Deadmau5 – W:/2016ALBUM/ (2016)

Um novo bom disco, mesmo que o próprio deadmau5 não ache que seja

Por Lucas Scaliza

A nova pasta de músicas do laptop de Joel Zimmerman, localizada no endereço W:/2016ALBUM/, confirma: deadmau5 deixou de lado mesmo a melancolia experimental do longo While (1<2) (2014) e volta a fazer músicas mais animadas usando todas as características que fazem seu som eletrônico ser tão marcante.

Veja bem, o disco – cujo nome realmente é o mesmo da pasta de computador onde estavam os arquivos de áudio – não é o melhor da carreira dele, nem mais ousado do que o anterior, mas é uma delícia de ouvir mesmo assim, mantendo o padrão da EDM de deadmau5 alto mesmo quando ele mesmo não acha que fez grande coisa. Em uma recente entrevista de capa para a NME, ele diz que W:/2016ALBUM/ é “a culminação de três anos de merdas que estavam num disco rígido”. Zimmerman é um cara que gosta de desdenhar de si mesmo, é parte da sua personalidade, mas sabe reconhecer o que fez de bom e lhe rendeu fama, reconhecimento de grandes nomes da indústria e uma mansão de 5 milhões de dólares no meio de uma floresta a uma hora de Toronto.

(Mas não se engane: o contrato dele com a EMI acabou e ele é capaz de lançar o que quiser, criativamente falando, já que agora lança sua música por seu próprio selo, sem a pressão de ter que vender horrores para contentar alguns acionistas.)

deadmau5_2016

Apesar de você reconhecer facilmente o estilão e as batidas regulares e os microbeats de deadmau5 ao longo do álbum, o produtor tem apreço por tentar seguir em frente testando algumas experiências novas, mesmo que ele mude o como e chegue muito próximo do resultado já obtido antes. Desta vez, também tomado por, quem sabe, um tipo de interesse retrô, mas também tomado pelo desafio de utilizar uma tecnologia antiga só pelo prazer do desafio, deadmau5 usa sons provenientes de fitas VHS e equipamentos do século passado para fazer sua música eletrônica (“Glish” vai te lembrar os jogos do Super Nintendo e “Car Thruster” um tipo esquisito de soul setentista feito por máquinas).

Tudo isso graças a um sintetizador Prophet 10. É como se ele não tivesse deixado os equipamentos digitais e mais modernos, pois ele sempre mostra saber para onde vai cada faixa, mesmo que algumas delas passem tempo demais insistindo em uma batida. Porém, sabendo que ele utilizou muito equipamento antigo e analógico, o feeling é diferente. Você não vai ter as mesmas texturas num disco do David Guetta ou do Calvin Harris, sabe?

Há potencial comercial em W:/2016ALBUM/. As faixas deverão agradar bastante quem gosta de um eletrônico instrumental cheio de camadas e até um certo clima de paranoia dance. “Deus Ex Machina” tem uma curta intervenção de sintetizadores que eleva a faixa a uma das melhores do disco. É aquele detalhe corajoso que faz toda a diferença, entregando um momento mais melancólico no meio de batidas constantes e um baixo sintético que martela em seu tímpano. Com um começo retorcido e um final bastante anticlimático, o miolo de “Imaginary Friends” mostra que tem vocação para a pista – e tome bate estaca. Em “2448” temos toda a glória da timbragem analógica de seus brinquedinhos logo de cara. Uma das músicas mais animadas do álbum, principalmente porque confia muito na melodia, não apenas no ritmo e na harmonia. O mesmo acontece com “No Problem”, elétrica e retrô, outro dos pontos altos do disco e que prometem embalar shows do produtor.

Acontece que tirando um momento ou outro do disco, ou talvez a música “4ware” que parece uma reciclagem pouco astuta do estilo mais básico de deadmau5, o trabalho todo é muito bom e mostra que o canadense continua com a imaginação afiada para encaixar diferentes ideias no meio de sua fórmula já consolidada. Quando você menos espera, está totalmente entrega às vibrações de faixas mais lentas como “Snowcone” e sua percussão abafada e teclados viajantes. É tudo eletrônico, mas soa orgânico. Rica em detalhes, “Whelk Then” é o tipo de faixa que dá vontade de saber como foi composta, parte por parte, e depois mixada em um todo coeso.

Por opção, deadmau5 é cara solitário, mas faz música para pistas lotadas que também funcionam muito bem para quem está flanando por aí, acompanhado apenas dos fones de ouvido. A maior parte de sua produção não tem colaboração de cantores e W:/2016ALBUM/ tem apenas uma música com vocais: o single “Let Go”, com a voz de um total desconhecido chamado Grabbitz, que deadmau5 conheceu por acaso, por meio de uma rede social e de uma versão que o cantor gravou de uma de suas faixas. Longe de ser a melhor do álbum, mas tem vocal, o que é importante para muita gente que não se contenta apenas com os beats e sintetizadores de Zimmerman.

Reluto em dizer que seja um álbum para saciar sua nostalgia dos anos 80, mas é possível encarar o trabalho dessa forma. Só não perca de vista que, independente de qualquer Prophet 10, músicas como as apresentadas por ele atualmente são frutos de uma estética que usa o passado, mas não volta a ele totalmente. Joel Zimmerman, como ele mesmo diz, não tem intenção de fazer de novo o que já fez uma vez. Usar equipamentos analógicos e um pouco da música de 1970 ou 1980 são a base para algo novo, possível apenas atualmente, e não uma volta inocente no tempo.

deadmau5_studio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s