas aos contemporâneos Brian Jones – dos Stones – e Edie Sedgwick (atriz com quem ele havia se relacionado antes de se casar secretamente com Sara Lownds). Musicalmente, possui um andamento mais animado, com Bob colocando bem sua voz dentro do ritmo.

A semibalada “One of Us Must Know (Sooner or Later)” cresce no refrão e possui uma guitarra limpa no acompanhamento dos vocais. A mesma guitarra, desta vez com um timbre mais agudo e um pouco distorcido, domina o arranjo na blueseira “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, que apresenta um lamento sobre frustação amorosa e dinheiro. Al Kooper e seu órgão faz um trabalho excelente no álbum, sobretudo na já citada “One of Us Must Know” e em “Absolutely Sweet Marie”.

Abordando a vulnerabilidade feminina, “Just Like a Woman” é, talvez, a balada mais famosa de Dylan. Existiram rumores de que ele estivesse se referindo à Edie Sedgwick novamente. A canção também foi duramente criticada por apresentar um tom misógino.

Legado

O disco é considerado um dos melhores de todos os tempos, segundo uma lista da Rolling Stone (inclusive, uma das influências para o nome da revista foi a música “Like a Rolling Stone”, de Dylan). Além disso, Blonde on Blonde é classificado como um dos discos seminais do cantor pelos fãs. No site que ranqueia discos baseado na opiniões dos internautas – o Best Ever Albums –, Blonde on Blonde só perde para o Highway 61 Revisited e aparece em diversas listas de melhores discos de todos os tempos e dos anos 60.

É também um disco usado para classificar o cantor como um dos grandes letristas do rock. O surrealismo e a mistura do comum com o inovador foram os principais fatores que consagraram Dylan neste álbum. O cantor fugia das letras politizadas, pois estava cansado de ser cultuado como a voz de uma geração e começou a experimentar ideias diferentes, influenciado ainda mais pela poesia beat.

Na época dos Rolling Stones e dos Beatles, Bob tinha que se manter relevante com o próprio estilo. A trilogia ajudou e influenciou muita gente. Nina Simone, Mick Jagger, Jeff Buckley, Van Morrison, Bruce Springsteen e o Grateful Dead são alguns dos artistas e bandas que prestaram tributo a Blonde on Blonde, reconhecendo a importância das canções para eles. Outro exemplo foi o guitarrista/vocalista britânico Ralph Denyer, que nomeou sua banda de rock psicodélico com o mesmo nome do álbum.

Após Blonde on Blonde, tivemos grandes álbuns duplos na história da música: The Wall (1979) do Pink Floyd, Physical Graffiti (1975) do Led Zeppelin, o White Album (1968) dos Beatles, Exile On Main Street (1972) dos Stones e Goodbye Yellow Brick Road (1973) do Elton John são alguns deles. Dylan criou uma nova forma de lançar canções em álbuns, pensando-os mais como um conjunto coeso e não como um conjunto de singles esparsos, assim como inovou com os onze minutos de duração de “Sad Eyed Lady of the Lowlands”.

Blonde on Blonde fechou o ciclo dos discos de rock mais importantes da carreira do Bob Dylan. Era a conclusão da sua mensagem ao mundo, dividida em três partes, que anunciava um novo momento para o rock mundial. Para a galera do folk, um traidor; para os roqueiros, um novo herói. E para os loucos que curtiram a mistura de folk com rock, o grande líder. Dylan dividia opiniões enquanto avançava para se eternizar como um ícone da música.

1966-6FB The Saturday Evening Post-Bob Dylan: 1966-6FB-005 July 30, USA 1966
1966-6FB The Saturday Evening Post-Bob Dylan: 1966-6FB-005 July 30, USA 1966

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