2016 Folk Resenhas Rock

Neil Young – Peace Trail (2016)

Relaxado, descontraído e sem muito tratamento

Por Gabriel Sacramento

Em 2015, Neil Young declarou guerra ao streaming ao alegar que a qualidade do som era a “pior da história” e iria retirar boa parte da sua preciosa discografia dos serviços online. Só restaram alguns, como o boicotado Everybody’s Rocking (1983). Ele disse que voltaria se a qualidade melhorasse e parece que melhorou, pois o cantor recolocou o seu catálogo nas plataformas em 2016.

Também em 2015, Young lançou um disco ao vivo, chamado Bluenote Café, com performances antigas e um álbum de estúdio, The Monsanto Years, com o grupo The Promise of The Real. Em 2016, Young resolveu fazer o mesmo e lançou o elogiado álbum ao vivo Earth e um de estúdio, Peace Trail.

neil_young_2016

Peace Trail se destaca por não apresentar o cantor e guitarrista acompanhado nem de sua tradicional banda Crazy Horse, nem de seus novos amigos do Promise of The Real. Young se abstém das guitarras flamejantes de The Monsanto Years, chama dois músicos de estúdio e decide fazer algo mais acústico e descontraído, a lá Harvest.

Gravado com poucos takes, podemos perceber o nível de relaxamento dos músicos nas execuções. O baixo pontual sempre presente de Paul Bushnell encontra a bateria criativa, que valoriza a variedade de tambores à sua disposição, executada pelo grande Jim Keltner (que já trabalhou com os Beatles). Em “John Oaks”, Young surge declamativo, contando uma história, empunhando seu violão, acompanhado pela cozinha dos músicos convidados. O timbre de bateria em “Glass Accident” sugere algo bem anacrônico e a canção se desenvolve como uma típica canção do bardo canadense.

“Indian Givers” é a mais marcante do álbum, com uma performance fabulosa do Keltner nos tambores e um entrosamento muito bom entre os três músicos. A faixa-título apresenta algumas intervenções de guitarra, com o violão mais tímido e ênfase nos instrumentos percussivos. Traz também alguns overdubs de vozes e uma melodia bem bonita no refrão. “Show Me” começa com um riff interessante de violão que aparece intermitentemente ao longo da faixa. A estrutura é bem simples e o refrão também, no qual Young canta as palavras do título.

As letras continuam incisivas e tocam em diversos pontos importantes ligados à questão política/social dos Estados Unidos. Ele vocaliza sua insatisfação com relação à disseminação de notícias falsas, tratamento indevido dado a povos indígenas e fala também sobre os casos de água contaminada em Michigan. Ou seja, Young continua sendo direto em suas críticas, sem pudor e nenhum tipo de medo.

Peace Trail não é superproduzido, nem perfeitamente mixado. Em alguns momentos, por exemplo, percebemos que a bateria soa um pouco mais alta que os instrumentos harmônicos. Essa questão técnica poderia ser um problema em qualquer outro álbum, mas não é neste. Pois a intenção de Neil Young foi justamente captar a energia ao vivo dele com dois músicos de estúdio e submeter isso ao mínimo de tratamento. É como ouvir os estágios iniciais de canções que geralmente ganham mais ideias e acabamento depois.

Por isso o tom de descontração e relaxamento com que o álbum é desenvolvido. A experiência é interessante: ouvir Young cantando canções simples, calmas, dentro do seu estilo folk e ainda com a crueza dos poucos takes. Para quem já curte o canadense, vale a pena. Se você ainda não conhece, Peace Trail pode parecer simplório demais para dar uma visão inicial de quem é o músico, então recomendo que vá atrás de suas obras primas antes, como After The Gold Rush (1970) e Everybody Knows This Is Nowhere (1969).

No geral, conclui-se que Neil Young não precisa de banda, nem de uma mixagem muito boa para ser Neil Young.

neil_young_2016_2

Anúncios

2 comentários em “Neil Young – Peace Trail (2016)

  1. Pingback: Ryan Adams – Prisoner (2017) | Escuta Essa!

  2. Pingback: Neil Young – Hitchhiker (2017) – Escuta Essa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: