2016 Metal Resenhas

Avenged Sevenfold – The Stage (2016)

Ciência, tecnologia e metal aliados para o melhor disco da banda

Por Gabriel Sacramento

Uma das bandas mais amadas – e odiadas, ao mesmo tempo – do cenário rock/metal moderno. O Avenged Sevenfold, conhecido pelos fãs como A7X, lança seu novo disco, The Stage, e nos faz perceber como amadureceram com o tempo.

A carreira dos californianos é marcada por uma irregularidade que os perseguiu como uma pedra no sapato. O início era mais brutal, gritado. De repente, resolveram mudar para um som mais virtuoso, melódico, técnico e um tanto exagerado, que acabou desagradando muitos fãs. Nightmare (2010) e Hail To The King (2013) foram os melhores até agora e souberam passar o que eles queriam, sem excesso de virtuosismo, nem de peso.

Para o novo disco, convidaram o ex-baterista do Bad Religion, Brooks Wackerman. É o terceiro baterista diferente convido após a morte do baterista original, James “The Rev” Sullivan em 2009. Um deles foi o famoso Mike Portnoy (ex-Dream Theater, The Winery Dogs) no disco de 2010.

avenged_sevenfold_2016

The Stage demonstra um amadurecimento da banda em alguns quesitos: 1) Conseguiram trabalhar arranjos mais bem elaborados, progressivos, mas sem exagero de virtuosismo, como fizeram no chatíssimo City of Evil, de 2005; 2) Conseguiram trabalhar variações de dinâmica de forma bem inteligente; 3) Entregaram power balads bonitas, que além de serem expressões mais sentimentais, exploram climas diferentes e não soam comuns; 4) Há um storytelling que circunda as faixas, conectando uma a outra, como em um álbum conceitual; e 5) Conseguiram trabalhar climas mais épicos e sombrios na musicalidade de uma forma bem interessante.

Quando liberaram a primeira música, a faixa-título do álbum, o Avenged Sevenfold nos deixou curiosos sobre o que estava por vir. É mais uma das canções longas do grupo, com quase oito minutos, e possui uma dinâmica interessante, bem como um refrão melódico mas não tão piegas como alguns outros refrãos já apresentados pela banda. Acertaram a mão nos riffs também e ainda há um interlúdio bem interessante, com uma guitarra limpa dedilhada dialogando com outra guitarra harmônica. “The Stage” funciona como abertura e carro-chefe do trabalho, mas há outros destaques.

“Sunny Disposition” evoca um pouco do que havia de sombrio em Nightmare com cerca de seis minutos com muito progressivo – incluindo aí solos de sopro, mostrando que o A7X consegue pensar fora da caixa. “Angels” é a melhor faixa do álbum. Guitarra relativamente limpa, vocal mais limpo, andamento mais lento e melodias que tendem ao belo, mas com muita classe. “Roman Sky” é outra mais calma e bem marcante, com dedilhados sem distorção pesada. Dá pra apostar que pensaram em Opeth nestas duas últimas citadas. “Simulation” é outro bom exemplo que deixa claro a influência do progressivo. Começa calma como “Angels”, mas se desenvolve com uma dinâmica incrível, alternando o brutal e a intensidade mais moderada. Já “God Damn” e “Creating God” são marcadas por um peso desmedido nos versos e refrãos melódicos.

As letras e o conceito de The Stage foram influenciados pela tecnologia artificial. Em uma entrevista recente, o vocalista M. Shadows deixou claro que ultimamente tem se interessado muito pelo tema e seu objetivo com o álbum é educar os ouvintes acerca da presença dos robôs entre nós. Em uma época de desenvolvimento dessa área de estudo, com discussões abertas e criações audiovisuais que exploram o tema com profundidade – como Westworld da HBO –, utilizar-se desse pano de fundo para composições é pertinente. Percebemos essa temática em faixas como “Creating God”, que fala sobre a possibilidade real de se produzirem robôs mais inteligentes e capazes, que podem se tornar os deuses dos homens. Temos muito de ciência também, como em “Paradigm”, sobre nanotecnologia e como ela pode fazer os homens viverem para sempre. Conseguiram até mesmo a parceria do astrofísico Neil deGrasse Tyson – um dos cientistas mais famosos da atualidade – para a faixa “Exist”, que fala sobre o Big Bang.

The Stage é o melhor esforço da banda até agora, apresentando muito bem um conceito forte e pertinente, amarrando toda a intenção instrumental a ele. Temos muitos solos, arpejos rápidos, virtuosismo técnico, mas tudo dosado e cooperando com a proposta: em muitos momentos de “Exist”, por exemplo, a profusão de notas de guitarra e bateria ajudam a criar o clima caótico da faixa, já que pensaram em recriar o início do universo com a explosão cósmica de uma forma musical e a complexidade da canção funciona bem com esse intuito. Assim como em muitos momentos quando eles utilizam muitas notas e técnica mais apurada, temos a impressão de que esses elementos ajudam a criar a ideia do caos e desordem típicos de um som agressivo – e que se conecta com o caos proposto pelo conceito temático – e não somente a impressão de exibicionismo.

Aliando ciência, tecnologia e metal, eles conseguiram produzir um dos lançamentos mais interessantes do ano. Vale a pena deixar o preconceito de lado e imergir no que os caras fizeram. Depois dos dois últimos, que foram ótimos, eles confirmam a boa fase com The Stage, ressaltando que estão em uma evolução artística admirável.

avenged_sevenfold_crop

Anúncios

4 comentários em “Avenged Sevenfold – The Stage (2016)

  1. Bela resenha. Porém, elogiar Hail To The King e dizer que City of Evil é chato, é estranho. Já que o City é tido como o melhor disco da banda, por muitos fãs, enquanto o Hail To The King mesmo sendo um bom registro, é repleto de cópias de canções clássicas dos anos 80/90. Parabéns pelo blog aí!

    • Olá, Elkjaer. Obrigado pelo comentário e pelo elogio. Veja bem, elogiei o Hail to The King por ser um disco em que souberam moderar a questão da técnica e do virtuosismo. Já que no City of Evil, eles soam exageradamente técnicos. Nesse sentido, há uma evolução de um disco para outro.

      PS: Acredito que o City of Evil seja aclamado por ser o primeiro disco mais com a cara deles mesmo (mais original) e que acabou virando referência para os próximos.

  2. Hail to The King, para mim, que ouço desde 2005, é o pior álbum da banda! Melhor fica entre City of Evil e Walking the Fallen. Esse novo album a bateria se aproximou um pouco do q era com o The Rev então eu curti. O dono do blog deveria rever seus conceitos. Porém tirando essa parte, a analise foi muito boa!

    • Concordo com vc, o City of Evil não é só aclamado pela crítica não, ele é realmente tido pelos FÃS como o melhor álbum do Avenged, tanto que várias das músicas mais consagradas da banda saíram dele, faltou uma análise bem fria do nosso querido autor.
      Só pra exemplificar, Blinded in Chains, Bat Country, Seize the Day, Beast and the Harlot, M.I.A e o cidadão vem me falar isso. E se vc pegar essas músicas aí praticamente todas estão entre as mais preferidas da banda de todas. Reveja seus conceitos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: