2016 Diversos Folk Indie Resenhas

Nouvelle Vague – I Could Be Happy (2016)

A bossa dos franceses continua viva

Por Lucas Scaliza

Seis anos depois de Couleurs sur Paris (2010), já era hora de a banda Nouvelle Vague mostrar material novo. Com uma das propostas mais interessantes do início deste século, conquista pela sensibilidade e doçura demonstrada no resultado final de cada álbum. Essas características continuam presentes em I Could Be Happy e não devem desagradar os fãs, mas não causa o arrebatamento dos três primeiros trabalhos.

Para quem não conhece, a banda Nouvelle Vague é francesa e empresta seu nome de um movimento de cinema francês da década de 1960 (que revelou diversos diretores essenciais para a sétima arte, como Jean-Luc Godard, François Truffault e Claude Chabrol, e a base musical da bossa nova brasileira, misturando-a com o feeling da new wave europeia. E tocavam covers de bandas de rock, punk, post-punk e new wave de 1970 e 1980. Comandada pelos violonistas e  produtores Marc Collin e Olivier Libaux, sempre mantém a dinâmica de convidar diferentes cantoras francesas para interpretar as canções de cada disco e reza a lenda que nenhuma delas conhece a canção original antes que a versão da Nouvelle Vague seja gravada (e devo dizer que não acredito nessa lenda).

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Desde que ouvi pela primeira vez a versão dos franceses para “In a Manner Of Speaking” (Tuxedomon), “Love Will Tears Us Apart” (Joy Division), “I Melt With You” (Modern English), “Friday Night Saturday Morning” (The Specials) na estreia com Nouvelle Vague (2004), fui absorvido pelo bom gosto dos arranjos de Collin e Libaux, sem falar nas vozes macias de cantoras francesas das quais nunca tinha ouvido falar. A banda me apresentou versões bossa de músicas mais roqueiras e trouxe covers de bandas que também não conhecia até então. Até 3 (2009), o grupo manteve um repertório impecável, misturando clássicos do rock e da new wave de 70 e 80 com outras faixas mais obscuras. Mas era como se você sempre estivesse ouvindo tudo pela primeira vez. E não é difícil encontrar quem prefira as versões dos franceses do que as versões originais. Já o quarto álbum foi feito com predominância de canções em francês e cada uma das 18 faixas ganhou uma voz diferente (Camille e Mélanie Pain, que entregaram excelentes contribuições à banda no passado, estão na lista, assim como outras mais novas, como Soko e Cœur de Pirate).

Em I Could Be Happy, o Nouvelle Vague volta a dar preferência ao inglês, mas o repertório de canções interessantes dos anos 70 e 80 começa a ficar menor. Ao mesmo tempo, a produção autoral começa a ganhar mais espaço. Assim, o novo disco tem seis covers e quatro faixas originais da banda que estão totalmente em pé de igualdade no disco.

“Loneliness” é tão bem arranjada e bonita, revelando tanto as cores da valsa popular francesa quanto o clima bossa-new wave de todo o resto do catálogo de covers, que se passaria por outro cover de música famosa facilmente. “Algo Familiar” surpreende, sendo a primeira faixa em espanhol da banda e não deixa de ter algo de catalão em seu som, não restringindo a cultura espanhola apenas à letra. “Maladroit” e “La Pluie Et Le Beau Temps”, ambas em francês, mostram duas vertentes diferentes do grupo. Embora ambas sejam um tanto melancólicas, a primeira é mais dramática e tem mais suspensa em seus acordes dedilhados. A segunda é mais leve e colorida.

As músicas originais de Collin e Libaux demonstram o apreço pelo estilo clássico de composição. Versos, refrãos, notas sempre brilhantes e o uso do teclado e do sintetizador nunca tira a função harmônica dos violões, assim como a percussão (sempre leve), sempre complementa o balanço também imposto pelas seis cordas. Ainda é, afinal de contas, uma música que deriva da bossa nova (embora não fique restrito a ela).

Entre os covers, temos uma linda versão de “Athol Brose” (Cocteau Twins) com um crescendo que leva até a resolução harmônica da faixa e um dos momentos mais bonitos, embora curto, que a discografia do Nouvelle Vague já produziu. “Love Comes In Spurts” (Richard Hell and the Voidoids) é uma das únicas músicas levadas pelo baixo. A clássica “I Wanna Be Sedated” (The Ramones), na mão do Nouvelle Vague, soa muito mais sofisticada e mais sedada do que a original, já que diminuíram a velocidade e a cantora interpreta a melodia com mais nuances do que aquele jeitão diretão e seco típico dos Ramones.

“I Could Be Happy” (Altered Images) é uma das faixas mais acessíveis do álbum, que confia na batida de violão típica da bossa, no poder melódico da voz e em um assobio que gruda na cabeça. “All Cats Are Grey” (The Cure) é outra dessas grandes reinvenções que chamam a atenção e lembra os ótimos momentos dos dois primeiros álbuns. “No One Is Receiving” (Brian Eno) tem algo de psicodélico que raramente vemos na Nouvelle Vague, mas mantendo a mesma fé na composição, sem que para isso precise apelar para experimentações.

As cantoras convidadas desta vez são Camille, Nadeah, Clara Luciani, Élodie Frégé, Mélanie Pain e Liset Alea. As três últimas estarão na turnê mundial da banda, que passará por Estados Unidos e América do Sul em 2017.

Fica claro que arranjo e produção são tudo na hora de determinar como uma música será. Mais uma vez, temos covers, mas totalmente reimaginados. Não é a toa que após o Nouvelle Vague diversas outras bandas descobriram que sim, você pode reinterpretar músicas clássicas e conseguir um ótimo resultado. O segredo é fazê-las parecerem suas. O Nouvelle Vague consegue isso mais uma vez, mas fica a impressão de que um pouco da mágica se foi. Talvez seja o repertório, talvez seja a repetição da fórmula pela quinta vez.

Se entre 2004 e 2009 eu escutava diversas vezes o disco do Nouvelle Vague para entender como o rock do Echo & The Bunnymen, do Billy Idol ou do New Order pôde se tornar uma bossa tão leve e sensível, agora está muito mais fácil de ouvir e sacar o o que e o como da banda. Não que não existam várias nuances ao longo de I Could Be Happy, mas falta algo que possa continuar intrigando quem já se acostumou com o modus operandi da banda e esperou seis anos por material novo.

Em todo caso, I Could Be Happy está longe de ser menos do que ótimo.

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1 comentário em “Nouvelle Vague – I Could Be Happy (2016)

  1. Pingback: Yasmine Hamdan – Al Jamilat (2017) | Escuta Essa!

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