2016 Metal Resenhas

Deathspell Omega – The Synarchy Of Molten Bones (2016)

Black metal francês continua à frente dos demais, soando pesado, sinistro e experimental ao mesmo tempo

Por Lucas Scaliza

O novo álbum dos satanistas ortodoxos franceses tem só quatro faixas, mas são suficientes para transformar seus ouvidos em um pandemônio de peso, destruição, dissonância e letras difíceis de compreender, embora carreguem aquela beleza típica de palavras que são ordenadas para representar o lado mais metafísico e cerebral do satanismo. Se você não é um iniciado nessa igreja, pode não entender do que eles falam (e nem entender o que eles cantam, já que o gutural é denso e quase transforma todas as palavras em rugidos puros), mas certamente pode sentir a tristeza e a pestilência.

“The Synarchy Of Molten Bones” tem um início climático e até bonito, mas logo se torna um avassalador black metal de batidas lineares enquanto guitarra e teclado tentam resistir ao impulso destruidor da bateria e criar arranjos. E assim ela vai alternando enquanto o vocalista narra uma oração com a presença de diversas divindades e entidades pagãs, até citar a vontade de homens de valor e de más intenções, de cuja interação nascerá a semente da transgressão.

Já “Farmished For Breath” é outra dose de peso em que os vocais da banda dão outra mostra de monstruosidade e interpretação. “Vós deveis celebrar a concepção e o surgimento do Novo Homem, para quem tudo o que come ou bebe é propagado de maldição”, cantam.

Pois é. A coisa é pesada com o Deathspell Omega, do tipo que faz correr quem ainda “acredita” no black metal de Cradle Of Filth.

A longa “Onward Where Most With Ravin I Meet” é abismal. Tão pesada quanto as outras, tão confusa quanto as outras. Os sons são tão distorcidos e carregados de dissonância que mesmo as passagens mais fáceis de digerir estão carregadas de agressão. A mixagem das vozes, preservando um pouco de eco, faz parecer a voz da loucura em sua mente. Vai ficando claro também que The Synarchy Of Molten Bones é um álbum em que cada faixa se complementa. Na letra de “Onward Where Most With Ravin I Meet”, temos referências ao que foi dito na primeira faixa e até a continuação da história e do conceito. “A cria malformada de Pecado e Virtude causa tanto ultraje ao Universo que até mesmo os Titãs fogem, submergidos de náusea, sem a força para encarar este crime, que contém todos os crimes em um!”, cantam ao final. “Internecine Iatrogenesis” fecha os 29 minutos de música satanista com o fim do mundo narrado com toda a poética de que os franceses são capazes, acompanhado da mesma vibe sinfônica que abriu o disco.

A linguagem do Deathspell Omega é esta: peso, dissonância, e camadas e camadas de instrumentos, vozes, vocalizações e teclados. No meio de tudo isso, percebe-se uma intercalação de metal progressivo e até de fusion. Mas o encontro com o sinistro é o predominante em 90% do tempo.

A banda existe, mas não sabemos quem são seus membros, embora tenhamos alguns nomes: Khaos (baixo), Hasjarl (guitarra) e Mikko Aspa (vocal). Também nunca se apresentaram ao vivo para que tenhamos pistas de quem são ou de qual postura adotam frente aos fãs ou a qualquer público, mas vendem camisetas com o logo da banda e até dão entrevistas, sem nunca ser identificados. Mesmo assim, os discos são muito bem quistos pela comunidade black metal e de metal extremo, bem como por músicos interessados em formas de continuar explorando o peso da música, seja por meio de guitarras de oito cordas ou engendrando o caos sonoro. E o anonimato da banda, preferindo que seja reconhecida como um coletivo ou como uma força por si só, tem tanto a ver com evadir a fama individual quanto com a missão do grupo de fazer música que realmente reflita uma ideologia, e não uma forma de entretenimento – e esta ideologia usa a música como meio, não como fim.

The Synarchy Of Molten Bones também deixa claro como a banda, além de continuar sua evangelização perversa, tenta se manter artisticamente relevante, desafiando a si própria tanto tecnicamente quanto no campo das ideias. Enquanto muitas bandas são muito boas em promover seções realmente destruidoras em suas faixas, o Deathspell Omega o faz como quem cria diferentes camadas musicais e as sobrepõe. Isso faz com que o caos sonoro caracterize o black metal e dê um vislumbre de algo transcendental no som do álbum. É aterrorizante por um lado e bonito por outro. De qualquer forma, exige nervos de aço do ouvinte.

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