2016 blues Resenhas Rock

Rolling Stones – Blue & Lonesome

Os Stones fazem blues, mas não tão bem como antigamente

Por Gabriel Sacramento

E os Stones lançaram um álbum novo depois de 11 anos. E o álbum não é de inéditas, embora faça tanto barulho como se realmente fosse. Em Blue & Lonesome, os bad boys londrinos trazem covers do estilo que os influenciou em toda a carreira musical – o blues.

Covers de blues não são uma ideia nova da gangue de Mick Jagger e Keith Richards. Afinal, eles começaram na música tocando covers de artistas como Muddy Waters e Chuck Berry. O ótimo Rolling Stone (1964) é uma prova de que a banda tinha um jeito muito próprio de interpretar canções do estilo americano. Assim como outras bandas inglesas, inclusive, que traziam mais do que o sotaque para o estilo que nasceu do outro lado do Atlântico.

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Esse jeito próprio aliado a uma inocência característica de jovens iniciantes no mundo da música era o que tornava fantásticas as coleções de clássicos do blues que executavam. E isso foi justamente o que faltou em Blue & Lonesome. A inocência deu lugar a megafama e pretensão de um grupo que conquistou o mundo com seu som, gerando um álbum que obedece aos limites do estilo, mas não brilha como antigamente.

Não estou sendo saudosista, até porque não sou daqueles que admiram somente os Stones do anos 60 e 70 de “Gimme Shelter” e “Brown Sugar”. Gosto também das produções mais modernas do grupo, como o Voodoo Lounge (1994). A questão é que Blue & Lonesome soa como um grupo de velhinhos que sabe fazer música extravagante, festeira e que não respeita regras rígidas, mas que optam por fazer justamente o contrário – música superprevisível e engessada.

“Just Your Fool” abre o álbum com uma das características marcantes do blues britânico, a presença da gaita. A voz cansada e sem energia de Mick Jagger entra em cena sobre uma base estática e um desenvolvimento sem surpresas. É o blues que você já ouviu 98.177 vezes por aí, afinal. A faixa que dá o nome ao álbum tenta ser um blues mais triste, mas a interpretação de Jagger fica devendo. “I Can’t Quit You, Baby” é uma versão da icônica faixa do Willie Dixon, e é impossível não lembrar da versão emblemática que o Led Zeppelin gravou, que soava bem mais marcante que a desse álbum, inclusive. O grande destaque da faixa é ter Eric Clapton na guitarra (que também fez um álbum de blues esse ano, que soa bem menos previsível que esse dos Stones). A guitarra de Clapton também surge em “Everybody Knows About My Good Thing”.

Os Rolling Stones sempre foram conhecidos pela irreverência musical. Afinal, era fabuloso ouvir discos como Exile On Main Street (1971) ou Let It Bleed (1969) e ficar imaginando se, quando eles gravaram, estava rolando uma grande festa dentro do estúdio, tamanha a energia da banda nestes registros. Tudo bem, era rock’n’roll; agora é blues. Era esperado que soassem menos festeiros. Porém, agora vemos muito pouco (abaixo do pouco que era esperado) da energia e vigor típicos deles e a banda soa cansada e mecânica.

Além disso, eles também não soam emocionais como deveriam. Algumas das canções que escolhidas e o estilo em si requerem entrega e sensibilidade, justamente o que os Stones não conseguem passar muito bem. Eles tentaram simular um disco de blues, trazendo as estruturas do estilo, as harmonias, mas falta o quê de desolação e tristeza profunda que um bom disco do gênero apresentaria.

É comum que muita gente elogie os caras por trazerem um disco novo depois de tantos anos e levando em conta a importância deles para o que conhecemos como rock and roll. Mas temos de considerar que Blue & Lonesome não representa os Stones fazendo blues da melhor forma. Talvez a idade dos músicos tenha pesado. Ou simplesmente foi a pretensão de fazer algo muito blues que acabou suprimindo a criatividade.

Enfim, dessa vez não estava rolando uma festa no estúdio quando gravaram.

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5 comentários em “Rolling Stones – Blue & Lonesome

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