Bella Wolf – Bella Wolf (2016)

Investindo na flauta, Bella Wolf mistura o tradicional e o moderno em uma superestreia no jazz

Por Lucas Scaliza

Nem sempre é fácil encontrar um disco de jazz que seja tão completo e vasto de influências que possamos indicar para alguém que quer começar a ter algum contato com o estilo e, ao mesmo tempo, que soe interessante também para quem já é do meio e já ouviu dos clássicos às experiências mais contemporâneas do gênero. Geralmente, ou acabam sendo mais tradicionalistas (como o Brad Mehldau Trio), ou se entrincheiram em um nicho dentro do jazz (como os Yellowjackets) ou parte para uma abordagem supermoderna (como Donny McCaslin) ou promovem misturas inusitadas (como Badbadnotgood, Jaga Jazzist e Phony PPL).

Mas 2016 nos presenteou com Bella Wolf, o excelente primeiro álbum da banda de mesmo nome lá de Melbourne, Austrália, que é exatamente um tour de force jazzístico entre o formato tradicional do estilo (confiando no poder dos instrumentos acústicos, sem sintetizador e nem programações eletrônicas) e ao mesmo tempo propondo uma estrutura musical mais livre e cheia de partes diferentes. E apesar de todas as influências que sofre da música latina e rock experimental, não há dúvida de que se trata de uma autêntica banda de jazz.

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Embora instrumentos de sopro sejam bastante comuns do jazz, tendo o saxofone como o solista por excelência na maioria dos casos, o Bella Wolf surpreende logo de cara colocando a flauta como protagonista. Somente isso já garante uma vibração levemente diferente ao som deles e, se você é brasileiro ou sul-americano, sentirá um gostinho muito mais adocicado de familiaridade. E a flauta é conduzida com uma competência técnica de cair o queixo por Erica Tucceri. Ela mostra feeling logo na abertura com “The Devil You Know” e, se sobrou algum cético ainda, detona tudo com um virtuosismo impressionante em “Look Up”.

Erica Tucceri não é apenas a instrumentista central da banda. Ela é fundadora do Bella Wolf ao lado do baterista Tommy Harrison e também conduziu sozinha todo o trabalho de produção do álbum. Contam ainda com Selene Messinis no piano, Matt Hayes no baixo e Fabian Acuna no trompete. A faixa “Wouldn’t You Rather”, uma das mais latinas do álbum, conta ainda com o reforço de James Vincent no sax tenor e James Pownall na guitarra.

Como toda banda de jazz instrumental, há espaço para que os outros músicos também contribuam. Ao longo do disco temos pequenos solos de baixo, partes de piano que saem do plano da harmonia e tomam o centro da mixagem e passagens inquietas de uma bateria que conduz com perfeição ritmos bastante quebrados (como mostra “Thanks, But I Think I’ll Stay In”). “Jonglei”, um dos momentos mais calmos e misteriosos do álbum, deixa Erica cantar com seu instrumento de madeira enquanto o baixo de Hayes mostra como se faz uma base e, ao mesmo tempo, uma segunda voz para a música. Já “Interlude” foi composta para o baixo brilhar.

Já o trompete é o segundo instrumento solo da banda. Em “Saqsaywaman” temos uma das interações mais singulares entre Erica e Acuna. Enquanto o trompete de Acuna executa o tema principal da canção, a flauta de Erica surge apenas adornando a linha melódica. Aos poucos, temos uma inversão. O solo de Erica volta ao centro da banda e a melodia de Acuna vira adorno temático. Mas não pense que Acuna fica sempre em segundo plano. Ele solta seu trompete na segunda metade de “Turn Up” e se entrega à latinidade em “La Muela Del Diablo”. “Ponteio” é um dos momentos mais bonitos do disco e se passaria por música brasileira facilmente. Tem um ritmo mais constante marcado pelo baixo e um tema mais fácil de digerir que se assemelha muito à melodia de voz.

Além desse casamento entre o tradicional e o moderno, a Bella Wolf diz que a intenção era realmente fazer um casamento entre o jazz californiano e a música latina dos anos 70. Dessa forma, a banda acaba soando pura e, mesmo assim, conseguindo se encaixar nos quatro tipos de experiências jazzísticas que citei no primeiro parágrafo. Coisa rara. Entretanto, mais raro ainda é encontrar uma banda instrumental do gênero em que uma mulher é tanto a instrumentista principal, quanto produtora e cujo nome figura nos créditos da maioria das composições.

Se você é um apreciador de jazz – ou um apreciador de música de cabeça aberta que não tem medo de ser desafiado – não deixe de conferir Bella Wolf. Eles quebram o gelo do formatão mais americano do gênero diversas vezes. Mesmo nos momentos em que a musicalidade é mais técnica e virtuosa, o clima latino e leve ajuda a manter o ouvinte sempre de bem com a música. O desafio está lá, mas ele vem bem embalado em um vibe alegre e colorida.

Uma banda para não perder mais de vista. Uma das melhores estreias do ano. Um exemplo de jazz, de fusion e de música boa.

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