Ryan Adams – Prisoner (2017)

Disco para se sentir abraçado e com calor no coração mesmo nas horas mais difíceis

Por Lucas Scaliza

Prisoner sai apenas em fevereiro oficialmente, mas já antecipou sua vinda ao mundo graças aos leakers. Poderia esperar nem que fosse mais quatro anos para dar as caras e ainda teria a mesma graça ou a mesma personalidade. Ou a mesma falta de surpresa.

O que chama a atenção em Ryan Adams é sua capacidade de fazer boa música e sempre tentar ser diferente mesmo sendo sempre o mesmo. Você sempre pode apontar uma diferença ou outra em cada um de seus álbuns, porém temos sempre a mesma perspectiva do compositor, cantor e guitarrista e de seu rock indie às vezes comovente e básico outras tantas – e sempre cheio de alma.

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Prisoner é, mais uma vez, um misto de Bob Dylan e de Neil Young (mas sem os longos solos de guitarra), de Tom Petty e do senso de música pop do século 21. E como todos esses artistas, de certa maneira seu álbum acaba refletindo, mesmo que inconscientemente, o estado geral da complexidade de nossa época. Difícil ouvir um disco desses, tão doce e tão coração partido, sem pensar que reflete os Estados Unidos de hoje – ou de 2017. “Breakdown” pode falar da falta de uma pessoa que faz a outra perder o controle, mas metaforicamente também funciona como alguém tentando entender onde foi que perdeu o chão e como as coisas chegaram ao ponto em que chegaram. A eleição de Donald Trump é um fantasma, mas há outras questões envolvidas. O mesmo pode ser dito da excelente abertura “Do You Still Love Me”, mesmo sabendo que foi escrita durante o divórcio de Adams e de Mandy Moore, sua ex-mulher.

Como 16º disco da carreira, Ryan Adams vai se consagrando como um artista muito produtivo e que consegue mais uma vez fazer uma ponte entre a juventude e a idade adulta. Mesmo que seus solos de guitarra sejam agressivos e até um poucos secos, sua música é gentil e nada boba ou descartável. Ele próprio é um quarentão que não aparenta a idade que tem, não porque age como um eterno adolescente ou porque não se veste como o estereótipo do homem maduro. Ryan Adams sabe dialogar com a juventude e usa sua experiência acumulada para isso. Sua versão de 1989 (regravando todas as músicas do álbum homônimo de Taylor Swift) é exemplo de sua maturidade emociona e musical e Prisoner segue pela mesma trilha. Abusando de tons menores e de camas bem feitas de teclados, canta os temores e desilusões da vida. E não precisa de muito para fazer sua mágica, como provam as singelas “Shiver and Shake”, “Haunted House”, a acústica “Tightrope” ou “Anything I Say To You Now” e seus arranjos de guitarra usando o som do captador na ponte, dando um aspecto mais estalado a seus dedilhados e ritmos.

Adams e sua banda usam pedais, teclados e facilidades tecnológicas de estúdio sempre como ferramentas que ajudam a dar expressão à técnica e sensibilidade de cada músico, nunca como recursos que roubam a atenção para si mesmos, algo que é difícil de ver hoje em dia seja no rock, no pop ou mesmo na música independente (que às vezes é totalmente dependente de “efeitos cosméticos” e não da técnica de quem executa um instrumento). Por isso o álbum parece bastante básico, um rock and roll autêntico e quase despretensioso.

É aí que entra o problema do disco. Apesar de ser um belo registro, perfeito para longas caminhadas, para quem dirige por várias horas ou precisa se entreter no caminho de casa para o trabalho ou para a escola, falta audácia à Ryan Adams. Prisoner é exatamente o que esperamos dele e tudo o que sabemos que ele faz bem. Até quando pensa diferente, nós sabemos que é algo próprio dele.

Prisoner não é nenhum game changer em sua carreira e nem deverá elevar o status desse cancioneiro do indie rock americano para o público geral, mas mantém a rotina de bons álbuns, boas músicas e aquela sensação de estarmos ouvindo algo que, por mais adversidades que tenha enfrentado para ser criado, esquenta o coração e faz o ouvinte se sentir abraçado e confortado. 2017 vem aí.

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