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Liniker e os Caramelows – Remonta (2016)

Em uma grande micareta cósmica de estilos musicais, Liniker vai de Prince à MPB progressiva

Por Lucas Scaliza

Não diria que há experimentalismo em Remonta. O que parece que Liniker e os Caramelows fazem é procurar uma expressão, uma voz, um jeito de ser e, não sendo nem uma coisa e nem outra, Remonta são várias coisas ao mesmo tempo. É uma confusão, mas assim como o filme 2046 de Wong Kar-Wai, é uma confusão linda de se ouvir.

Aos 21 anos, Liniker – um(a) cantor(a) e compositor(a) de Araraquara, interior de SP – vem embalando uma geração de universitários e de pessoas interessados no lado mais indie e inventivo e desconstruído da música popular brasileira. Batom e saia, brincos e bigode, uma voz que claramente é de homem, mas com uma interpretação que estamos mais acostumados a ouvir de mulheres. São elementos que instigam a curiosidade e realçam o lado andrógino de Liniker.

liniker_2016

Remonta, o primeiro disco dele/dela com os Caramelows, é um grande festival de estilos, fruto de uma ruminação musical de 5 anos. Tim Maia, Móveis Coloniais de Acaju, percussão afro, rock, soul, Amy Winehouse e clima de micareta são algumas das lembranças que vêm à mente ao ouvir o disco, rico em textura, diversão, drama e sensualidade. A faixa-título, “Remonta”, é um aviso sobre como a música de Liniker paga tributo à MPB dos anos 70 e 80 e faz uma espécie de MPB progressiva. O andamento muda, o drama vira balada, que passa por um interlúdio mais nordestino com arranjos de sopro e chega a um clímax levando a canção para outro caminho enquanto brada que não quer mais “saber de desamor”.

O mesmo ocorre com “Caeu” que, embora tenha uma levada mais padronizada (e uma linha de baixo deliciosa), também envereda por passagens mais jazzísticas e atmosféricas antes de seguir um crescendo que segue até o final da canção. Lina X, que começa com um animado axé indie (você realmente consegue ouvir a música e se imaginar num carnaval) – vai se transmutando em coisas diferentes, como uma passagem instrumental meio surf rock, meio western, só para depois cair em uma valsa triste que pouco lembra o início da canção. “Louisie du Brésil” passa um bom tempo como um funk que poderia estar na trilha de The Get Down, mas da metade para lá vira algo denso, lento e dramático. E aí você se pergunta: “Eu tô ouvindo MPB ou a porra duma versão do King Crimson?”

Essa recusa da linearidade musical faz com que a música de Liniker seja uma evasão da nova MPB mais bonitinha e padronizada que ouvimos atualmente. De quebra, Liniker dá uma cara muito mais progressiva ao estilo e, ao que parece, ele/ela não está consciente disso, pois não importa muito qual o rótulo de sua música. Ela simplesmente acontece. Difícil saber até onde cada canção foi milimetricamente planejada e o que surgiu ali no estúdio, de forma mais espontânea. Isso é tanto um charme de Remonta quanto o indicativo de que Liniker e os Caramelows ainda têm bastante espaço para amadurecer a proposta em discos seguintes. O acaso e o vale-tudo caem bem, mas o álbum acaba perdendo em unidade e coesão. Não que isso acabe com a experiência. Longe disso.

Entre as músicas mais lineares do álbum estão a animada “Prendedor de Varal” – com guitarras ágeis no registro agudo e seco, um baixo com um timbre bem orgânico e um ótimo naipe de sopro –, a melancólica “Sem Nome, Mas Com Endereço” (outro exemplo de como a banda é ótima com finais de canções), a curtinha “Funzy”, que é o melhor lado Prince que um artista brasileiro da nova geração já mostrou ter, e “BoxOkê”, que tem o reforço da banda Aeromoças e Tenistas Russas e da cantora Tassia Reis, e é uma das melhores e mais completas músicas do álbum. Um exemplo que Liniker e os Caramelows são capazes de não perder a criatividade e ainda assim manter a faixa com uma direção bem definida e certeira.

Há uma sensualidade latente que atinge seus ouvidos tanto com as palavras cantadas, mas principalmente com a forma como Liniker as diz. “A gente fica mordido/ Dente, lábio, teu jeito de olhar/ Me lembro do beijo em teu pescoço/ Do meu toque grosso/ Com medo de transpassar – e transpassei!”, ele canta na excelente “Zero”. E o que dizer de “Nossa, como a gente encaixa gostoso aqui?”, no final de “Caeu”. E também é a sensualidade que dita “Tua”. E não tem como ser mais direto ao ponto do que em “Você Fez Merda”, faixa em que Liniker modula a voz para interpretar diferentes personagens e cantar um verso como “Você fez merda ao dizer que não me ama/ Depois da Transa que eu dei pra você”. E o final apoteótico, com a potente “Ralador de Pia” – “Me beija, me cheira, me tira do sério”, ele/ela canta –, voltando a mostrar que Remonta é uma micareta progressiva, psicodélica e divertida.

O “problema” de Liniker é o mesmo que O Teatro Mágico enfrentou com o primeiro álbum, Entrada Para Raros (2003), e o Móveis Coloniais de Acaju enfrentou com o segundo, C_MPL_TE (2009). Remonta é tão bom e tão criativo, num estágio tão inicial da carreira, que fica complicado manter o mesmo nível de inovação, diferenciação e surpresa no futuro. Liniker, advindo de uma família de músicos, teve que superar a vergonhar de cantar para poder nos encantar com sua voz, sua performance e sua música. Deverá continuar muito destemido – esperamos – para não ter amarras no futuro.

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