2016 Rap/Hip-Hop Resenhas

Sabotage – Sabotage (2016)

Dos rascunhos deixados por Sabotage, nasce um dos discos de rap mais legais de 2016

Por Lucas Scaliza

Em janeiro de 2003, Mauro Mateus dos Santos foi assassinado com quatro tiros nas costas. Ele já tinha sido assaltante, gerente do tráfico e até passou pela antiga FEBEM, tendo se metido em inúmeras confusões na favela do Canão e arredores (zona sul de São Paulo). Se não morreu antes, foi por sorte; ou por destreza; e se você gosta de uma visão mais metafísica dos fatos, pode acreditar que foi destino, pois Mauro Mateus – o Sabotage – virou um influente rapper paulistano que influenciou 90% dos rappers que surgiram após lançar seu primeiro EP em 1997 e o disco completo Rap É Compromisso (2001) e a trilha sonora do filme O Invasor (2002).

Sem prévio aviso, um disco póstumo do rapper foi colocado a disposição de todos no Spotify. Sabotage, tanto um canto do cisne quanto uma homenagem ao compositor, contém seis faixas que Sabotage estava realmente produzindo para um futuro EP e mais cinco faixas caseiras que em que o músico estava trabalhando quando podia e não fazia ideia ainda do que aconteceria com elas e nem se seriam lançadas ou como. Algumas dessas faixas caseiras chegaram a cair na rede anos atrás com qualidade sofrível, mas agora foram terminadas, editadas e bem produzidas.

Rap É Compromisso é um clássico tão reverenciado do rap nacional – comparado com os mais significativos álbuns dos Racionais e Pavilhão 9 – que fica difícil olhar para um disco póstumo que Sabotage deixou pela metade. Essas novas músicas representariam o rapper?  Zona Sul? São Paulo e o Brasil? Teria toda a malandragem que se espera do rimador e ator de cabelo espetado que já era lenda ainda vivo?

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Como crítico musical, afirmo, sem medo de errar e de levar pedrada de qualquer purista que esteja lendo este texto, que algumas das melhores faixas já feitas por Sabotage (ou pelo menos inicialmente idealizadas por ele) estão em Sabotage. E como observador da cena musical, não há como não levar em conta que o disco foi todo produzido por mãos carinhosas que enxergam e vivem o legado de Sabotage. Daniel Ganjaman (parceiro de Criolo), Rica Amabis e Tejo Damasceno (dupla do Instituto) foram os grandes responsáveis por reunir o material, atravessar com paciência toda a burocracia envolvida no processo (que inclui a aprovação de herdeiros do rapper) e reunir um grande número de artistas para completar as lacunas deixadas por Sabotage.

O mais importante é que Sabotage não é palco para novos nomes da cena ou oportunistas. Ganjaman e Instituto garantem que só quem já tinha trabalhado com o Maestro do Canão teve espaço no disco. Uma forma de não descaracterizar a obra e nem o ethos da música deixada por ele. Tropkillaz, DJ Nuts, Negra Li, DJ Cia, Mr Bomba, Fernandinho Beat Box, Quincas, Rappin’ Hood, Funk Buia, Bnegão, Rodrigo Brandão, Lakers, DBS e Sandrão, além de Ganjaman e Instituto, estão divididos entre as 11 faixas. Os únicos que não chegaram a trabalhar com Sabota e estão no disco foram Dexter e o norte-americano Shyheim, do Wu-Tang Clan.

