2016 Eletronica Resenhas

Justice – Woman (2016)

Baixo com pegada e sintetizadores cheios de texturas reforçam a personalidade da dupla francesa

Por Lucas Scaliza

Cinco anos de espera por material novo da dupla Justice chega ao fim com o melhor que eles têm a oferecer. “Safe And Sound” é uma divertida e poderosa faixa de abertura que demonstra o que há de mais singular na forma como Xavier de Rosnay e Gaspard Augé pensam a música eletrônica. Há ritmo – e ele não se rende ao bate-estaca preguiçoso de seus pares mais comerciais –, há melodia que, embora bastante agradável, passa longe de ser açucarada demais ou de roubar o brilho do instrumental (embora seja importante destacar como o coral de crianças caiu bem à faixa), e há uma pegada roqueira que se equilibra muito bem com o pop, sem ofender nenhum dos dois estilos. E tem uma das melhores linhas de baixo do ano, cheio de slaps e volume bem alto na mixagem. Conforme a faixa se desenvolve, todos esses elementos acabam ressaltados pelas cordas de um violino da Orquestra Contemporânea de Londres.

O que “Safe And Sound” demonstra, por fim, é que Justice chega ao terceiro trabalho equilibrando-se muito bem no que havia de mais cativante em Cross (2009) – a pegada pop e dançante, mas sem ser assumidamente pop e dançante – e o que havia de mais interessante em Audio, Video Disco (2011) – o poderio instrumental, a capacidade de fazer música eletrônica com riffs, como se fosse uma banda de rock.

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O baixo tem papel fundamental e é usado sempre como o instrumento que dá a pegada mais orgânica do Justice. Em “Alakazam !”, ele faz riffs durante os versos e ganha timbre sintetizado e distorcido no refrão para acompanhar a melodia do teclado. Em “Pleasure”, o instrumento manda ver nos grooves durante os versos, marca a harmonia no refrão e ainda é utilizado de forma melódica no pós-refrão.

A preocupação com as harmonias e uma uniformidade de timbres pode ser sentida ao longo de todo o trabalho. Em “Pleasure”, “Fire”, “Stop”, “Randy” e “Love S.O.S” – todas com vocais mais convencionais – dão um show de bom gosto, derivando diretamente da fórmula como o Daft Punk alia pop, funk e eletrônico. Você não tem nenhuma dúvida de que se tratam de faixas do Justice: o baixo bem marcado, o sintetizador que faz a cama ou que traz o feel mais rústico (que numa banda de rock seria feito pela guitarra com distorção) e vocais supertrabalhados e bastante jovem, reforçando a presença de algo mais retrô em Woman.

Mas não apenas de canções acessíveis e marcantes vive o Justice. “Chorus” aproveita bem seus sete minutos de duração e faz algo análogo ao que o Daft Punk fez com “Motherboard” em Random Access Memories (2013): experimentação. No caso de Augé e de Rosnay, o rock progressivo perceptível no álbum anterior volta com tudo, com mão pesada e sem medo de aliar um coral bastante iluminado a um sintetizador que é primeiro sujo e dissonante, depois fantasmagórico e, por fim, imita uma guitarra bem noiser. “Heavy Metal” é outra instrumental que é um risco para o Justice. Além de estar posicionada entre duas baladas com vocais e muito mais acessíveis, a faixa é muito mais geométrica e um tantinho oitentista. Demanda um pouco de paciência do ouvinte e não flui como “Stress”, um peso pesado instrumental lá do primeiro disco do duo.

Fica claro que Justice não quer seguir o mesmo caminho pretensioso de Audio, Video, Disco, e nem se render completamente às harmonias e vocais mais marcantes de Cross. Woman acaba sendo um meio termo bem pensado, com personalidade. Não é melhor que os anteriores, mas dá unidade e continuidade ao que a dupla francesa apresentou até agora.

De acordo com a dupla de compositores, o disco se chama “Woman” pois a mulher representa poder e força (como a Justiça, a figura feminina vendada que carrega uma espada), um símbolo que dá vida a outra coisa, como um ato de Deus. E sem soar ambicioso demais, como davam a entender aqueles nove amplificadores Marshall que eram empilhados ao lado da dupla ao vivo, o novo álbum ainda soa alegre e vivaz. Nem mesmo as baladas mergulham o ouvinte em melancolia. Talvez a instrumental “Close Call”, que fecha Woman, carregue um pouco mais no lado emocional, mas ainda assim há esperança em seus sintetizadores e melodias arrastadas.

É, mais uma vez, um disco para quem gosta de música eletrônica com pegada. E o Justice a provê com desenvoltura e personalidade.

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