2016 Eletronica Pop Resenhas

Anohni – HOPELESSNESS (2016)

Uma estreia com música eletrônica de ponta e de protesto

Por Lucas Scaliza

Não é a toa que Anohni resolveu chamar seu disco solo de HOPELESSNESS (“desesperança”) com todas as letras maiúsculas. É um trabalho musical impactante e que toca em vários grandes temas da humanidade contemporânea e não tenta emitir uma visão favorável do mundo em que vivemos e nem buscar o lado bom das coisas. Nem aponta saídas, fazendo com que o conteúdo do álbum tenha um quê de urgência que se traduz muito bem em seu pop eletrônico forte e agudo, vibrante e saturado.

HOPELESSNESS é um álbum de protesto firme em seu propósito da primeira à última faixa. “Drone Bomb Me” assume a perspectiva de uma criança afegã para falar de uma guerra feita por drones, tornando o ato de matar mais fácil e impessoal, enquanto o horror da explosão ainda é o mesmo de sempre. “4 Degrees” é sobre a indiferença das nações e empresas frente ao aquecimento global e suas consequências nefastas. Anohni embala versos duros em melodias bonitas para mandar sua mensagem: “Quero ouvir os cães gritando por água/ Quer ver o peixe ficar de barriga pra cima no mar/ E todos os lêmures e todas essas criaturinhas/ Quero vê-las queimar, pois é só 4 graus”. E “Watch Me” é sobre a vigilância do governo dos Estados Unidos sobre seus cidadãos e sobre qualquer outro cidadão do mundo.

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Interessante é notar como Anohni encontra pontos de vista interessantes para cantar sobre cada assunto, colocando o assunto em uma pequena narrativa musical e não apenas falando como uma voz que tudo sabe e tudo acusa. E mesmo uma música como “Execution”, que fala sobre a pena de morte nos EUA, consegue ser sensível e até mesmo leve. Contudo, faz de “Obama” a música política mais soturna de 2016. Anohni lembra que execuções, guerras e ineficiência frente ao aquecimento global ocorreram durante a administração de Barack Obama e não o poupa. Se há desesperança nos EUA, ela é culpa dele também.

Olhando o álbum como um todo, é bom sempre desconfiar se algo não parecer afiado o suficiente. A björkesca “I Don’t Love You Anymore”, por exemplo, passa fácil como uma faixa de não-amor por alguém. Mas pense que ela está dizendo não para os EUA ou para a sua Inglaterra natal (ou mesmo para a Europa como um todo), países onde o capitalismo os fez desenvolvidos economicamente, mas não exatamente o melhor lugar para as pessoas viverem, terem seus direitos respeitados, como ela, que é uma transexual e sofreu/sofre preconceito por isso, além de diversos ataques diretos e indiretos. O álbum foi lançado antes da eleição de Donald Trump e do Brexit, o que apenas confirma a perspectiva dela: denunciar o conservadorismo agressivo e nocivo tanto nos EUA como em seu próprio país.

Anohni era conhecida como Antony Hegarty, vocalista da banda Antony and the Johnsons. Ela deixou para trás definitivamente sua persona masculina e abraçou a transexualidade. Ao ouvi-la cantar, fica claro que estamos diante de um timbre muito específico, esquisito a princípio, que tem a desenvoltura de uma mulher para as melodias e um timbre mais grave de homem. Pode levar um tempo até acostumar, mas com o tempo fica claro que estamos diante de algo bastante único.

O processo de criação e produção de HOPELESSNESS tomou três anos. A princípio, ela trabalhou com o produtor eletrônico Daniel Lopatin; depois, Hudson Mohawke embarcou no projeto. Os três se dividiram entre a criação de batidas, teclado, engenharia de som e mixagem. O resultado é um som eletrônico que não pretende ser fácil, mas também não deixa de entregar uma estrutural amigável ao ouvinte de música alternativa.

Parte americana e parte inglesa, Anohni fez um disco tão político quanto o The Hope Six Demolition Project de PJ Harvey este ano, outra inglesa que apontou o dedo na cara dos EUA sem medo. Não há como ouvir os dois discos apenas por diversão ou sem nenhum interesse humano. As letras são eloquentes demais e tratam de temas espinhosos demais para que passem despercebidas.

O protesto afiado migrou de mãos, deixou de fazer parte do rock e até das formas mais vanguardistas de música para entrar no R&B (Beyoncé e Solange) e no rap (Kendrick Lamar). PJ Harvey trouxe de volta a verve contestadora para o rock em 2016. Anohni, logo em sua estreia solo, consegue mostrar uma música eletrônica de ponta e conteúdo de sobra. Já estamos ansiosos pelo que está por vir.

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