2016 Folk Pop Resenhas

Lady Gaga – Joanne (2016)

A Lady Gaga de Joanne é a Gaga que se despe dos excessos

Por Lucas Scaliza

Houve um tempo em que cada passo de Lady Gaga virava notícia. Parecia que tínhamos uma nova rainha no pop, mesmo sem termos deposto a rainha anterior. Mas como o show business é cheio de traições e tem certa ojeriza pela ousadia musical (ouse o quanto quiser nas roupas, não vista nada ou cubra-se com carne, mas não faça música difícil de engolir), Gaga foi jogada de escanteio após Artpop (2013) não render o que ela almejava.

Aos poucos, Gaga voltou aos holofotes e ao centro do pop, um passo de cada vez. Seu bom álbum de jazz, Cheek To Cheek (2014), com Tony Bennet, passou batido pelos fãs de outrora, mas chamou a atenção de quem queria mais sua voz e a interpretação madura do que figurinos e danças escalafobéticas. Participou também da quinta temporada da série American Horror Story e ganhou um prêmio – muito merecido! – por sua interpretação. Sem falar em aparição no Oscar 2016 interpretando sua música “Til It Happens To You” e fazendo um tributo de cair o queixo à The Sound Of Music.

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Foto: Collier Schorr/Billboard

O que ela aprendeu é que às vezes é interessante dar um passo para trás para poder dar dois para a frente. Joanne, seu novo disco solo e sexto da carreira, é o mais convencional e o que aposta em um estilo de composição bastante clássico e padronizado. Antes, ela tinha poder pop aliado às bizarrices de clipes, figurinos e shows em The Fame Monster (2009) e Born This Way (2011). O lado musical forçou a barra e atingiu pretensões muito maiores em Artpop, mas ela acabou ficando complicada demais para seu público, artsy demais para quem queria apenas uma Gaga para se divertir, não para observar na sala de casa como se fosse uma instalação artística contemporânea.

Joanne afasta tudo isso de Gaga e deixa apenas sua bela voz e uma produção mais orgânica e muito fácil para qualquer um apreciar. Sua performance está longe de ser ousada, mas ela interpreta muito bem cada uma das canções. É um disco mais curto que os anteriores também, mas isso é bom, pois acaba destacando cada faixa em seu próprio universo. Interessante notar como Joanne é sensato em sua produção. Muito diferente de Artpop e Born This Way, o time de produtores que acompanham a cantora – Mark Ronson (que fez o melhor disco da Amy Winehouse), Kevin Parker (do Tame Impala) e BloodPop (que produziu sucessos lá do 2º disco) – souberam extrair o melhor dela sem que fosse necessário preencher o álbum com músicas cheias de som. Isso acaba até nos pegando de surpresa, pois músicas como “Angel Down”, a folk “Joanne” e a balada “Million Reasons” são quase espartanas: usam apenas os elementos necessários e todos com muita sabedoria, sem em nenhum momento pender para o exagero ou para a superprodução.

A Lady Gaga de Joanne é a Gaga que se despe dos excessos, afinal.

“Hey Girl”, com participação de Florence Welch, do Florence + The Machine, é uma típica produção de Mark Ronson, prezando pelo passo comedido e apostando na interação melódica das duas vozes – que funcionam maravilhosamente bem juntas. “Sinner’s Prayer”, com uma veia mais western, é outro dos bons momentos do disco e a composição tem a mão de Father John Misty. Nada de bate-estaca e nem de sintetizadores oitentistas. É um pop-country com violão, dedilhado e direito a subir o tom no refrão final. “John Wayne” – música sobre se relacionar com homens mesmo sabendo que os John Waynes da vida são uma cilada – também não se entrega à ansiedade e mantém um andamento médio totalmente ditado pelo baixo. A guitarra de Josh Homme (Queens Of The Stone Age e Eagles Of Death Metal) também dá as caras aqui e faz um solo bastante processado por pedais e filtros digitais.

“Dancin’ In Circles” também não é apressada. Para uma artista que fazia as pistas e até prezava por uma certa pressão no ritmo, Gaga está mostrando que a música importa mais dessa vez. Embora não seja uma escolha óbvia para esta finalidade, “Dancin’ In Circles” tem o poder de fazer seu corpo mexer com seu ritmo caliente. Beck, aquele cantor indie, é um dos compositores da faixa. E então temos “Perfect Illusion”, que é a faixa mais cheia de som e mais ansiosa de Joanne, a música que denunciou a referência à Madonna dos anos 80 que, de certa forma, está presente em Joanne como um todo. É também a única faixa em que Parker participa como compositor e coprodutor. “Diamond Heart” também está entre as faixas poderosas do álbum e com produção mais sintética (além de mais uma participação da guitarra de Homme). Mesmo assim, ela conseguiu não transformar a faixa em um pastiche e entrega uma performance vocal bastante vistosa. “A-YO” é divertida e confia totalmente em suas batidas, no baixo e nos sopros do refrão, além de mais uma guitarrinha excêntrica para completar o arranjo. Ou seja, tem Mark Ronson pra caramba na música.

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“Come To Mama”, também composta em parte por Father John Misty, é uma das canções com jeitinho mais retrô de Joanne e, apesar de ser bastante convencional, é um dos momentos em que fica claro como Gaga pode, se quiser, transformar coisas simples em extraordinárias. Uma música que desce fácil, quase cafona, mas que é um hino à união do público LGBT, público este que é muito importante para Gaga e sempre a apoiou. Se ela queria apostar em classic songwriting, conseguiu.

Para ser bem claro e bem sincero, Joanne é uma mudança de rumos que Lady Gaga precisava não para se provar ou para continuar a fazer coisas diferentes. É o que ela precisava para conquistar novamente o público. O grande problema de Artpop, sua derrapada, foi achar que o público entenderia sua pretensão artística quando, claramente, queriam apenas algo que conversasse com eles sem forçar a barra. Afinal, por mais que estimem as qualidades e ousadias de Gaga, seu público não espera (e nem quer) que ela vire um Greatful Dead ou lance seu equivalente de Pet Sounds, dos Beach Boys. Por isso, Joanne é seu disco mais simples, mais despojado, menos pretensioso e que agrada uma larga faixa de público sem nunca, em nenhuma de suas 11 faixas, exigir grande esforço do ouvinte.

A certeza que o álbum nos traz é que Gaga não é um talento passageiro, nem mais uma voz qualquer no pop. Ela só precisa saber maneirar. E Mark Ronson, que fez Amy Winehouse ser celebrada e continuará a ser lembrada após sua morte, vai se confirmando como um produtor dotado de bom senso e visão musical comercial suficiente para por nos eixos mais uma carreira. Ele merece os créditos pelo que Joanne tem de interessante e de cafona, tanto quanto Stefani Joanne Angelina Germanotta.

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1 comentário em “Lady Gaga – Joanne (2016)

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