2016 Funk r&b Resenhas Soul

Childish Gambino – Awaken, My Love (2016)

Donald Glover cresce em melodia e pretensão e tenta ser o D’Angelo de 2016

Por Lucas Scaliza

Awaken, My Love só foi lançado depois que várias importantes listas de melhores álbuns do ano já tinham sido fechadas e divulgadas. A pressa editorial de várias dessas publicações (algumas divulgaram suas listas antes mesmo de nascer o primeiro dia de dezembro) se baseou no fato de grandes os últimos grandes lançamentos do mercado musical terem se concentrado no mês de novembro. Mas é sempre bom lembrar que há quem gosta de surpresas. Como D’Angelo And The Vanguard, que pegou todo mundo desprevenido com seu incrível Black Messiah no apagar das luzes de 2014.

2016 teve seu D’Angelo: Childish Gambino, o nome musical do ator Donald Glover, chegou com um álbum pretensioso, variado e poderoso. Teria entrado em várias listas de melhores do ano – inclusive a nossa – caso tivesse sido lançado antes. O que Gambino/Glover consegue fazer em Awaken, My Love vai muito além do que seu rap e hip hop de Camp (2011) e Because The Internet (2013) tentaram ser.

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Embora o rap puro nunca tivesse sido a praia de Gambino e seus discos anteriores tivessem sempre algumas faixas mais melodiosas, pop e comerciais, foi o EP Kauai (2014) que melhor indicou a abertura sonora do músico para o que viria a seguir. Rap, hip hop, soul, funk, R&B, um tiquinho de jazz e psicodelia se fundem e se confundem de um jeito que faz a cabeça fervilhar com diferentes referências musicais espalhadas por quatro décadas de produção.

O funk rock de “Boogieman” é uma volta ao estilão clássico, orgânico e cheio de balanço do Funkadelic setentista. Não é apenas especulação a influência do Funkadelic. Até a capa do disco de Gambino é uma referência ao clássico Maggot Brain, de 1971, que é assumidamente um dos discos preferidos do ator e cantor. A música também evoca um tipo de bicho-papão dos Estados Unidos (lá chamado de “bogeyman”, mas musicalmente transformado em “boogieman” na faixa) que, na canção, assume o papel de um policial “com arma na mão” e que pode atirar em um negro. Fica aí a crítica social aguda de Gambino travestida de entretenimento retrô. A excelente abertura com “Me And Your Mama” também é um marco do disco, estabelecendo toda a estética que se seguirá ao longo do álbum, com uma pegada muito orgânica, timbres abafados e coral gospel.

“Redbone”, um dos singles do disco, é lenta e devotada ao estilo de soul popularizado pelo Prince. Embora não pareça, é o próprio Gambino que canta a faixa, de uma forma muito mais aguda e bem diferente de tudo que já mostrou, provavelmente para poder emular o cantor de “Purple Rain”. “Baby Boy”, que toma emprestado o jeitinho de Sly And The Family Stone é outro destaque mais lento do disco e com uma interpretação caprichada do cantor. “Zombies” tem um cativante refrão, mas todo o resto depende de sua entrega ao soul para curtir ou não. É lenta, o que contraste drasticamente com a energética “Riot” e sua guitarra carregada de efeitos de expressão vintages.

A principal diferença de Awaken, My Love para os outros discos de Childish Gambino é que desta vez a obra é muito mais melodiosa. Há muito mais um Gambino cantor do que rapper, mudança que sozinha é suficiente para mudar todo o jeito como ele pensa sua música. E com todas as influências e (aparentes) referências citadas acima, suas harmonias e técnicas de produção estão muito mais sofisticadas dessa vez. “Terrified” é um grande exemplo disso. A dinâmica sobe e desce e a carga emocional é levada tanto pela guitarra sensual quanto pelas vocalizações de Gambino, enquanto os acordes mudam e levam a faixa para diferentes territórios.

Ao que parece, Awaken, My Love é totalmente decidado ao filho de Glover, que nasceu este ano. Todas as letras, tenham ou não um contexto mais social ou político, acabam nos levando de encontro a questões de paternidade e família. Não é a toa que uma das faixas mais bonitas do disco chama-se “The Night Me and Your Mama Met” (a noite em que eu e sua mãe nos conhecemos) e trata-se de uma música instrumental que poderia muito bem ter sido feita em 1971. E como o álbum trata de infância – tanto a do filho recém-chegado quanto a de Glover, que é vislumbrada ao longo do repertório –, a volta aos anos 70 é tanto um exercício de estética e de produção quanto uma nostalgia evocada de forma pertinente. Afinal, Glover/Gambino foi uma criança nos anos 80 que cresceu ouvindo a música negra da década anterior.

Não acompanho a carreira de Glover como ator para saber como anda sua evolução nas telas. Mas na música, Awaken, My Love é um grande passo à frente para sua persona musical. Um destaque deste final de 2016 sem sombra de dúvida.

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