2016 Pop r&b Resenhas

Solange – A Seat At The Table (2016)

Com racismo e feminismo na pauta, a irmã de Beyoncé dá voz a quem sofre

Por Gabriel Sacramento

Solange Knowles ainda é bastante conhecida por ser a irmã de Beyoncé. Mas a cantora está trabalhando para mudar isso e criar sua própria identidade no mundo da música. A Seat At The Table é um passo largo nessa direção. Com um storytelling forte, assim como o de Lemonade da irmã mais famosa, e de um jeito pessoal, ela lança sua contribuição musical sobre a questão racial americana.

Obviamente, sua contribuição não possui a mesma grandeza que a da irmã, nem o grande número de participações famosas. Mas artisticamente, Solange se mostra capaz de fazer um trabalho tão relevante quanto o de Beyoncé e de outros artistas pop, mesmo que com menos recursos financeiros (como a Alicia Keys também o fez).

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Quatro anos depois do ótimo EP True, Solange tenta chamar a atenção e convencer quem ainda não acreditava nela. Para isso, ela escolhe falar de racismo e feminismo, tentando alcançar as mulheres negras do seu país. Sua mensagem é clara. Para o background musical, ela opta pelo R&B, neo soul e até um pouco de psicodelia. Suas escolhas musicais fogem do óbvio e o tom alternativo do álbum é um fator de destaque imediato.

A cantora começou a trabalhar no novo álbum em 2011. Contou, inclusive, que sofreu alguns problemas psicológicos devido à entrega emocional dispensada às gravações. Neste período, lançou o já citado True e, depois, focou no álbum completo. Para produção e composição, Solange contou com muita gente: de Raphael Saadiq, Lil Wayne e Sampha até seu marido, Alan Ferguson. É o primeiro disco lançado pelo seu próprio selo, Saint Records, e distribuído pela Sony.

“Rise” e “Weary” são as faixas iniciais, que abrem o disco atestando o seu poder de fogo. A primeira já traz uma temática relacionada ao racismo e foi inspirada nos assassinatos em Ferguson e Baltimore, e é caracterizada por um jogo de vozes muito bem sacado e uma base econômica. Já a segunda é quase hipnótica, vai ganhando vozes com o tempo e possui uma linha de baixo marcante. “Cranes in The Sky” e “Don’t You Wait” possuem grandes melodias muito bem executadas, que demonstram, acima de tudo, que Solange sabe comandar as faixas com sua bela voz. “Where do You Go” traz timbres de soul clássico e “Junie” evoca um clima mais R&B noventista, com harmonias dançantes. “Don’t Wish Me Well” e “Scales” apostam nos poucos elementos ao fundo e no desenvolvimento lento dos vocais. As melodias nestas faixas vão aos poucos revelando sua beleza e cativando o ouvinte.

A cantora também utiliza a estratégia que Frank Ocean tem explorado em seus trabalhos (assim como outros artistas): interlúdios que complementam a história. O primeiro é “Interlude: The Glory is In You”, que fala sobre encontrar a paz em si mesmo e surge entre “Weary” e a ótima “Cranes in the Sky”. “Interlude: Dad Was Mad” fala sobre o racismo sofrido pelo pai da cantora durante a infância e adolescência. É sucedido por “Mad”, que traz o rapper Lil Wayne e aprofunda a sensação de raiva dos negros. Racismo reverso é o tema do interlúdio “Tina Taught Me”, onde a mãe de Solange fala sobre os brancos que questionam a questão da celebração da cultura negra. Logo em seguida, “Don’t Touch My Hair”, com o britânico Sampha, é sobre as mulheres e o tratamento dado por uma sociedade que não se importa com elas como deveria.

Aprofundando a questão do racismo e do sofrimento das mulheres, Solange Knowles busca passar sua mensagem em uma hora muito pertinente para o mundo com A Seat At The Table. Sua proposta é abordar as dores dos menos favorecidos, dar voz a eles, uma voz musicalizada, envolta em molduras instrumentais e melodias acessíveis. A sua mensagem é raivosa, urgente, enquanto sua música acalma e amortece.

É importante dizer que o novo disco de Solange seus méritos tanto no quesito letras, quanto no quesito música. Se as letras possuem um conceito profundo e reflexivo, a música é recheada de elementos instrumentais simples, econômicos, enxutos e bem sacados que abrem mão de toda a superprodução pop para algo que se vale pelos pequenos detalhes, deixando a voz e as letras em primeiro plano.

O disco tem canções belíssimas, com vozes harmonizadas e até um potencial comercial. Embora não seja o foco, não podemos dizer que não existam possíveis hits. Encaixa-se perfeitamente no R&B moderno – e até alternativo –, possuindo um ou outro elemento anacrônico, embora, em si, não soe anacrônico.

A mensagem aos negros não é uma temática nova a ser explorada em discos. Recentemente, vimos Beyoncé, Kendrick Lamar, Frank Ocean, Blood Orange e outros tocando nesta ferida da sociedade e reafirmando a questão racial. O racismo tem sido a bandeira de muitos artistas ultimamente, o que tem feito não só bem à comunidade negra no mundo – cujos problemas começam a receber atenção –, mas à música, com contribuições mais do que relevantes e significativas.

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3 comentários em “Solange – A Seat At The Table (2016)

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