2016 Metal Resenhas

Epica – The Holographic Principle (2016)

Após mais uma sinfonia metaleira, sobra tempo para a banda mostrar seu lado folclórico

Por Lucas Scaliza

Chamar o estilo da banda Epica de “metal sinfônico” é uma forma de ressaltar seu traço mais característico (a presença de uma orquestra) e de tentar abarcar uma grande quantidade de gêneros metaleiros que são mesclados em seu som. Não é nada diferente em The Holographic Principle, o sétimo disco de estúdio dos holandeses e um de seus discos mais longos e mais intensos.

A introdução “Eidola” tem um feeling mais cinematográfico do que qualquer coisa que a banda já gravou anteriormente e, dada a temática do disco, achei que teríamos uma obra que enfim se libertaria do renascentismo europeu e soaria mais futurista, inovando dentro do que se chama metal sinfônico na Europa (você já reparou que todas as bandas fazem referência a músicas de séculos passados com a parte sinfônica?). Mas não é bem isso que ouvimos. Epica não se distancia muito do que já mostrou anteriormente e quase todas as músicas são bastante aceleradas e misturam uma abordagem metaleira bem eclética (melódico, power, thrash e algumas pitadas de progressivo).

epica_2016

A banda está afiadíssima, principalmente o guitarrista base Mark Jansen e o baterista Ariën van Weesenbeek, que fazem um ótimo trabalho conduzindo a dinâmica das canções ao longo do disco todo. Weesenbeek faz bastante batidas retilíneas, o que é o piloto automático da banda já faz anos, mas quando permitem que ele crie linhas mais criativas, faz viradas e síncopes dignas de um grande nome do metal. Sua performance em “Universal Death Squad” é particularmente boa pela variedade de dinâmica. Com Jansen ocorre a mesma coisa: embora faça diversas bases padrão, é com a variação no andamento das músicas que consegue propor passagens que façam as guitarras ganharem destaque no álbum, como mostra “A Phantasmatic Parade” e “The Cosmic Algorithm”. Mas o que acho mais salutar no trabalho de Jansen dessa vez é conseguir usar as guitarras para trazer o metal para a atualidade e não deixar que o som do Epica restrinja-se somente ao que é imposto pela parte mais sinfônica.

A banda trata The Holographic Principle como seu álbum mais pretensioso. Seja a ideia por trás do disco – de que o nosso mundo não passa de um holograma criado digitalmente (Matrix manda abraços) – ou pela presença de músicos reais de orquestra, e não mais samples, teclados ou sintetizadores fazendo as vezes de uma orquestra. O trabalho com a orquestra e com o coral de vozes ajuda a aumentar ainda mais a dinâmica das faixas, fazendo com que em muitos momentos o álbum soe alto e ansioso demais. A presença da orquestra e do coral é sentida do começo ao fim do trabalho e realmente faz a diferença em faixas como “Once Upon A Nightmare”, “Ascension”, “Dancing In a Hurricane” e “The Holographic Principle”. Porém, em várias outras faixas, a presença das cordas não difere muito do que o competente tecladista da banda, Coen Janssen, já mostrou conseguir emular com suas teclas. E em diversos momentos, a orquestra segue os acordes e lead da guitarra, diminuindo a sofisticação com que poderiam pensar a união dos dois universos, mas nada que atrapalhe a experiência do headbanger fã de metal sinfônico.

A alternância entre três tipos de vozes também é algo que pesa a favor da Epica. Simone Simons mais uma vez nos entrega uma voz bela e emocional, que vai do suave até lírico operístico. Na contramão, Jansen contribui com vocais guturais e não é pouco não. Em alguns momentos ele rouba a cena, nos levando para o lado mais sombrio e agressivo da história de mentiras e ilusões que o álbum nos conta, como em “Tear Down The Walls”. E há também os corais de vozes masculinas e femininas que imitam os cantos gregorianos de outrora. Esses corais não estão apenas sempre enfeitando os arranjos, como em “Edge Of The Blade”. Eles ganham proeminência e são encarados como um elemento importante de The Holographic Principle em faixas como “Divide And Conquer”, “Beyond The Matrix” e a faixa-título. Sempre bastante dramáticos, os corais fazem o som da Epica parecer uma versão metaleira da trilha sonora de O Senhor Dos Anéis, ou então uma versão holandesa do Blind Guardian.

Mas se nas 12 primeiras faixas a banda está épica como manda o figurino, destaco as seis faixas seguintes como o momento mais especial do álbum, tirando o grupo de seu som tradicional e levando-o a paragens mais folclóricas. Com violões, estalos de dedos e baixo acústico, “Beyond The Good, The Bad and The Ugly” é tão cativante quanto qualquer outra faixa do disco. “Dancing In a Gypsy Camp” nos coloca numa roda cigana conduzida pelo violino da Europa mais popular; a versão acústica de “Immortal Melancholy” é um dos raros momentos em que a banda se permite ser triste de verdade. “The Funky Algorithm” nos dá uma visão única da Epica como uma banda aberta para uma sonoridade mais dançante e divertida, ainda que o vocal de Simons seja “clássico” demais para um funk. E “Universal Love Squad” traz a sensibilidade que ressalta as qualidades da composição que camadas e mais camadas de guitarras e orquestração acabam escondendo na gravação metaleira.

São todas faixas que trazem uma versão mais leve de faixas anteriormente apresentadas. Apesar de ser um álbum legal, o estilão da banda não é tão diverso assim de qualquer outro trabalho que Epica tenha lançado. Por isso, para qualquer fã da banda e de música, essas últimas faixas são essenciais para se descobrir um novo lado de Simones, Jansen e cia.

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1 comentário em “Epica – The Holographic Principle (2016)

  1. ´Li várias resenhas sobre o álbum e tu disseste uma coisa que quase nenhum outro autor falou: as faixas finais. São tão diferentes e dão um ar de novos ares pra banda que é bem incrível. Claro, não desmerecendo a maestria das musicais “originais”

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