2016 Live/Ao vivo Pop Resenhas Rock

Kate Bush – Before The Dawn (2016)

A inglesa voltou aos palcos com um espetáculo a altura da ambição de sua obra

Por Lucas Scaliza

Levou 35 anos para que Kate Bush se apresentasse novamente. Entre seu afastamento dos palcos e seu retorno houveram novos álbuns lançados pela cantora e compositora inglesa, como Aerial (2005) e 50 Words For Snow (2011), mas nada de turnês ou contato com o público. Em 2014 o hiato foi quebrado com uma série de 22 shows no Hammersmith Apollo, em Londres. O espetáculo foi chamado de Before The Dawn e não se tratou de um catadão dos hits ou uma espécie de “the best of” da carreira de Bush (não adianta procurar por “Wuthering Heights”, por exemplo). Foi uma oportunidade para ela e sua equipe criarem um espetáculo artístico que vai além da música e mostra a completude da artista. Before The Dawn pode facilmente ser comparado ao recente The Wall que Roger Waters levou ao redor do globo.

O álbum é triplo, assim como o show também é dividido em três atos (já deixando claro também os contornos teatrais do espetáculo). A primeira parte é um senhor abre-alas em que a banda de Kate Bush deixa claro a forma mais roqueira que músicas mais pop e eletrônicas tomariam ao vivo. “Lily” (versão de Director’s Cut, 2011) coloca uma guitarra para fazer um riff, bateria e baixo proeminentes e os teclados do refrão dão a carga dramática que afastam a faixa do pop sintetizado original (do disco The Red Shoes, 1993) e a levam ao rock. Sem falar que a interpretação de Bush para ela está melhor do que nas duas gravações de estúdio. O clássico pop “Hounds of Love”, que dá nome ao seu mais famoso álbum, também já aparece logo no início, não muito diferente do que já estamos acostumados ao ouvir.

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Já a climática “Joanni” rouba a cena nesse primeiro ato com toda a sua sensibilidade e sem o excesso de teclados e sintetizadores da gravação original. “Top Of The City” mostra mais uma vez o poder dinâmico da performance de Bush e não deixa nada a dever para a versão de estúdio de Director’s Cut. A balada “Never Be Mine” – lá do The Sensual World (1989), mas recriada em 2011 – faz o dream pop inglês dar as caras no show. A música que vem em seguida dispensa apresentações: “Running Up That Hill”, a primeira faixa de Hounds Of Love. Por fim , “King Of The Mountain”, com o dobro do tempo original e um clímax

O primeiro ato é um grande apanhado da cantora, uma grande apresentação de sua boa forma vocal e de como conseguiu formatar as canções para os palcos ao lado de uma boa banda. A partir do segundo ato o álbum pode se tornar um pouco hermético para quem é novato em Kate Bush, mas mesmo assim vale a pena ouvir, pois é quando ela põe em prática o espetáculo que além de musical é também visual (e ficamos na espera do lançamento do DVD e blu-ray com o show completo).

As 10 faixas do segundo disco, com mais de 70 minutos de música, reproduz o The Ninth Wave, o álbum conceitual e lado B de Hounds Of Love (leia nossa resenha especial do álbum para entender melhor). Com alguns interlúdios para criar uma unidade teatral, Bush entrega ótimas interpretações para as sete faixas dessa suíte sobre o ciclo de vida e morte de uma mulher perdida no mar durante a noite. “And Dream Of Sheep”, “Under The Ice”, “Waking The Witch” (que ainda conserva os efeitos eletrônicos e vozes da gravação original), “Watching You Without Me”, a celta “Jig Of Life”, uma versão poderosa de “Hello Earth” (incluindo o final mais soturno) e, por fim, a iluminada “The Morning Fog”.

O terceiro disco é composto quase totalmente pela suíte A Sky Of Honey, que ocupa o segundo disco de Aerial. É quando o rock’n’roll dá um tempo e deixa o lado mais suave e climático da inglesa se expressar. Embora seja um bom disco de Kate Bush, ele não é tão popular quanto os lançados na década de 80 ou anteriores. Ao fim de “Aerial”, longa e forte canção que encerra a suíte, temos “Among Angels”, representante de 50 Words For Snow. Fechando o disco, temos a excelente “Cloudbursting”, que toca como se 1985 tivesse sido ontem e mesmo após três atos musicais, a voz de Bush soa bem e não parece nada cansada. Além disso, quando a música termina, apoteótica, ouvimos Bush agradecer a plateia e parece bastante sincera e emocionada.

Seu retorno com Before The Dawn mostra que Kate Bush honrou a importância de Hounds Of Love, que foi de fato um divisor de águas em sua carreira, e nos lembrou como também é importante para ela os discos mais recentes e como parece ter “virado a página” de sua visão musical ao não incluir nada de seus discos pop de 1982 e da década de 1970.

O disco triplo Before The Dawn é bastante visual graças ao storytelling e à performance teatral evidente que une atos e faixas. Por isso, essa experiência só poderá ser completa com o registro em vídeo do show. Ainda assim, a versão apenas em áudio atesta como Kate Bush continua amadurecendo e propondo desafios a si e ao público.

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1 comentário em “Kate Bush – Before The Dawn (2016)

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