2016 Resenhas Trilha Sonora

Doutor Estranho (Doctor Strange) – a trilha sonora de Michael Giacchino (2016)

Compositor coloca orientalismos e psicodelia com segurança demais para não sair da “fórmula”

Por Lucas Scaliza

Parte do sucesso dos filmes da Marvel Studios no cinema se deve ao desenvolvimento de uma fórmula que garante que cada um de seus filmes terá uma certa carga dramática (mas nunca dramática demais), personagens cativantes interpretados por bons atores, sempre colocar piadas para aliviar toda e qualquer tensão e sempre seguir a velha jornada do herói que, embora seja um tipo narrativo já bem manjado, continua conquistando crianças, adolescentes e adultos pelo mundo afora, quase todos não percebendo que estão lhes vendendo a mesma coisa de novo e de novo.

Essa fórmula também está presente – e bem executada – em Doutor Estranho (Doctor Strange), o filme que traz o multiverso e as diferentes dimensões acessadas por meio da magia oculta para o universo cinematográfico da Marvel. Os ingredientes da fórmula estão todos aí: temos excelentes atores na tela: o inglês Benedict Cumberbatch é o arrogante, mas determinado, Dr. Strange do título, um neurocirurgião que acaba buscando as artes mágicas após ter suas mãos estraçalhadas em um acidente de carro. Tilda Swinton e Mads Mikkelsen, que dispensam apresentações, também estão no elenco. Strange vê sua vida completamente modificada após o acidente e gasta todo o seu dinheiro na busca por uma cura. Chega ao fundo do poço até encontrar uma mentora (a Anciã), um sidekick (Mordo) e um antagonista que é, aliás, muito parecido com ele (Kaecilius). Aí estão os elementos para identificarmos a jornada do herói.

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A Marvel vem tentando sofisticar seus filmes colocando temas adjacentes à trama principal. Tivemos, por exemplo, a questão da vigilância e da espionagem criminosa do governo americano em Capitão América: Soldado Invernal, representando toda a crise do escândalo da NSA denunciada por Edward Snowden. Em Doutor Estranho, o diretor Scott Derrickson fala sobre a morte, mas de uma forma bastante superficial, sempre encaixando piadas nos momentos que poderiam ser mais dramáticos para não deixar ninguém ficar down.

Mas e quanto à música? Bem, a música não faz feio, mas segue o receituário da Marvel e acaba sendo mediana. É um elemento importante para as cenas, mas óbvio demais. Aliás, todas as trilhas para filmes da Marvel passam quase despercebidas. Carecem de alma, de melodia e, principalmente de originalidade. Como demonstra este vídeo, os diretores primeiro montam as cenas com músicas de outros filmes, e só depois incluem as músicas originais compostas para seus filmes. No caso da Marvel, eles se utilizam de trilhas de filmes do próprio estúdio e acabam se baseando demais nelas, causando um autoplágio flagrante e preocupante.

A escolha de Michael Giacchino para Doutor Estranho faz sentido. Ele tem personalidade para poder mudar essa realidade sonora do estúdio, é autor da ótima trilha de Divertida Mente (2015), da Pixar, que, assim como a Marvel, faz parte da Disney. Tinha esperanças de que ele tivesse mais liberdade para criar. Bem, acontece na maioria das vezes, Giacchino demonstra imaginação, mas fica em lugares comuns. Apenas ouvindo o disco da trilha, sem assistir ao filme, é possível identificar quais são as cenas de maior intensidade emocional, quais se conectam a vilões, quais demonstram perigo e quais acompanham as cenas de ação. A primeira, a pungente “Ancient Sorceress’ Secret”, deixa claro que trata de uma cena de ação grandiosa mesmo que você a ouça sem ter visto o filme. E o mesmo vale para a genérica “Hong Kong Kabooley” e “Astral Worlds Worst Killer”, ambas usadas nas cenas finais de ação do longa.

Como grande parte da história se passa no Oriente e emprega a mística oriental e viagens por diferentes dimensões, mas sem perder o foco da ação também em Nova York, a trilha de Giacchino contém sim escalas orientais e um leve tempero psicodélico que ouvimos em diversas faixas – como em “Astral Doom”, “Post Op Paracosm”, “Inside The Mirror Dimension” e “Strange Days Ahead”, mas especialmente em “Sanctimonious Sanctum Sacking”. É uma trilha de ação com alguns vestígios psicodélicos que tentam resistir ao teor mais padronizado da música. O coro e o sopro pesado dos metais denotam o maneirismo contemporâneo de todas as trilhas de ação e de filmes de heróis. Já o baixo sintetizado e as batidas eletrônicas discretas trazem algo de diferente para quem a ouve com atenção.

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Como também trata de magia, Giacchino não resiste e usa os mesmos sons que já ouvimos oito vezes (até agora) na série cinematográfica Harry Potter (caso de “Reading Is Fundamental” e “Smote And Mirrors”, principalmente). Nas faixas comentadas até agora, o compositor se esforça para dar o sabor do oriente e o feeling da magia, mas não pensa muito fora da caixa. Sua música soa muito padronizada e ocidentalizada. Nos quadrinhos, o Ancião que treina Strange é um místico budista do Tibete, mas temendo não ir tão bem no mercado chinês (que tem ódio do Tibete), fizeram a personagem ser interpretada por um ocidental (Swinton) e que pratica um tipo de ocultismo oriental mais genérico.

Mas há bons momentos na trilha também. “The Hands Dealt”, que acompanha o sofrimento de Strange após o acidente, é belíssima e ressalta com perfeição o interior triste e turbulento do neurocirurgião. É um dos únicos momentos de pura beleza melancólica do filme, onde ele permite que o drama seja completo, sem as fugas para as piadinhas (que ocorrem automaticamente, como manda a cartilha da fórmula Marvel). “A Long Strange Trip” acompanha a primeira viagem astral do personagem e é sensacional. Psicodélica, acordes tensos, efeitos que a fazem parecer ser tocada de trás para frente e um crescendo de vozes enervantes. E no final do filme e durante os créditos é que Giacchino se liberta e faz uma música sem amarras do padrão Marvel, podendo experimentar com guitarras cheias de efeitos psicodélicos e com um feeling oriental em “The Master Of The Mystic End Credits”.

Teria sido uma trilha mais condizente com o personagem e o contexto de suas histórias (que começaram a ser publicadas nos psicodélicos anos 60) se a trilha, como um todo, fosse mais experimental. Fica claro que Giacchino foi chamado por ser um compositor imaginativo e competente, mas seguro o bastante para não fritar em ácido. Para isso, incluíram a sensacional “Interstellar Overdrive”, do Pink Floyd de 1967 (a única música totalmente e verdadeiramente psicodélica de todo o filme), e dançante “Shining Star”, do Earth, Wind & Fire. Dois acertos e tanto.

Como nenhum filme da Marvel Studios teve uma trilha sonora original digna de nota até então (dada a popularidade e orçamento dos filmes), Doutor Estranho pode facilmente levar o título de melhor trilha desse universo cinematográfico. Mas como todos os outros ficaram abaixo da média, essa vitória está longe de demonstrar que trata-se de uma trilha notável. Ela funciona e tem mesmo ótimos momentos, mas carece da magia que, em outro contexto e em outra época, Harry Potter conseguiu traduzir para a pauta musical tão bem.

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2 comentários em “Doutor Estranho (Doctor Strange) – a trilha sonora de Michael Giacchino (2016)

  1. Minha mãe tá procurando uma música que diz que toca um trompete (acho que é na hora em que ele tá fazendo uma operação) sabe me dizer o nome da música?

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