Primeiro: não há absolutamente nenhuma música que seja apelas uma filler no álbum. Todas são únicas e expandem a musicalidade do rapper para além do que já havia mostrado em Rap É Compromisso. Mesmo as faixas mais rústicas encontradas pelos produtores foram trabalhadas par que ganhassem corpo e alma. Segundo: a fluidez dos versos de Sabotage, o jeitão contestador, contador de histórias e até seu lado mais leve estão presentes. É quase como se ele não tivesse morrido. Terceiro: músicas como “Canão Foi Tão Bom” e “Maloca É Maré” são sofisticadas e estão entre as melhores faixas do rap nacional de 2016, quiçá da carreira de Sabotage. A primeira é uma reflexão sobre a favela em que o compositor viveu. A produção, com senso de suspense e backing vocals que se aproximam do soul, é primorosa. Já a segunda citada mistura o funk dos anos 70 e samba ao hip hop e entrega um balanço divertido. Assistiu ao seriado The Get Down? Então cai pra de “Maloca é Maré” sem demora.

Com sopros sintéticos e tensos, “Mosquito” abre o disco impondo moral. “Depois que o homem inventou o revólver, todos corremos perigo” e “Onde o preto é bandido/ o playboy é bandido/ queima índio/ esbanja o prazer” já chega denunciando mazelas da sociedade e levanta o dedo na cara de uma Justiça que parece incompleta. “Superar” quebra o tom sisudo da anterior e mostra mais balanço e até uma guitarra fazendo riffs de funk com distorção cremosa. “País da Fome: Homens Animais” deixa o rap seguir em primeiro plano enquanto o veste de harmonias lindas com samples de violinos, slides de guitarra e até fills de violão de aço. A sensibilidade musical dessa faixa, que fala sobre o irmão e a mãe de Sabotage, comprova que a qualidade das bases do hip hop nacional não devem nada ao rap de nenhum lugar do mundo.

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“Respeito É Lei” é também uma ode ao Brooklyn paulistano e mais um exemplo de produção sensata. Instituto, Ganjaman e demais responsáveis pelo álbum não reinventam a forma de fazer rap, deixando todas as faixas bastante acessíveis, mas cuidam para que nenhuma base soe descartável. E quando resolvem que os loopings de batidas e baixo precisam de um plus, fazem com muito jeito. Em “Quem Viver Verá”, por exemplo, a música fica em estado de suspense, esperando a hora de se resolver, o que nunca acontece. E aí os sintetizadores e uma guitarrinha funk complementam os arranjos surgindo como detalhes que fazem toda a diferença.

Toda a voz que de Sabotage que ouvimos no álbum estava gravada originalmente como voz guia, aquela que geralmente se grava para ter uma ideia de como a melodia vai se encaixar nas batidas e na produção. Nada do que o rapper deixou era definitivo. Ou seja: o que os produtores tinham em mão eram rascunhos das canções. Impossível dizer o que é que cada uma dessas faixas se tornaria. Contudo, o exercício de imaginação é válido. Usaram a tecnologia dos estúdios para transformar a voz dele em material de qualidade e não pensaram no rap como em 2003. Quase 14 anos após sua morte, é totalmente razoável pensar que Sabotage faria música com produção mais moderna. Rap É Compromisso já era bastante moderno para a época. A maior diferença entre os dois é o tom. Rap É Compromisso é muito mais sério e tenso, mais duro na mensagem. Sabotage é mais flexível, divertido e mais diurno (algo que “O Gatilho” e o balanço de “Sai da Frente” simbolizam muito bem).

Sabotage é um excelente disco de rap. Diverso, comovente em alguns aspectos, ameaçador em outros. Mas é boa música feita de um quebra-cabeças: você enxerga e ouve o Sabotage em boa parte do trabalho, mas também entende que é uma colagem de peças de um pessoal que pensou no rapper, sim, mas também pensa no rap. Mas quem disse que o Maesto de Canão não faria algo com seu nome que não fosse para desenvolver o estilo?

 

3 comentários em “Sabotage – Sabotage (2016)

  1. Olá, pessoal do Escuta Essa!. Li e gostei muito dessa resenha crítica. Desejo sucesso na caminhada de vocês e mando um alô especial do Raplogia!

    Grande abraço.

  2. Pingback: Rael – Coisas Do Meu Imaginário (2016) | Escuta Essa!

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