Alicia Keys – Here (2016)

Disco novo mantém seu legado vivo e pulsante

Por Gabriel Sacramento

Quatro anos se passaram desde que Alicia Keys lançou Girl on Fire. Até então, sua única contribuição para a indústria da música nesta década, com o qual emplacou o hit que leva o nome do álbum e que tocou horrores. Na época era recém-casada e mãe de primeira viagem, experiências que influenciaram a cantora no processo de composição de um ótimo disco e que apresenta seu jeito típico de fazer música.

Importante considerar que Alicia possui um legado importante dentro do cenário R&B e soul. Sua influência para novos artistas, principalmente mulheres, é inegável. Além de ter seus discos premiados por diversas revistas especializadas, Alicia possui um diferencial: ela toca piano nos discos e sempre fez questão de prezar por uma imagem mais “urbana”.

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Em junho, ela declarou que deixaria de usar produtos cosméticos, buscando realçar a sua beleza e seu jeito de ser natural, indo na contramão da imagem de “diva pop superproduzida”. Se a imagem para muitas/muitos é motivo para angariar lucros em detrimento da música, no caso de Alicia é diferente: imagem é imagem e música é música. A mudança na estética acabou orientando uma mudança em sua visão de mundo, que acabou influenciando o novo disco, Here.

Seu novo disco só confirma o quanto sua carreira tem dado certo e o quão bem Alicia sabe impor seu som simples e marcante. Sem aludir a modismos baratos, Keys soa acessível o bastante sem prejudicar a sua identidade sonora, sendo direta e clara nas referências que a norteiam. O disco também tem menos gente envolvida na produção do que o último: a própria Alicia e o marido Swizz Beatz como executivos e Mark Batson, Jimmy Napes e Llangelo como produtores.

Em Here, seu piano continua aparecendo em momentos estratégicos e bem pensados. Seja em uma mistura sensacional de R&B com um arranjo mais complexo das teclas em “Where Do We Begin Now” ou carregando a semibalada “Hallelujah”. Já o violão chama a atenção em faixas como “Blended Family (What do You Do For Love)” – que tem participação do rapper A$ap Rocky – e em “Kill Your Mama”.

Alicia sempre foi uma ótima cantora e ela sempre sabe aproveitar bem seu timbre, potência e desenvoltura vocal. Dessa vez, ela experimenta momentos mais viscerais como em “Illusion Bliss”, com uma entrega dotada de uma paixão incrível, e momentos mais “rapeados” como em “The Gospel”. Vale lembrar que quando ela faz harmonias e vocais dobrados, como em “She Don’t Really Care_1 Luv”, também acerta em cheio.

Temos vários elementos e sacadas diferentes que fazem Here valer a pena. Mesmo sendo longo – 16 faixas –, Alicia não se restringe a receitinhas, buscando explorar a própria criatividade para entregar algo realmente convincente. Vai do R&B e soul ao pop com naturalidade. Se vale de bases simples, dando destaque a poucos instrumentos, e trabalha bem seus vocais. Sua música é acessível, feita para tocar muito e fazer bastante sucesso, mas longe de ser clichê. Here é exemplo de um disco que soa bem pop, mas não superproduzido. É perceptível que ela, como produtora executiva, comanda o direcionamento do trabalho. Não é como alguns discos que vemos por aí, em que os artistas são meras marionetes dos produtores).

O disco possui alguns interlúdios que reforçam o sentido das letras. A cantora explicou que o nome do álbum (“aqui”, em português) se refere a um “lugar onde ela quer ver quem realmente é no espelho e enxergar o que nos tornamos no mundo em que vivemos”. Destaco a interessante letra de “Holy War”, um dos singles do álbum, que explora o contraste entre amor e guerra. Na primeira parte, a cantora apresenta consequências do mundo dominado pelas guerras – desunião, preconceito e segregação –, onde o sexo (encarado aqui como demonstração de amor) é tido como obsceno e os conflitos entre os humanos, tido como sagrado. Na segunda parte, ela fala sobre se o contrário acontecesse – se o mundo fosse dominado pelo amor e a guerra fosse tida como obscena. Isso resultaria em mundo melhor e com melhores relações entre as pessoas. Ambas as partes são encerradas pelo refrão convidativo, em que Alicia aumenta a voz para cantar: “Talvez devêssemos amar alguém/ Talvez pudéssemos nos importar um pouco mais ao invés de polir bombas de uma guerra santa”.

Se apenas recentemente a cantora decidiu abrir mão da maquiagem e passou a valorizar ainda mais sua beleza natural e quem ela realmente é, em sua música ela tem feito isso há muito tempo. Talvez aí esteja o motivo do seu sucesso. Seja por não abrir mão dessa imagem urbana ou por optar por uma música simples e sem excessos. Como já disse, o seu legado no R&B mundial é indiscutível. E com discos como Here, ela se mostra disposta a manter esse legado vivo e pulsante.

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